Tudo o que Zinho queria era jogar bola.
Felizmente, não era por falta dela. Mas ele não tinha muita habilidade.
Não tinha sequer carinho com ela.
Quando fez 10 anos de idade ganhou sua décima bola. Passava horas
chutando na parede. Dormia abraçado com ela. Mas mesmo assim não tinha intimidade.
Ele até tentava nos campeonatos da rua, mas ainda a chamava de Bola. Não
era “gorduchinha”, “menina” ou sequer outro apelido.
Mas bastou ganhar uma bola oficial do Campeonato Brasileiro daquele ano
que a esperança
apareceu.
Mostrou para todos os amigos da rua. Organizou um novo campeonato com
ela. Ajudou a dividir os times, mas o dele, em específico, tinha uma condição:
Em caso de pênalti, ele batia. Era o dono da bola.
E o campeonato foi disputado. Durou quase um mês e o time de Zinho vinha bem. E foi quando
chegou a final do campeonato entre o time da Rua Viradouro contra o time da Rua
Pirapora foi que ele tomou conhecimento do tamanho da responsabilidade.
Ficou concentrado por dois dias, com alimentação regrada, até aquele domingo
de manhã, o dia da finalíssima.
Jogo começou truncado, com muitas faltas e com várias substituições
devido às tampas dos dedões, que
teimavam em abrir. Mas Zinho estava lá. Não recebia
muitos passes e errava muitos. Estava “apagado”, como sempre. Até a hora do pênalti.
Bateu no peito e chamou a responsabilidade pra si.
- Zinho, deixa eu bater esse?
- Sai fora Dedé. Eu que bato, você esqueceu?
E ninguém contestou. Era o dono da bola.
O problema foi que ele errou.
E como desgraça
pouca é bobagem, o goleiro bateu o tiro de meta rápido e o Pedro, o craque do
outro time, não perdoou. Fez 1x0. E cinco minutos depois comemoraram o título.
Todos olharam para Zinho, que não esboçou reação. Simplesmente pegou a
bola, colocou debaixo
do braço e não ficou pra festa do título do adversário.
Chegou em casa, colocou a bola numa caixa, mas sem desistir do futebol.
Agora, não mais como Zinho, mas como José Roberto, formou-se professor de
educação física.
Na faculdade, conhecido pelos amigos como Zé, tentou entrar nos times de pelada da turma, mas sem sucesso.
Era torcedor fanático do time da cidade, conhecia a história de glórias, o nome
dos 20 maiores artilheiros. Vivia o futebol diariamente, mas não podia entrar em campo que aquele
esporte, o qual amava, não foi feito pra ele. Pelo menos não como jogador.
E essa história inteira se passava na cabeça dele antes de grandes jogos,
agora que era um árbitro com escudo da FIFA.
E o jogo de hoje era um desses.
Final da Copa do Brasil. Dois times de massa em campo. Estádio lotado. E uma particularidade íntima para o José
Roberto. Um dos times tinha Dedé, ex-componente do seu time da rua, como
zagueiro. No outro, Pedro, recém-chegado da Europa, seu algoz na infância.
O time da casa na qual jogava Pedro era o favorito. Pedro se consolidou como grande camisa 10.
Fez sucesso na Europa e estava no Brasil há 06 meses apenas. Porém, deu uma
agitada no clube que chegou a final invicto.
E quando a bola rolou, Zé Roberto se concentrou no jogo.
O jogo estava bem disputado, mas sem grandes emoções. Até que Pedro cruzou uma bola e Dedé tirou
com a mão dentro da
área. Zé Roberto não marcou e
mandou o jogo seguir.
Ao fim do primeiro tempo, os jogadores vieram para cima do árbitro. José
Roberto não deu papo, mas ouviu de Pedro.
- Pode fazer o que quiser Zinho. Eu vou acabar com o jogo.
No segundo tempo, Pedro estava mordido. Ninguém conseguia parar o cara na
falta. Ele não era derrubado, conseguiu bons passes e dois chutes perigosos que
o goleiro adversário conseguiu salvar.
Porém, em um lance no meio de campo, Pedro recebeu um passe e no drible,
recebeu um carrinho por trás. Lance para expulsão. Zé marcou a falta, mas não
deu cartão, até mesmo porque quem havia feito a falta foi Dedé. Pedro levantou,
mancou e disse:
- Deixe ele em
campo que eu ainda vou fazer o gol.
Mas Zé não conseguia esquecer do jogo da infância, e tirou o vermelho do
bolso e expulsou Pedro.
A torcida ficou revoltada. O resto do time partiu pra cima dele. A PM
precisou entrar em campo. Jornalistas e comentaristas de arbitragem repetiram o lance
várias vezes e não viam motivo pra a expulsão de Pedro.
E José Roberto permanecia com o rosto sem expressão. Mantinha um ar
tranqüilo e sereno. Deu continuidade ao jogo que terminou 0x0. Na súmula,
constou que Pedro o
havia insultado com as ofensas que teria dito.
O STJD abriu um processo para analisar e punir o árbitro pelas falhas no
jogo. Na audiência, marcada para o dia do segundo e decisivo jogo, Zé estava
sentado no banco dos réus, ao lado de Pedro.
Porém, ambos
nem se cumprimentaram.
Pedro foi julgado primeiro e foi absolvido pela expulsão. Porém não
poderia estar em campo naquele dia devido à expulsão.
José Roberto foi julgado em seguida.
Pedro já havia deixado o prédio do STJD, e nem pode ver que José Roberto foi advertido
por dois erros, pois deveria ter expulsado Dedé e não deveria ter expulsado
Pedro.
- Ao menos me vinguei – pensou José Roberto.
No segundo jogo ao final daquela noite o time de Pedro ganhou por 2x0 e
foi campeão. Estava uma festa na cidade e o transito estava horrível.
E três horas depois de ser comunicado que teria que fazer um curso de
reciclagem, Zé Roberto chegou em casa e viu sua mulher com Pedro na cama.
Sem poder fazer nada, lembrou-se de um dos ditados do futebol.
A bola pune.
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