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terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Testemunha de Moussevá


Um dos problemas que enfrento no meu trabalho é a reduzida oferta de restaurantes para almoçar.

Basicamente eu tenho três opções. Existe a mais barata, porém mais gordurosa; a intermediária no preço e na variedade e a opção mais variada, saborosa e cara.

No começo do mês, dou prioridade ao restaurante intermediário e poucas vezes vou ao mais caro. Depois do dia 20, nem penso e procuro a opção mais barata sempre.

Por isso, quando abriu um novo restaurante pelas redondezas não pensei duas vezes para saber em qual categoria iria classificá-lo.

Ao chegar e ver que o preço era mais barato do qualquer restaurante num raio de 10 km, meu sentido de aranha disparou. Algo estava errado e não era a grafia “Beringela à moda” no quadro.

Conforme aprendi no MasterChef, surpreender com comida simples é mais difícil do que com pratos mais elaborados. Me servi de arroz, feijão, bife, fritas e salada, acompanhado de um suco de laranja para harmonizar.

Empurrei o prato e comecei a mexer no twitter, naquele momento em que se espera o almoço descer ou a fila do caixa diminuir – o que acontecer primeiro. Tudo indo bem até que a Testemunha de MousseVá chegou à mesa.

- Boa tarde.

- Boa tarde.

- Foi bem atendido.

- Sim, obrigado.

- Posso recolher seu prato?

- Claro, obrigado.

- Você deseja uma sobremesa?

- Não sei.

- Temos uma mousse de chocolate muito boa.

- Hummm. Tem mais alguma outra coisa?

- Temos pudim de leite condensado, torta de Bis, “saladifrutas”...

- Bacana

- E Mousse de Chocolate.

Quem me conhece sabe que eu sou alucinado com Pudim de Leite Condensado.

- Quanto tá o Pudim de Leite Condensado?

- Três e Cinqüenta. Quer que pega?

- Não sei... Acho que vou pegar uma paçoquinha mesmo.

- A Mousse de Chocolate tá três e vinte.

- Não, obrigado.

- Tá uma delícia.

- Eu imagino que esteja mesmo, mas obrigado.

- Quer o pudim?

- Tá, pode ser.

- Certeza que não quer Mousse?
- E Mousse?

- Não. Só o pudim mesmo.

- Tão tá. Vou buscar.

Eu tinha certeza que essa moça ia voltar à mesa acompanhada de outras duas mulheres, que elas iriam trazer mousse de chocolate e falar dos benefícios dele pra minha vida, e deixar uma revista chamada Experimentai com todas as receitas de mousse de chocolate conhecidas. Por isso a chamei.

- Moça, só o pudim tá?

- Claro.



Voltei minha atenção para o twitter até que a moça voltou.

- Aqui o Pudim.

- Obrigado.

- E trouxe mousse também. Olha como tá bonito.

- Olha moça, obrigado mesmo, mas não quero mousse. Só o Pudim.

- Ok. Mais alguma coisa?

Meu medo era falar “um café” e ela me trazer “Mousse de café”. Ou falar “nada” e ela entender “mousse de nata” ou um “brigado” e aparecer um “mousse de brigadeiro” na mesa.

- Não. Agradecido.

Comi meu pudim, fui para o caixa o mais rápido possível e voltei pro serviço.

Mas se o interfone da minha casa tocar às oito da manhã num domingo, vou me certificar pelo olho mágico primeiro.


Vai que é alguém me oferecendo mousse de chocolate...



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

terça-feira, 19 de maio de 2015

Comendador do Crime



É, eu sei que estou sumido.

Na verdade, estou igual aos ex-BBB’s: Envolvido em alguns projetos por aí. E acreditem, minha vida tá corrida. Estou fazendo um curso pela manhã, trabalhando à tarde, estudando à noite e fazendo caminhadas nos momentos possíveis (como ir da minha mesa até o restaurante, do ponto de ônibus até a minha casa, ou da minha mesa de estudos até o banheiro).

Por isso, graças a Deus – e à legislação trabalhista vigente – consegui uns dias de férias. Não foram muitos, porém necessários para que conseguisse dormir um pouco mais do que as 06 horas nas quais meu corpo descansa.

Aproveitei esse momento para dormir, estudar, dormir, comer, dormir, assistir a filmes, dormir e me atualizar nas séries do NetFlix. Mais precisamente: Demolidor.

E então, vendo os episódios, um sentimento, ou melhor, uma frustração que por anos esteve adormecida em mim, saiu das sombras e resolveu se revelar: Eu não tinha uma jaqueta de couro.

