terça-feira, 27 de novembro de 2012

Meu amigo quase oculto


Pois é.

Meu time quase foi campeão esse ano, Paul McCartney quase confirmado para fazer show aqui em Belo Horizonte ano que vem, estou quase sendo chamado para uns concursos em que fui aprovado e quase cheguei entre os dez primeiros, minhas férias quase chegando e estou quase conseguindo bater minhas metas esse ano.

É muito quase né? Mas o quase é aquela linha tênue que separa a expectativa da proximidade das conquistas.

Esse ano trouxe muitas coisas boas para mim. E uma delas foi realizar o sonho de ter um blog que seja lido por no mínimo, sei lá, 10 pessoas. Era frustrante me esforçar para contar os frutos da minha mente doentia para alguém e ver essa pessoa rindo, amareladamente, apenas para não me deixar sem graça.

Assim, dez pessoas podem dar aquele sorriso amarelo por trás dos monitores/telas do celular . Olha que beleza!

Por isso, se você está lendo isso agora, agradeço, por ter me dado alguns minutos de sua atenção.

Mas outra coisa me fez feliz esse ano. Tirei a barriga dos balcões do fórum e dos Juizados Infernais, digo Especiais, da minha vida.

Graças a Deus e a mim, que passei no concurso, saí da vida sub-humana que levava como advogado e me tornei funcionário público.

Sim! Meus cabelos brancos diminuíram, minhas roupas sociais estão esquecidas, meu cérebro atrofiou um pouco (tanto que fiz o blog e vocês estão vendo o resultado), mas agora tenho mais tempo para mim e para estudar e vocês estão pagando meu salário. Não é ótimo?

Não. Não é ótimo. Eu sei que não é. Não pelo salário, mas pelo fato de aqui me deparar com um fantasma de natais passados: Amigo oculto.

Gente, eu odeio amigo oculto. Aliás, acho que todo mundo odeia amigo oculto. Todas as pessoas com que comentei isso na vida respondem “eu também”. Então porque, meu Deus? Porque?

E o engraçado é que nos escritórios em que trabalhei não tinha isso. Tudo bem, tinha aquelas festas com um apertão de mão aqui, aperto de mão ali, tapinha nas costas dos outros, discursos mais acalorados dos diretores, mas a verdade é que todos estavam ali comendo e bebendo de graça e nem ouvindo essas coisas.

As únicas vezes que fui obrigado a participar disso foi quando estagiei em algum órgão público.

Sim, obrigado. TODOS os funcionários do setor participavam. E me olhavam torto se não participasse. Eu sofreria bullying...

Antes que alguém que goste de amigo oculto me diga que o problema desta convenção coletiva de fim de ano (se bem que tem a modalidade de páscoa, amigolate, que me dá mais preguiça ainda) é o fato dos valores dos presentes serem desproporcionais, eu discordo.

Tá, tudo bem. Se um estagiário tira o chefe do setor e dá uma garrafa de uísque que custa 900 reais sendo que o limite era 50 reais e a telefonista tira o referido estagiário e dá uma gravata de 19,90 acompanhado da latinha de presente da loja que custa 29,90, é meio incoerente. Aliás, é meio foda mesmo...

Mas o que mais me incomoda é você ter que descrever alguém que você não conhece.

Se você reclama dos Deuses do futebol é porque nunca precisou dos Deuses do Amigo Oculto.

Se você já participou de um amigo oculto na vida e não usou o truque do “ai-meu-deus-tirei-eu-mesmo-deixa-eu-tirar-de-novo”, sabe do que estou falando.

