Pois é.
Meu time quase foi campeão
esse ano, Paul McCartney quase confirmado para fazer show aqui em Belo Horizonte ano que vem, estou quase
sendo chamado para uns concursos em que fui aprovado e quase cheguei entre os
dez primeiros, minhas férias quase chegando e estou quase conseguindo bater minhas metas
esse ano.
É muito quase né? Mas o
quase é aquela linha tênue que separa a expectativa da proximidade das
conquistas.
Esse ano trouxe muitas
coisas boas para mim. E uma delas foi realizar o sonho de ter um blog que seja lido por
no mínimo, sei lá, 10 pessoas. Era frustrante me esforçar para contar os frutos da minha mente doentia para alguém e ver essa pessoa rindo,
amareladamente, apenas para não me deixar sem graça.
Assim, dez pessoas podem dar aquele sorriso amarelo por trás dos monitores/telas do celular . Olha que beleza!
Por isso, se você está
lendo isso agora, agradeço, por ter me dado
alguns minutos de sua atenção.
Mas outra coisa me fez feliz esse ano.
Tirei a barriga dos balcões do fórum e dos Juizados Infernais, digo Especiais,
da minha vida.
Graças a Deus e a mim, que passei no concurso, saí da vida sub-humana que levava como advogado e me
tornei funcionário público.
Sim! Meus cabelos brancos diminuíram, minhas roupas
sociais estão esquecidas, meu cérebro atrofiou um pouco (tanto que fiz o blog e
vocês estão vendo o resultado), mas agora tenho mais tempo para mim e para
estudar e vocês estão pagando meu salário. Não é ótimo?
Não. Não é ótimo. Eu sei
que não é. Não pelo salário, mas pelo fato de aqui me deparar com um fantasma
de natais passados: Amigo oculto.
Gente, eu odeio amigo
oculto. Aliás, acho que todo mundo odeia amigo oculto. Todas as pessoas com que comentei isso na vida respondem “eu
também”. Então porque, meu Deus? Porque?
E o engraçado é que nos
escritórios em que trabalhei não tinha isso. Tudo bem, tinha aquelas festas com um apertão de mão aqui,
aperto de mão ali, tapinha nas costas dos outros, discursos mais acalorados dos
diretores, mas a
verdade é que todos estavam ali comendo e bebendo de graça e nem ouvindo essas
coisas.
As únicas vezes que fui
obrigado a participar disso foi quando estagiei em algum órgão público.
Sim, obrigado. TODOS os
funcionários do setor participavam. E me olhavam torto se não participasse. Eu sofreria
bullying...
Antes que alguém que goste
de amigo oculto me diga que o problema desta convenção coletiva de fim de ano
(se bem que tem a modalidade de páscoa, amigolate, que me dá mais preguiça ainda) é o fato dos valores
dos presentes serem
desproporcionais, eu
discordo.
Tá, tudo bem. Se um
estagiário tira o chefe do setor e dá uma garrafa de uísque que custa 900 reais
sendo que o limite era 50 reais e a telefonista tira o referido estagiário e dá uma gravata de 19,90 acompanhado
da latinha de
presente da loja que custa 29,90, é meio incoerente. Aliás, é meio foda mesmo...
Mas o que mais me incomoda
é você ter que descrever alguém que você não conhece.
Se você reclama dos Deuses
do futebol é porque nunca precisou dos Deuses do Amigo
Oculto.
Se você já participou de um
amigo oculto na vida e não usou o truque do
“ai-meu-deus-tirei-eu-mesmo-deixa-eu-tirar-de-novo”, sabe do que estou falando.
A menina do sorteio vem com
os papéis dobrados e você tira. Sai uma das opções abaixo:
a) Você tira o Fulano. ...
mas quem é fulano? Você
não pode perguntar pra ninguém porque senão todos vão descobrir quem você tirou. Aí tem que abrir o
organograma da empresa ou fingir de besta pra telefonista: “Quem é Fulano?