Sempre quis ter uma. O Indiana Jones, o James Bond, o MelGibson, o Bruce Wayne, o Wolverine, os Beatles. Todos têm. Mas eu não queria a deles (talvez a do arqueólogo), mas uma em especial.

Eu queria uma jaqueta de couro de mafioso.

Aquela jaqueta que quando as pessoas olhassem nas ruas já imaginariam que eu estava recolhendo o pagamento pela proteção dada, ou fruto do crime organizado. Como os capangas e asseclas do Rei do Crime, das histórias do Demolidor.

Saí já planejando como iniciar meu Império do Crime nas ruas de Belo Horizonte. Me imaginava usando uma camisa social, calça jeans e botas, todos pretos, andando com minha jaqueta de couro e óculos escuros, sendo conhecido como o Comendador do Crime. Já comecei até a treinar uma voz rouca, misturando o Don Vito Corleone com o Darth Vader.

Obviamente precisava de uma jaqueta de qualidade, que atendesse ao meu exigente padrão de elegância e discrição. Fui ao local mais apropriado de Belo Horizonte para adquirir minha indumentária maligna: O Oiapoque Mall (ou Shopping Oi).

Para quem não conhece esse complexo de compras belo-horizontino, informo que é um shopping temático. Além de praticamente todos os stands de lojas serem dominados pelos asiáticos, o local parece Pequim, pois tem um contingente populacional similar ao da capital chinesa, um cheiro de pastel que atravessa ruas e uma velocidade média de caminhada próxima a 0,1 km/h.

E nessa Chinatown mineira, percorri os estreitos corredores até encontrar um stand especifico para jaquetas. Uma moça se aproximou e já fiquei imaginando qual seria a senha para ter acesso a uma sala secreta, na qual conversaria com um contrabandeador que me mostraria os produtos de qualidade superior.

- Posso ajudar?

- Claro. Procuro jaquetas de couro.

- Tá gripado, moço? Tá com a voz estranha... Mas pode vir aqui comigo.

Fiz uma anotação mental para melhorar minha rouquidão.

- Obrigado.

- Olha essa, aqui moço.

Era uma jaqueta bonita. Nitidamente couro sintético. Aliás, só sintético mesmo, nada de couro.

- Nosso couro é diferenciado, totalmente sustentável e importado.

Pensei em rir dela e dizer que o Comendador do Crime não poderia ser conhecido por usar couro sustentável. Seria ridicularizado no encontro das famíglias do crime.

- Tem outras?

- Olha essa.

Era uma boa jaqueta, bonita, com bolsos na frente e zíperes prateados. Vestiu bem, mas na escala de mafiosos eu estaria mais próximo do Fredo Corleone do que do Vincent Mancini do Andy Garcia. Aliás, qualquer um dos membros da Quadrilha de Morte da Corrida Maluca teria mais cara de mafioso do que eu.

- Uai, moço, ficou boa hein!

- Sei não.

- Sério. Tá ótima.

- É a única que tem?

- Tem essa aqui, oh. Da coleção do ano passado.

Achei! O Graal das jaquetas. O elo perdido dos casacos de máfia. Era como eu queria. Gola larga, bolsos grandes, possivelmente com um canivete no bolso direito. Vesti a jaqueta aos poucos, o tamanho no punho estava perfeito. Ajeitei a gola pra cima e quase pedi um cigarro pra um transeunte que passava apenas para acendê-lo, comprimir os olhos e falar com o olhar estilo Clint Eastwood. “Quer sumir da minha frente ou terei que meter uma bala na sua cara?”.

Era uma jaqueta assim. Até o De Niro teria medo de mim...

Porém, a jaqueta não fechava. Tentei umas três vezes, mas não consegui.

- É, acho que essa ficou apertada né, moço? Pior que não tenho dela maior, não.

Eu não conseguia acreditar. Eu, o Comendador do Crime, vencido por estar acima do peso. Vi meu Império ruir em segundos simplesmente porque eu estou gordo.

- Certeza? Não tem tamanho GG não?

- Não. Só essa G e uma M.

Malditos orientais magrelos.

- Tudo bem. Fazer o quê.

Certeza que o FBI e a Polícia Federal brasileira respiraram aliviados com o fim do meu Império. Estava acabado o Comendador do Crime.

- Leva a outra, ficou boa. E é de couro legítimo.