A menina do sorteio vem com os papéis dobrados e você tira. Sai uma das opções abaixo:

a) Você tira o Fulano. ... mas quem é fulano? Você não pode perguntar pra ninguém porque senão todos vão descobrir quem você tirou. Aí tem que abrir o organograma da empresa ou fingir de besta pra telefonista: “Quem é Fulano? Ligaram no meu ramal um dia desses e eu não sei quem é esse cara. Você sabe quem é?” Aí você tem que comprar algo para uma pessoa que você não sabe nem onde senta. Pior. No dia da entrega, você tem que descrever essa pessoa.

b) Você tira o Sicrano, aquele cara que você sabe quem é, mas não gosta dele. O cara que enrola no serviço, que te dedura pro chefe, que já derrubou café na sua camisa branca, que fica 15 minutos no banheiro, que transfere ligações pra sua mesa sem avisar, que torce pro seu rival e faz piadas quando seu time perde mas que apela se você vai gozá-lo, que fura fila na hora do almoço e que reclama quando tem um crowdfunding, ou vaquinha, para os cafés ou aniversário de alguém mas que só falta enfiar salgadinho no bolso. Aí você tira esse cara e tem que descrever essa pessoa.

É sempre assim! Você só vai tirar a pessoa que almoça com você se usar o já citado truque do “ai-meu-deus-tirei-eu-mesmo-deixa-eu-tirar-de-novo”. E aí se vire para descrever...

Uma vez, trabalhei em uma autarquia de uma prefeitura de uma cidade vizinha à Belo Horizonte. Aí aquela coisa de tirar nome, preço combinado, lista de opções, metade da repartição já saber quem você tirou, enfim, tudo que envolve o amigo oculto.

Almoço rolando, chopp e refri de graça até a fatídica hora da troca de presentes. Uma mulher falou na frente:

- Meu amigo oculto é um estagiário da triagem de processos, futuro advogado, usa óculos e muito gente boa.

- Ah, então é o Lucas – gritou outra mulher.

- Não. É outro.

- Então é o Luís – gritou meu chefe.

- Não.

Detalhe: Na triagem trabalhavam cinco estagiários. Duas mulheres, o Lucas, o Luís e eu. Porra! Só eu usava óculos! E mesmo assim erraram duas vezes! E eu sou gente boa cacete! Como que erraram???

- É o Guilherme então.

- ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ! Acertou! É o Guilherme.

E eu ganhei uma camisa. Marrom. Nem vou comentar.

- Bom, minha vez. Obrigado viu Camila, o presente foi lindo. Então, meu amigo oculto trabalha na Montagem de Processos, é loiro e gente boa.

Cri. Cri. (barulho de grilos).

Eu olhando e ninguém respondia. Acho que seria melhor outra definição.

- Meu amigo oculto trabalha na Montagem de Processos, é loiro, gordo, falso, com uma voz de viado do cacete, chega atrasado todo dia, nas sextas fedendo cachaça, cruzeirense chato e acabou de roubar uma caixa de bombom ali.

Juro que pensei em definir assim, mas não podia né.

Mas eu não conhecia mais nada do cara. Nem como era a voz dele. Fiquei olhando todo mundo e todos me olhando em silêncio.

- Er... Guilherme, não é por nada não, mas não tem ninguém loiro que trabalha na montagem de processos. Loiro aqui só tem o Pedro e ele trabalha na Recepção de Processos.

- Quem é Pedro?

- Eu sou Pedro – levantou um menino.

Eu olhei pro cara e pensei. “Uai, foi esse FDP aí que eu tirei não foi não?” Chamei o Lucas que trabalhava comigo na Triagem e perguntei baixinho quem era o Roberto que eu havia tirado.

- Roberto Junqueira?

- Sei lá se é Junqueira. Só sei que é Roberto.

- Guilherme, Roberto é o Superintendente. É o chefe do Moisés, nosso chefe.

É, eu quase acertei.

E então, na frente de outros 43 funcionários, disse que era pegadinha do Malandro (ié-ié), e que iria descrever meu verdadeiro amigo oculto.

Tomara que o Roberto tenha gostado daquele CD do Só pra Contrariar que eu dei pra ele depois de ter ganhado no ano anterior...

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