Ligaram no meu ramal
um dia desses e eu não sei quem é esse cara. Você sabe quem é?” Aí você tem que
comprar algo para uma pessoa que você não sabe nem onde senta. Pior. No dia da
entrega, você tem que
descrever essa pessoa.
b) Você tira o Sicrano,
aquele cara que você sabe quem é, mas não gosta dele. O cara que enrola no serviço, que te dedura
pro chefe, que já derrubou café na sua camisa branca, que fica 15 minutos no
banheiro, que transfere ligações pra sua mesa sem avisar, que torce pro seu
rival e faz piadas quando seu time perde mas que apela se você vai gozá-lo, que fura fila na hora do
almoço e que reclama quando tem um crowdfunding, ou vaquinha, para os cafés ou aniversário de
alguém mas que só falta enfiar salgadinho no bolso. Aí você tira esse cara e
tem que descrever
essa pessoa.
É sempre assim! Você só vai tirar a pessoa que
almoça com você se usar o já citado truque
do “ai-meu-deus-tirei-eu-mesmo-deixa-eu-tirar-de-novo”. E aí se vire para descrever...
Uma vez, trabalhei em uma
autarquia de uma prefeitura de uma cidade vizinha à Belo Horizonte. Aí aquela coisa de tirar nome, preço
combinado, lista de opções, metade da repartição já saber quem você tirou,
enfim, tudo que envolve o amigo oculto.
Almoço rolando, chopp e
refri de graça até a fatídica hora da troca de presentes. Uma mulher falou na frente:
- Meu amigo oculto é um
estagiário da triagem de processos, futuro advogado, usa óculos e muito gente
boa.
- Ah, então é o Lucas –
gritou outra mulher.
- Não. É outro.
- Então é o Luís – gritou
meu chefe.
- Não.
Detalhe: Na triagem
trabalhavam cinco estagiários. Duas mulheres, o Lucas, o Luís e eu. Porra! Só
eu usava óculos! E mesmo assim erraram duas vezes! E eu sou gente boa cacete!
Como que erraram???
- É o Guilherme então.
- ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!
Acertou! É o
Guilherme.
E eu ganhei uma camisa. Marrom. Nem vou comentar.
- Bom, minha vez. Obrigado
viu Camila, o presente foi lindo. Então, meu amigo oculto trabalha na Montagem de Processos, é loiro e gente
boa.
Cri. Cri. (barulho de
grilos).
Eu olhando e ninguém respondia. Acho que seria melhor
outra definição.
- Meu amigo oculto trabalha
na Montagem de Processos, é loiro, gordo, falso, com uma voz de viado do
cacete, chega atrasado todo dia, nas sextas fedendo cachaça, cruzeirense chato
e acabou de roubar uma caixa de bombom ali.
Juro que pensei em definir
assim, mas não podia né.
Mas eu não conhecia mais
nada do cara. Nem como era a voz dele. Fiquei olhando todo mundo e todos me
olhando em silêncio.
- Er... Guilherme, não é
por nada não, mas não tem ninguém loiro que trabalha na montagem de processos. Loiro aqui só tem o Pedro
e ele trabalha na Recepção de Processos.
- Quem é Pedro?
- Eu sou Pedro – levantou
um menino.
Eu olhei pro cara e pensei.
“Uai, foi esse FDP aí que eu tirei não foi não?” Chamei o Lucas que trabalhava comigo na
Triagem e perguntei baixinho quem era o Roberto que eu havia tirado.
- Roberto Junqueira?
- Sei lá se é Junqueira. Só
sei que é Roberto.
- Guilherme, Roberto é o
Superintendente. É o chefe do Moisés, nosso chefe.
É, eu quase acertei.
E então, na frente de
outros 43 funcionários, disse que era pegadinha do Malandro (ié-ié), e que iria
descrever meu verdadeiro amigo oculto.
Tomara que o Roberto tenha
gostado daquele CD do Só pra Contrariar que eu dei pra ele depois de ter
ganhado no ano
anterior...
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