Mesmo sabendo que não era couro – ou talvez fosse de uma espécie que possui couraça sintética no corpo e que habita na China – resolvi ficar com a jaqueta.

- Vou levar. Vocês parcelam esse valor?

- Sim. Em até três vezes.

- Três? Faz em cinco vezes não?

- Não. Só três. As operadoras de cartão de crédito cobram taxa para parcelamento acima de três parcelas.

- Tudo bem.

Paguei a jaqueta, coloquei na sacola e fui embora pra casa sabendo que além de perder meu Império pra gordura, era explorado por outra máfia. 

A das Operadoras de Cartão de Crédito.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

terça-feira, 7 de abril de 2015

A Menina dos Brigadeiros - Parte II


(Para ler a parte I, clique aqui)


- Porra, Fabinho!

- Velho, não sei o que faço. Me ajuda, Guilherme.


Eu não sabia o que fazer. De certa forma, até me sentia culpado, pois se não tivesse tentado aproximar os dois, a Menina dos Brigadeiros estaria com o dinheiro.


- Calma, cara. Já procurou direito?

- Já. Olhei na mochila, nos bolsos, em tudo! Perdi o dinheiro dela!

- Caralho, Fabinho!


Foi aí que o Barata chegou. Tava com a prancheta em mãos e avisando que a porrada ia começar. Olhei a lista e trinta e três pessoas apostaram no Forte. Ninguém no Fraco.


- Fabinho! Tive uma ideia, cara. Faz assim. Aposta no Fraco e chama o Forte pra conversar. Fala pra ele que você tá desesperado e que vai ganhar sozinho. Oferece, sei lá, uns cinqüenta reais pra ele perder a luta. O resto da grana você ganha e já te ajuda a pagar pra Menina dos Brigadeiros.

- Será?

- Tenta lá, uai. Fala com o Forte.


Fabinho apostou no Fraco e foi negociar com o Forte. Os dois conversaram, conversaram e não pareciam chegar a uma conclusão. Na pior das hipóteses, haveria uma nova briga e pra mim seria até melhor, pois criaria uma nova banca de apostas.

Sei que o Forte deu um empurrão no Fabinho e chamou o Fraco pra porrada. Não sei se estava combinado algo, mas o Fraco não sabia de nada.

Um tentou chutar o outro, socos no ar, empurrões e de repente se embolaram enquanto a plateia gritava “Porrada! Porrada! Porrada!”

Começou a luta.


Eu comecei a suar frio. Não sabia o que ia sair dali. Só sei que quando eu menos assustei, o Forte deu um soco na orelha do Fraco que voou pro chão.

Já estava esperando o Fraco levantar, como o Rocky Balboa ou o Shiryu do Cavaleiros do Zodíaco, mas o cara ficou bambo.

Olhei pros lados e o Fabinho tinha sumido. A Menina dos Brigadeiros estava radiante. Barata tava com a prancheta e fazendo contas de divisão do dinheiro.

Aí o Fraco levantou. Na minha imaginação, o Fraco ficaria sobre uma perna só, levantaria os braços e a outra perna e com a trilha sonora “I’m the man, who will fight for your honor” ao fundo, daria o golpe do KarateKid.

Mas não foi assim. Ele levantou e, com os cotovelos ralados e o cabelo desarrumado, apenas bateu as mãos no corpo para se limpar. Parecia que não tinha acontecido nada.

O Forte foi com tanta vontade que não viu o Fraco fazendo uma manchete com as mãos e acabou atingido no queixo.

A multidão (35 pessoas) foi ao delírio! O Forte caiu no chão e o Fraco levantou as mãos. Não teve grito de “Adryyyyyaaaannnnn”, não teve limpada de sangue no canto da boca e nem mordida na orelha. A luta tinha acabado.

Eu sabia que ia sobrar pra mim e pro Barata, já imaginando o boato de que havíamos fraudado a luta e seriamos trucidados. Passei a mão na mochila, gritei o Barata e subimos a rua correndo. No caminho, o Fabinho descia a rua, como se fosse pra luta.

- Corre Fabinho!

E ele foi seguindo a gente. Entramos numa corretora de imóveis pra descansar e contar a grana. Enquanto eu tentava respirar, o Barata contava da luta pro Fabinho.

Contamos a grana, tiramos a minha parte e a do Barata e entregamos o resto do dinheiro pro Fabinho. Ele agradeceu e disse que havia sumido para ligar pro pai. Contou que perdeu o dinheiro da Menina dos Brigadeiros e que o pai daria metade do dinheiro perdido, descontando da mesada dele. A outra metade ele teria que pedir pra mãe.

A sorte do Fabinho é que ele já estava juntando um dinheiro pra ela. No fim das contas, ele juntaria o dinheiro do pai, o que tinha guardado e o que tinha ganhado da aposta para Menina dos Brigadeiros. Barata não acreditava.

- Fabinho, isso vai dar o dobro do que ela vendeu!

- Eu sei, Barata.

- Não é possível que você vai fazer isso!

- Vou, Barata! Já disse!

- Cara, tá passando Mortal Kombat no cinema. Vamos torrar isso aí no fliperama, no Cinema e no McDonalds!

- Não, Barata. É pra ela.


Eu também não entendia, mas respeitava. Só queria saber uma coisa.


- Fabinho, me conta aqui. Foi armada aquela luta lá?

- Não. Forte não aceitou e falou que se não desse a grana toda, ele não perderia.

- Beleza. Bom, deu sorte então.


Despedimos dele e fomos embora.

No outro dia, o colégio só falava da briga. Fraco agora é o cara a ser temido, enquanto o Forte espalhava que ele havia apanhado de propósito, fazendo um favor pro Fabinho que havia pedido pra ele perder.

Algumas pessoas vieram pedir o dinheiro de volta, mas eu e Barata mantínhamos o que foi feito. Não havia comprovação de que a luta foi armada, até mesmo porque o Forte ameaçava pedir revanche, o que nunca aconteceu.

Mas faltava algo. A Menina dos Brigadeiros deveria saber do esforço do Fabinho.

Antes que eu falasse, o Fabinho a chamou pra conversar.

Entregou o envelope pra ela, apenas com notas de cinqüenta reais. Ela estranhou o dinheiro a mais e ele explicou. De longe, eu via a alegria e o orgulho dele de contar toda a empreitada.

Mas ela não gostou. Disse que ele era um idiota por ter perdido o dinheiro, que havia perdido a confiança nele e que tinha sido burra por pedir um favor à ele. Ainda falou que o dinheiro a mais era uma forma de indenização.

Para piorar as coisas, ela ainda ficou com o Forte depois da aula, e teria dito pra uma colega em comum que tinha ficado com dó dele por ter apanhado e resolveu consolá-lo.

Vendo a tristeza do Fabinho, tive uma ideia:

- Barata, tô com dó do Fabinho. Vamos chamá-lo pra assistir Mortal Kombat com a gente?

- Será que ele anima? Ouvi falar que o filme é ruim.

- Por mais que o filme seja ruim, podemos afogar as mágoas depois no McDonald's. Quer apostar comigo que ele aceita?

- Aposto que ele não vai.


Vimos o filme e realmente era ruim. Gastamos dinheiro no Fliperama, depois fomos pro McDonalds e voltamos pra casa. Eu e Fabinho rindo da cara do Barata, o único que não ganhava apostas.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

terça-feira, 17 de março de 2015

A Menina dos Brigadeiros - Parte I


Depois de algumas aventuras contadas aqui, aqui e aqui, eu estava ficando velho pra isso.


Não tinha o mesmo pique de antes e precisava garantir minha aposentadoria, só não sabia como.

Sentei na arquibancada de cimento do Colégio e, olhando para o pátio, fiquei pensando em como ganhar dinheiro e me aposentar.

Os meus pensamentos foram cortados por uma briga, que aconteceu no meio de uma partida de futebol na aula de  Educação Física. Um cara magrelo apelou com um cara forte, não sei por que, e a briga começou. Briga não, massacre. Era como se o Aquaman quisesse brigar com o Hulk.

Aí foi aquilo que todo mundo que passou por um colégio até a década de 90 sabe: Chega a turma do deixa disso e o cara forte diz “Te pego lá fora”. Ou seja: era dia de almoçar mais tarde.

Nesse momento, uma amiga de turma chegou e me ofereceu brigadeiros que ela vendia pra poder ir a um show do Hanson no Rio de Janeiro. Após me tornar o feliz proprietário de dois brigadeiros, agradeci e continuei olhando para o pátio.

Enquanto A Menina dos Brigadeiros continuou vendendo seus docinhos, um colega de classe aproximou, com sete brigadeiros na mão.

- Fala aí, Guilherme.

- Beleza, Fabinho (nome fictício)?

- Cara, sou apaixonado por essa menina.

- Tô vendo, comprou sete brigadeiros.

- Pois é, tô querendo ajudá-la a viajar pro Rio.

Como todo adolescente (pequenos machistinhas), achávamos que o caminho para o coração de uma menina era ajudá-la a realizar algum sonho, já aguardando que ela fosse demonstrar a gratidão pelo auxílio com um beijo na boca de cinema e não com um “Nossa. Nem sei como te agradecer. Obrigada mesmo”.

- Legal. Acho que vai dar certo.

- Também. Tô juntando uma grana aí... Você sabe quanto custa uma passagem pro Rio, Guilherme?

- Não tenho a mínima ideia.
  
- Beleza, valeu.

Nesse momento chega meu amigo de fé, meu irmão, camarada, parceiro e fiel escudeiro das aventuras anteriores: Barata.

- Cara, marcaram a briga. Uma hora da tarde lá na (Rua) Cambuquira.

- Bacana demais, Barata.

- Pois é. Fabinho que vai gostar. Vai ter gente vendendo brigadeiro lá.

- Sério, Barata?

- Sério, Fabinho.

O menino ficou tão feliz, que saiu pra ligar pra mãe e avisar que não ia almoçar em casa. E aí uma ideia me veio à cabeça.

- Barata. E se a gente fizer banca de apostas nessa briga?

- Boa, Gui!

Já descemos das arquibancadas, arrancamos folhas do caderno e saímos buscando apostadores pelo pátio. Era um sistema simples. Ou apostava no Forte ou apostava no Fraco. Depois de recolher a grana, iríamos tirar 20% da taxa de corretagem (metade pra mim, metade pro Barata) e dividiríamos os 80% entre os vencedores.

Anunciamos a briga, confirmamos a Menina dos Brigadeiros, tentamos patrocínio com o Tio Baleiro da porta (em vão) e chegamos cedo.

Faltando 20 minutos pra começar a briga, o Forte ainda não tinha chegado, enquanto o Fraco estava sentado na calçada. Não sei se estava rezando ou tentando aprender algum feitiço de última hora, mas estava com um livro aberto nas mãos.

Eu queria muito estar com uma jaqueta de couro, chapéu, todo de preto, óculos escuros e cigarro no canto da boca em algum canto pegando apostas. Mas estava apenas de mochila nas costas e tentando não perder os óculos. 

Eu e Barata, na nossa imaginação.

Até que a Menina dos Brigadeiros chegou. Radiante.

- Oi, Gui.

- Oi! 

- Acho que consegui o dinheiro todo! \o/

- Pô, legal demais! Parabéns.

- Pois é. Nem acredito que vou ver o Hanson! \o/ Problema vai ser só trocar esse dinheiro todo. Olha a quantidade de moedas?

Eu aprendi no Poderoso Chefão que podemos fazer favores, pois podemos precisar de favores dessa mesma pessoa no futuro. Por isso chamei o Fabinho, cujo pai trabalhava em banco.

- Fala Guilherme!

- Opa! Fabinho, tenho certeza de que você poderá ajudar essa bela moça. Eu sei que parece que ela assaltou a cestinha da Igreja, mas ela só precisa trocar esse dinheiro aí. Seu pai trabalha em banco né?

- Sim.

- Pois é. Fala pra ele trocar pra ela.

- Claro que eu ajudo.

E a Menina dos Brigadeiros saiu com o Fabinho para resolver as questões burocráticas. Agora era hora de me concentrar nas apostas.

Forte e Fraco já estavam lá. Decidiram que o primeiro round duraria cinco minutos. Se o Fraco ainda estivesse vivo, haveria o segundo round. Caso ainda resistisse, chamaríamos o Guiness.

Meio dia e cinqüenta e sete. Tudo pronto.

Enquanto deixava a prancheta das apostas com o Barata, o Fabinho voltou.

- Puta que pariu, Guilherme, me ajuda.

- Que foi, Fabinho?

- Perdi o dinheiro da Menina dos Brigadeiros!


(continua...)



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

The Guifather


- Opa! E aí?

Olhei pros lados e não vi ninguém.  Em plena hora do almoço e na porta do serviço me aparece um doido. Ou vendedor. Ou um vendedor doido. Ignoro.

- Pô Guilherme!

Talvez seja comigo mesmo. Melhor responder.

- Opa!

- Porra, cara, como você some assim? Tá sumido demais.

Quem é esse cara?

- Ah, coisas da vida né?

- E aí, tá aqui na Afonso Pena 4000 ainda? Tem um tempo que você tá aqui né!

- Tô né? – Tenho que descobrir quem é esse cara – E você? Tá onde?

- No mesmo lugar.

Fudeu. Nenhuma pista.

- Bacana.

- E aí? E o namoro?

Olho pra mão dele e tem aliança.

- Tá bom demais, cara, valeu. E o casamento?

- Bem demais, valeu.

- Bacana. – coço a barba. Silencio constrangedor.

- E teu time? Que merda foi aquilo domingo, cara? Time feio demais. Respeita o líder porra.

Olho com ódio pro cara. Tento o fazer sufocar usando a Força, mas em vão. Chego a fazer aquela mãozinha de Lego discretamente para ver se o enforco, mas lembrei que não sou Jedi.

- Mineiro né. Grandes merdas.

- Ah, desculpa isso hein. Mas aqui, você não sabe quem eu encontrei sábado. Chuta aí.

- Sei lá.

- Anda, chuta aí.

Não sei nem que é você, quem dirá quem encontrou sábado.

- Sei lá, cara. Fala aí.

- Pô, cara. O Vitão! Trabalha no seu prédio lá!

- Bacana hein.

Olho no relógio. E penso que ele vai desconfiar que não o conheço. Ele insiste.

- Cara, mas que bom te encontrar. Tava precisando falar com você.

- Eu tô meio com pressa, cara...

- É sério, Guilhermão!

Fiquei preocupado. Melhor ouvir o cara.

- Fala aí.

- É muita coincidência, cara, eu encontrar você aqui. Justo agora.

- Cara, to preocupado. Fala aí.

- Então, vamos sentar ali ó. Quero te pedir um favor.

Olho pro lado e vejo duas cadeiras. Imaginei que ia pedir algo. Como não faço ideia de quem seja, é hora de fazer hora com a cara dele. Como Michael Corleone, sento na poltrona devagar, puxando a barra da calça um pouco pra cima e cruzo a perna e descanso as mãos. Ergo um pouco o braço direito, apoiado nos cotovelos e com o dedo indicador e o dedo médio juntos, faço um movimento pra ele continuar e encosto a mão no rosto.

Assim. Mas de calça jeans, camiseta e sem gel no cabelo.

- Bom, na verdade, eu fiz uma merda com sua colega de trabalho e queria que você conversasse com ela pra mim, pra ela me desculpar. Até falei com o Pedro, do 4º andar, mas ele não conseguiu nada. Me ajuda, cara, pago até seu almoço.

Na mesma posição, levanto apenas a mão direita.

- Por que foi até o Pedro? Por que não veio até mim primeiro?

- Cara, eu preciso de ajuda.

- Nós nos conhecemos já. Já conversamos algumas vezes e não consigo me lembrar da última vez que você me convidou para tomar um café ou uma cerveja. Sejamos francos aqui: você nunca foi meu amigo.

- Calma cara, eu to em falta, eu sei.

- Mas, agora, você vem até mim e diz “Guilherme, me ajude”. Mas você não pede com respeito. Você não oferece sua amizade. Você nem mesmo me chama de padrinho. Ao invés disso, você vem até onde trabalho e pede para que eu te ajude em troca de comida.

- Eu só preciso da sua ajuda.

Me levanto da cadeira.

- Se você viesse até mim em amizade, essa menina te perdoaria hoje mesmo.

- Você vai me ajudar, amigo?

Penso em estender a mão e aguardar que ele beije minha mão e me chame de padrinho. Mas na porta do serviço não seria legal ver essa cena.

- Bom. Algum dia, e este dia pode não chegar nunca, eu vou lhe chamar para fazer um serviço para mim. Mas, até este dia chegar, aceite esta ajuda como um presente meu.

- Obrigado! Obrigado! 

Ele se levanta e me abraça.

- Prego!

- Oi?

- Nada não, esquece.

- Eu sabia que você ia me ajudar. Afinal, meu grande amigo Guilherme Ribeiro não poderia me deixar na mão.

A ficha cai. Existe um outro Guilherme que trabalha no mesmo local que eu. Possivelmente teria que convocar uma reunião com o chefe da Famiglia Ribeiro e das outras famílias para rirmos juntos.

- Manda um email pra mim falando quem é, a merda que você fez e o que quer que eu faça que eu te ajudo.

- Valeu, viu?

- De nada.

- Ah, a propósito. Desculpa por aquela mancada no fim de ano. Vacilei contigo.

- Tranqüilo.

- Brigadão, cara. Você é gente boa demais.

- Vai com Deus aí.


Rachando de rir, desço a rua pra ir almoçar. Algo me dizia que era dia de comida italiana. 



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha