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segunda-feira, 27 de julho de 2015

She


Tudo o que ele queria era o seu PenDrive com suas músicas.

Não bastava estar sem ele, preso no trânsito às seis horas da tarde e dependendo apenas do rádio. Tinha que chover também. E seu celular com apenas 5% de bateria.

Por isso Júlio estava tão irritado. Verde de raiva igual ao Hulk, como sua namorada sempre dizia.

Sua única diversão era olhar as pessoas correndo da chuva e procurando abrigos para se protegerem. Nem mesmo o rádio o distraia, já que ficava alterando as estações em busca de uma música que o animasse, embora não pensava em nenhuma que conseguisse tal proeza.

Por isso, olhava pela janela. Quase esboçou um sorriso quando um carro passou por uma poça d’água e molhou um rapaz de mochila nas costas e fones no ouvido.

Mas um casal chamou sua atenção. Um rapaz e uma menina corriam, sendo que ele levantou o casaco para proteger a moça e evitar que a mesma se molhasse ainda mais. Júlio focou nos dois até que chegaram a uma marquise.

A moça tentava tirar o excesso de água e cruzou os braços, contraindo contra o corpo. O rapaz, percebendo que ela sentia frio, colocou a jaqueta sobre os ombros dela e a abraçou, beijando sua testa.

Porém, Júlio voltou à realidade quando buzinas começaram a tocar para demonstrar que o sinal estava aberto. Andou alguns metros e parou de novo em outro semáforo, já procurando o jovem casal.

Olhou para a marquise e eles não estavam lá. Tentou o outro lado da rua, a proteção da banca de revistas. Nada. Eles haviam sumido.

Parado no trânsito, tentou esquecer daquele casalzinho e focou na música que tocava no rádio.

“She
Maybe the face I can't forget.
A trace of pleasure or regret
Maybe my treasure or the price I have to pay.
She maybe the song that summer sings.
Maybe the chill that autumn brings.
Maybe a hundred different things
Within the measure of a day”




Se lembrou então da primeira vez que ouviu essa música. Estava em casa e sua mãe esboçou um sorriso ao ouví-la, dizendo logo em seguida:

Essa música é minha e do seu pai”.

Na época, Júlio riu da situação e achou aquela música cafona, mas dessa vez era diferente.

Traduzindo mentalmente a música, descobriu que falava de uma moça que podia ser o rosto que o rapaz não podia esquecer, de um traço de prazer ou de arrependimento. Que essa mulher podia ser o seu tesouro ou preço que ele teria que pagar, a música que o verão canta ou o frio que o outono traz. No fim do primeiro verso, falava ainda que ela podia ser cem coisas diferentes do mesmo dia.

Mas na segunda estrofe é que ele pegou o pulo do gato. A menina da música podia ser a bela ou a fera, a fome ou o banquete. Podia transformar cada dia em um paraíso ou em um inferno.

“Podia”.

Júlio entendeu que isso resumia a dúvida do rapaz da música. A moça podia ser várias coisas, boas ou ruins. Tanto é que no fim da segunda estrofe, o protagonista afirma que aquela mulher podia não ser o que ela parecia ser dentro da sua casca.

Tanto é que, conforme a música, a moça que sempre parecia ser tão feliz no meio da multidão, com olhos que podiam ser tão secretos e tão orgulhosos, podia chorar e ninguém podia vê-los. Ela podia ser o amor, que não pode esperar para durar, assim como poderia vir, para ao rapaz, das sombras do passado que ele lembraria até o dia que morresse.

E foi na última estrofe que ele teve certeza, pois depois do rapaz da música afirmar que a moça podia ser a razão pela qual sobrevive, o porquê e o motivo dele estar vivo, a partir desse verso, a mulher não era mais aquela que podia ser algo. Ele afirma que ela era a única que ele iria cuidar prontamente ao longo dos anos, durante as adversidades. Que iria pegar as risadas e as lágrimas dela e faria delas todas as suas lembranças. E conclui dizendo que para onde ela fosse teria que estar, pois o sentido da vida dele era ela.

Só quando a música acabou que Júlio entendeu a mensagem. Na música, o futuro do casal incerto. Seja pelo rapaz, que não sabia se teria felicidade ou sofrimento ou pela moça, que poderia transmitir felicidade e chorar sem ninguém ver. Mas o que importava é que, para o rapaz ela era a razão de tudo. Da sua vida, da sua dedicação. Das expectativas.

E foi aí que Julio percebeu que seus pais estavam certos. Aquela música era deles. Imaginou os pais mais novos, há mais de 30 anos, inseguros, sem saber se o casamento iria durar, se terminariam em alguns anos ou se teriam filhos. E mesmo assim, dedicaram e arriscaram, dando o sentido da vida um para o outro.

Mas aquela música também era daquele casal que correu e se protegeu da chuva na marquise. A moça com frio poderia ser a futura companheira de vida do rapaz do casaco. Eles podiam casar e ter filhos, mas também podiam terminar na semana seguinte e guardarem mágoas eternas. Nem um dos dois tinha certeza de nada, mas quando corriam para a marquise juntos, ambos viviam como se dissessem para o outro que para onde um fosse, o outro teria que estar.

Ainda naquele transito engarrafado, pegou o celular para mandar uma mensagem para sua namorada, mas não tinha bateria.

Mais calmo, enfrentou o transito e foi para casa dela.

Ao chegar, ela estava sentada no sofá.

- Nossa Júlio, estava preocupada, você demorou. Deve tá verde de raiva igual ao Hulk né? Nesse trânsito pesado e chuva...

- Estou ótimo, Alicia. Vem cá.

Tirou o sapato, a pegou pela mão e começou a dançar sobre o tapete da sala. Sem música alguma. Apenas dançavam.

Ela não entendia nada e achava que ele poderia estar doido. Ou bêbado. Não importava. Apenas acompanhou, encostando a cabeça em seu ombro.

Ele pensava que poderia estar sendo idiota em dançar sem música, mas apenas seguia a música que estava na sua cabeça. E com uma certeza.

O sentido da vida dele era ela.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Rockstar

O cansaço era evidente, mas ainda restavam alguns minutos de show.

Já havia cantado por uma hora e meia, entre músicas suas e covers, e o corpo dava sinais de que não iria aguentar...

Pelo menos, agora, poderia sentar.

Ainda sob os aplausos, sentou-se em um banquinho para tocar sua homenagem favorita, em versão acústica.

“Something in the way she moves…”

As luzes estavam apenas sobre ele. Não importava o cansaço. Era a hora de tocar pensando nela e apenas sussurava ao microfone.

“Attracts me like no other lover. Something in the way she woos me..”

Isqueiros e celulares iluminavam a platéia que cantava como se fosse um coral. O público cantava junto, mas ele não se importava com isso. Aliás, nem percebeu isso. Apenas cantava...

I don't want to leave her now, You know I believe and how…”

A cada acorde no violão, o tempo parava. Sentia cada nota, cada acorde...

“Somewhere in her smile she knows, that I don’t need no other lover… Something in her style that shows me”

O tempo parecia parar e, cada vez mais, o público cantava mais forte.

“I don’t want to leave her now, you know I believe and how...”

Se o corpo doía, era hora da adrenalina dominar. O arrepio não era apenas físico, tocava a alma. Sentia aquele frio na espinha...

E então levantou-se do banco, violão em punho, para o clímax da música. O momento em que a plateia sempre se emociona junto com ele...

“You’re asking me will my love grow.. I don’t know, I don’t know… 
You stick around now it may show… I don’t know, I don’t know…”

E então, no ultimo verso, desafinou.

Desafinou tão grotescamente, tão grosseiramente que se assustou.

E então abriu os olhos.

Na verdade não foi ele que desafinou e sim os batidos na porta do banheiro que sua irmã deu que o tirou da afinação, e sua carreira de Rockstar chegou ao fim.

- Pelo amor de Deus né? Sai desse banho logo que eu tenho que encontrar o Paulinho.

- Já vou.

Enxugou-se e saiu do banheiro com o rosto molhado, pensando nas exigências de “cem toalhas de rosto brancas” que faria se chegasse o estrelato, mas não sem antes escutar “que merda” da irmã enquanto entrava no quarto.

Infelizmente, sua turnê do banho daquele dia chegou ao fim.


E sem pedido de “mais um, mais um”.




Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Day in the Life


Algumas pessoas nascem para jogar futebol. Desde pequeno, é possível ver que aqueles dribles, aqueles gols ou aquelas defesas podem se tornar uma profissão no futuro.

Dessas pessoas, algumas conseguem viver disso. Jogam futebol profissionalmente, viajam pelos cantos do Brasil e tem muitas histórias para contar por causa do esporte.

E dentre essas pessoas, poucos tem o privilégio de viver e sustentar famílias com seus salários estratoféricos. Jogam em grandes clubes, viajam o mundo todo por causa da bola e fazem parte do momento único de milhares de vidas que se cruzam naquele instante, seja dos próprios jogadores ou de torcedores que pagam ingresso e estão ali no estádio para presenciar a história de alguém ser escrita naquele local, naquele dia.

Torcedores esses que estão ali apenas para esquecer momentos ruins que se passam na vida ou para celebrar algo. Todos que freqüentam aquele espaço têm suas próprias histórias, os próprios momentos e motivos que fizeram o suado dinheiro sair do bolso e ser investido em algo que não trará retorno financeiro. Apenas um conforto espiritual. Aquela lavada na alma que faz o sono vir melhor e o sorriso ficar estampado no rosto.

E no sábado que se passou, assim que eu vi o Sir Paul McCartney entrar no palco do Mineirão, pensei nisso.

Enquanto “Eight Days a week” abria o show e era cantada pelo público presente no estádio, eu olhava ao redor e vi as arquibancadas do Mineirão, completamente lotadas, cantando juntas, como se fosse uma torcida.

Eu estava ali, no gramado (sobre ele, na verdade, devido as placas de proteção) do estádio no qual fui criado, olhando ao redor e vendo as pessoas gritarem de alegria.

Ele tocou “Junior’s Farm” logo depois de cumprimentar a plateia, em português, dizendo “Boa noite Beagá! Povo bão”. E então ele tocou “All my loving”, levando a gritaria do publico presente.

E só então, eu reparei de novo nas pessoas ao redor. A Beatlemania, iniciada a 50 anos atrás, estava mais viva do que nunca, com pessoas de todas as idades cantando e vibrando.

Logo depois, as luzes diminuíram e ele foi pro piano. Tocou músicas lindas e românticas como “My valentine” (dedicada para esposa Nancy) e “Nineteen Hundred and Eighty-Five”,  Long and winding Road” (dedicada para Linda) e “Maybe I´m amazed”, emocionando a todos que estavam ali.

Em seguida, mais sucessos dos Beatles, como “We can work it out”, e da sua carreira solo como “Another day” e surpresas como o palco dois que subiu para ouvirmos “Blackbird” e “Here Today” e as músicas “All together now” e “Mr. Kite” que estrearam no setlist da turnê.

Depois, foi encaminhar para o fim, com “Something”, “Obla di obla da”, “Band on the run”, “Hi hi hi” e “Back in the USSR” que antecederam as músicas mais aguardadas pela maioria.

Let it be”:


Depois “Live and let die


E por fim, “Hey Jude” que foi responsável por emocionar o cantor com as plaquinhas de “Thank You” levantadas pela plateia da Pista Premium.




Depois foi a vez do Bis. Voltou com “Day tripper”, “Lovely Rita” e “Get Back”. No 2º Bis, “Yesterday”, “Helter Skelter” e o medley final do Abbey Road “Golden Slumbers/Carry the weight/The End”.

No fim, eu voltei pra casa lembrando que vi um menino de uns 10 anos, com camisa dos Beatles e tudo, levantar um celular para acompanhar o público com o “Let it Be”, me recordando do casal sexagenário ao meu lado se beijando em “And I Love Her” e dos pulos de um senhor de uns 70 anos pulando em “Helter Skelter”.

Em todas as músicas, Paul tocou o coração de alguém. Fez os mais velhos pularem, os casais se beijarem (e novos surgirem), as crianças parecem adultas e todo mundo que estava ali sorrir, chorar, cantar e amar.

Então lembrei que a última vez que experimentei todas essas sensações, foi em um estádio de futebol. E justamente ali, no gramado, pude ver e sentir a arquibancada cantando junta e imaginei o que 22 jogadores sentem quando jogam ali.

Senti uma pontada de inveja dessas pouquíssimas pessoas que nascem pra jogar futebol e encantar o público presente, através daquele gramado.

E me emocionei com o poder que aquele homem tem de cativar tantas pessoas através de sua música. Apenas um cara e sua banda conseguiram fazer quase 60 mil pessoas, cada uma com razões e sensações diferentes, viverem uma experiência única.

Mas não senti inveja dele. Apenas fiquei honrado de estar presente ali, vivenciando histórias que serão contadas para filhos e netos, cada um da sua maneira, com detalhes pessoais e motivos e visões únicas para o show, mas todos falando sobre o dia histórico que presenciaram no estádio.

O Mineirão nunca mais será o mesmo. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

It's Only Rock'n Roll


- Pai?

- Sim?

- O Senhor pode me dar dinheiro?

- Pra que você precisa de dinheiro?

- Pra eu comprar umas coisas.

- Quês coisas?

- Umas coisas aí.

- Não, você tem tudo que precisa.

- Mas Pai...

- Pai nada.... Eu nem sei pra que que é.

- Tá bom, eu conto... Eu... er... bom eu...

- Fala logo menino.

- Vai me xingar?

- Não.

- Eu quero dinheiro para comprar instrumentos musicais.

- Instrumentos musicais?

- É, eu quero montar uma banda de rock.

- Você quer o que?

- Montar uma banda de Rock. E eu preciso de instrumentos...

- Não.

- Mas Pai...

- Não, já disse.

- Nem é muita coisa. Seriam três guitarras, um baixo, uma bateria, um violão, uma gaita, um piano, um violino, uma flauta, uma cítara.

- Cítara?

- É. Um instrumento indiano. Algo me diz que isso combina com rock.

- Sei não. E pra que você quer todos esses instrumentos?

- Ué, pra banda.

- E quem vai tocar isso tudo?

- A banda Pai! Eu e todos os meus amigos...

- E você vai tocar o que?

- Nada. Eu sou o dono e líder da banda. Sou o vocalista.

- Entendi. E pelo que me disse, você quer 11 instrumentos. E você vai arrumar 11 músicos pra tocar com você?

- Já arrumei. 11 músicos e 1 emprésario.

- Ah.... Empresário...

- Sim, o Jude. Não sei o nome dele direito, mas a abreviação do nome dele é Jude. Falou que já conseguiu uma apresentação pra gente. O nosso cachê vai ser de 30 dinheiros...

- Ele já os vendeu por 30 dinheiros?

- Sim.

- Mas vocês nem tem instrumentos. Nem ensaiaram...

- Por isso a pressa... Você vai dar os instrumentos?

- Meu filho, desiste disso...

- Pai, olha pra mim... Já to até deixando o cabelo crescer. E a barba também...

- Olha, vou pensar...

- Não quer saber o nome da banda Pai?

- Já tem nome?

- Sim. JC e seus apóstolos.

- Eu não acho nada. Tenho medo que você fique no alto das montanhas, com esses seus amigos, bebendo vinho e cantando esse tal de rock que você falou aí.

- Você sabe que eu nem gosto de vinho Pai.

- Não mente pra mim. Você gosta sim. Tanto é que naquele casamento lá foram não sei quantos galões de vinho.

- Mas era casamento Pai. É diferente. E a banda vai...

- Vamos fazer assim. Eu vou pensar. Qualquer coisa eu te dou alguns instrumentos no seu aniversário em dezembro. Mas não to prometendo nada. Vou conversar com sua mãe primeiro.

- Ela já deixou a gente ensaiar no estábulo lá de casa.

- Ela já deixou? Sem me consultar?

- Deixou. O meu padrasto também.

- José deixou também?

- Deixou. Só falta o Senhor.

- Tá bom.

- Então o Senhor deixa?

- Já disse que vou pensar.

- Mas o Senhor disse ‘Tá bom’!

- Mas não decidi ainda.

- O Senhor tem que decidir, pois tenho que avisar a presidente do fã-clube.

- Tem isso também?

- Lembra da Madal?

- A não sei o que Madalena?

- Ela mesmo. É a presidente do fã-clube e ela tá até pens..

- Olha, eu vou pensar tá? E te falo. Depois a gente conversa mais.

- Tá bom. Tchau Pai!

- Tchau meu filho.


Ele pensou e acabou deixando. E deu todos os instrumentos no aniversário do filho em dezembro.

A banda ensaiou e fez o show, mas o público não gostou. Jude teve que devolver o dinheiro pago e depois de muitas brigas e de conflitos na turnê, acabaram se separando.

A banda se separou depois de fazer um show no telhado de um estábulo

O vocalista resolveu seguir carreira solo até os 33 anos, quando voltou à cidade natal e se reuniu com seus antigos companheiros de banda. Seu antigo empresário o denunciou pra polícia local que não gostava de celebridades e o vocalista foi preso.

Após o julgamento e a condenação, até tentou a intervenção do Pai que não se envolveu, e acabou morrendo.

O Pai se lamentou, mas não quis se envolver. Era a decisão do povo. Mas, no fundo, gostou que a banda não foi pra frente. Ele detesta gritaria. 


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Peso do Samba


- Amor...

- Oi querido...

- Eu sei que estou gordo, mas está aceitável?

- Para com essa besteira, já te disse q eu te amo de qualquer jeito!

Este diálogo era constante entre Jorge e Vanessa. Oito anos de namoro, 30 kg foram creditados num corpo de 1,68 m de altura, uma batalha que, aparentemente, não tem fim.

Num belo dia, Jorge resolveu entrar numa academia e animou sua querida namorada a acompanhá-lo, afinal de contas mulher é muito mais cismada com peso do que homem.

- Spinning todos os dias, musculação 3 vezes por semana. É isso mesmo?

O responsável pela avaliação física estava impressionado com aquele guerreiro que estava parado diante dele, era muito exercício para um corpo de 1,68 m de altura e 105 kg,

Mas nem sempre foi assim, Jorge teve sua fase de corpo atlético, não sabe o que o fez para sair da linha e virar um troglodita, seu humor vai aos extremos só por causa desta guerra com a balança. 

Um mês com uma dedicação maravilhosa, sua ansiedade era enorme para ver seu novo peso.

- O quê??? Não é possível... 2 kg em um mês.. *&¨%@$, vai pra *%#$... não vou fazer mais porra nenhuma!

A revolta tomou conta do rapaz, seu temperamento chegou a ser um desafio para todos que o rodeiam... Seus problemas familiares eram os mesmos, mas parecia que tinham piorado para ele, tudo estava ruim... Como pode uma pessoa ficar tão preocupado com isso? Sim, meus caros, e não é só aparência que estava em pauta. A saúde estava também.

Passaram-se duas semanas e chegou o réveillon. E estava às vésperas do casamento do melhor amigo do Jorge, o Jonas.

- Fala Jorginho! Quanto tempo, cara... Deu uma emagrecida?

Aquela pergunta foi como se fosse uma promoção no serviço para o Jorginho, ele não acreditara no que ouvia...

- Fala Joninhas, pô cara... Você achou mesmo? Não fiz nada, to comendo do mesmo jeito...

Era mentira, por mais q ele extrapolava na comida de vez em quando, sempre foi um vigilante que não merecia aquele corpão todo.

- É sério... isso aí...

E assim foi a semana toda, super bem, ajudando nos preparativos do casamento e curtindo um reveilon em sua terra natal com uma parte querida de sua família, Jorginho estava num mundo paralelo, sem se preocupar com os seus problemas de maneira geral. Mas aí que tá, lei de Murph existe, sempre tem um filho da puta que sente prazer em chegar em você e dizer “tá gordo hein!” ou “precisa emagrecer, bicho” ou sempre tem aquela senhorinha “nossa, que fofinho né?” , desperta uma raiva monstruosa.

Chegou o dia do casório, hora de... Colocar terno de manhã? Pela primeira vez Jorginho sentiu vontade de matar seu amigo, “filho da mãe, pra quê inventar moda de marcar casamento às 11 horas da manhã, num calor desgramado? E pra piorar, só os padrinhos são obrigados a usar este traje de pinguim..” Gordo, naturalmente, sente mais calor, adiposidade é um tipo de isolante térmico para quem não se lembra das aulas de biologia.

O casamento transcorreu perfeitamente bem, tudo certo, chegou o momento mais esperado:  a festa em um sitio alugado. Almoço que prometia; Cerveja gelada, aquele almoço esperto, todo mundo trocando os trajes para um mais confortável, um sambinha rolando, melhor do que isso era impossível. Todo mundo estava feliz, ficaríamos de sábado para domingo no sitio, e a festa iria continuar.

Domingo de manhã, Jorginho foi tomar banho.  Ele se deparou com outro inimigo que não era a balança. Havia um espelho enorme no banheiro do sitio. É legal que todo mundo saiba que muitos gordos não gostam de espelho, pois não precisa ser lembrado da gordura que o envolve. É a mesma coisa no motel com aquela merda de espelho em cima da cama, Jorginho achava que aquilo era a coisa mais desnecessária do mundo, ele fica imaginando a Vanessa sendo obrigada a ver aquela bundona branca, enorme e peluda . 

Despiu-se, ficou analisando aquela barrigona de chopp e começou a ter sua crise temperamental. Colocou a roupa, participou da primeira resenha, que é a do café da manhã.

- Vamos aproveitar o sol, vamos para a piscina... – Disse Vanessa para a turma reunida na mesa.

Jorginho foi, pois, só tinha amigos íntimos ali e as pessoas desconhecidas chegariam na hora do almoço, quando começaria o samba. Ah, o samba... Jorginho já participou de um grupo de samba e pagode como colaborador, mas não tocava nenhum instrumento, isso o incomodava porque a galera sabia que ele era um sambista nato, mas não tocava nada.

- Aê Jorginho, precisaremos de você na roda hoje! Estamos desfalcados e você toca o tan-tan aí é tranquilo... – Marmita, o cantor amigo de Jonas que iria puxar o samba intimou o gordinho em apuros.

Mais essa agora, Jorginho começou a pensar em sua reputação, não poderia recusar, só acenou positivamente a cabeça.

Chegou a turma e o banjo e o cavaco a postos, pandeiro e repique de mão também. De repente empurraram um tan-tan para Jorginho... “Agora foi-se”. Se em estado normal ele não tocava bem, imagina com cachaça na cabeça.. Sentou-se ao lado do cavaco, chegou um tal de Jê para tocar um chic chic ao seu lado, a principio Jorginho não tinha nada contra o Jê, até então...

Começou aquele sambinha, Jorginho jogou toda sua reputação no lixo, viram q ele não sabia tocar nada, passou para o tal de Jê o tan tan e ficou com o chic chic. E o samba rolando e ele se virando, chamaram para ele puxar algumas musicas, mas não era cantor também. Então, para seu alivio, um cara do grupo chegou, estava pedindo o tan tan :

- Ei amigo, pede o tan tan aí para o rapaz ... – apontou para o Jê

Jorginho pensou “serei útil pela primeira vez”:

 - Ei Jê, entrega o tan tan para o camarada aqui...

- ah... vai se fuder, o gordão!

Foram as palavras que feriram o Jorginho mais que uma facada. O ódio por aquele cara surgiu instantaneamente, “isso não vai ficar assim” pensou ele..

(continua...)


Bruno Farnese. Relações Públicas, filho de Roberto e Kátia. Adorador de carne e cerveja, odeia azeitona, perder no xadrez do avô ou na peteca da avó. Gosta de tentar escrever nas horas vagas. Reclamações e sugestões? Você pode segui-lo no Twitter @bfarnese ou no Facebook.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ponto de Vista

E após esperar por meia hora, George entra no ônibus, já quase cheio, mas com alguns lugares vazios, inclusive um ao lado da janela.

Com seus fones no ouvido, começa a cochilar, ainda mais porque está parado perto da Rodoviária e ali sempre sobe muita gente. Enquanto o ônibus enchia, encostou a cabeça na janela e fechou os olhos tentando dormir.

Contudo, foi só o ônibus arrancar para ele despertar. E viu uma menina correndo e batendo a mão no ônibus, pedindo para o mesmo parar.

E era linda.

O ônibus estava cheio e ele percebeu que havia uma senhora já sentado ao seu lado, o que impossibilitada de ficar perto dela, porém, ele percebeu que ela estava em pé, espremida na entrada do ônibus, e dificilmente ele chegaria perto. Sem contar o fato de que sua miopia impedia de vê-la melhor.

Então, resolveu dormir.

Mas não conseguia.

Quando abria os olhos, via a dificuldade dela de se equilibrar, segurando no balaustre e com cadernos e livros ao mesmo tempo. Além disso, os óculos de armação fina que ela usava, teimavam em escorregar pelo nariz, o que dava um charme naquela falta de jeito danada.

Apenas cinco pontos de parada depois, ela conseguiu chegar até a roleta, momento em que colocou os livros e cadernos sobre a mesinha do cobrador, e pode descansar um pouco os braços, enquanto procurava moedas na bolsa.

George não conseguia parar de olhar pra ela. Era totalmente linda. Cabelos lindos amarrados e colocados atrás da orelha. Um belo corpo. E aqueles óculos...

E ela parecia corresponder. Sempre olhava pra ele. Por mais que desviasse o olhar, sempre acaba nele. E olhava nos olhos. Depois ajeitava os cabelos, parecendo querer transmitir alguma mensagem.

O ônibus foi esvaziando.

Ele não tirava os olhos dela.

Ela não tirava os olhos dele.

Até que ela ficou em pé, em frente a ele. E ele não poderia perder a oportunidade.

- Quer que carregue?

- Claro.

E ela sorriu. Entregou os livros e cadernos pra ele com um lindo sorriso. E recolocou aquela mecha de cabelos loiros que teimavam em ficar atrás das orelhas.

E ainda ajeitou os óculos.

George pensava que não iria agüentar.

Que sorriso. Que olhos lindos.

E ela começou a reparar nele.

Ele tinha olhos bonitos. Quando ele olhava pela janela, possuía um olhar determinado. Gostava disso. Era lindo de perfil. E os óculos que ele usava trazia um ar charmoso.

George olhou então para os livros dela que estavam no seu colo. Eram sobre Psicologia, mas tinham uma bela letra na etiqueta. Que letra linda. E descobriu o nome dela: Patrícia. Que nome lindo. Patty...

Patrícia olhava para aquele rapaz que estava bem vestido. Sua roupa social estava quase impecável, mesmo no fim do dia. Ficou impressionado sobre como ele soube combinar as cores. Se vestia bem e tinha um bom corte de cabelo.

Ele percebeu que ela não tinha aliança nos dedos.

Ela percebeu que ele não tinha aliança nos dedos.

"É amor a primeira vista", ambos concluíram.

E parece que Deus também, pois Ele resolveu ajudar.

A senhora que estava sentada ao lado de George se levantou. E Patrícia poderia sentar ao lado dele.

Patrícia se sentou e pediu os livros, porém aquela mecha se soltou de novo, obrigando a colocá-la atrás da orelha de novo. E sorriu sem graça.

George entregou os livros e quase pediu para fotografar aquele sorriso. Ela era demais.

Patrícia estava visivelmente sem graça. Mas sorrindo. Ela retirou o seu Ipod da bolsa e selecionou uma baladinha do Aerosmith.

E foi aí que aconteceu.

George viu que ela escolheu Aerosmith. "Não é possível. Ela tinha que ter defeito”, pensou.

E por coincidência sua playlist havia acabado. E ele teve que escolher uma nova playlist, desta vez, escolheu o disco novo do Fernando e Sorocaba.

O problema foi que Patrícia viu a escolha da playlist dele.

Não é possível. Tinha que ter algum defeito”, pensou.

Neste momento, ela virou o rosto e olhou pro outro lado. Ele fez o mesmo.

George não acreditava que Patty pudesse gostar dessas músicas. “Se ainda fosse um sambinha... mas ficar puxando saco de bandas de fora não dá.”, pensou.

E imaginou que não seria legal se envolver com alguém que estude psicologia. Ela iria ficar avaliando seu perfil e ele não poderia falar nada sem ser analisado.

E Patrícia também não acreditava que aquele cara pudesse gostar dessas músicas. “Se ainda fosse um sambinha... mas ficar ouvindo música de corno não dá”, pensou.

E começou a pensar que um homem daquela idade possuir roupas tão impecáveis era estranho e pensou “das três uma. Ou ele é apegado demais com a mãe e ela que passa as roupas dele; ou ele é casado e tira a aliança, sendo um safado; ou é desempregado e preguiçoso e só fica procurando emprego”.

E então George pediu licença e deu o sinal para descer, pois chegou ao seu destino.

Me livrei de uma roqueira que iria ficar me analisando o tempo inteiro”, pensou George enquanto descia do ônibus.

Me livrei de um filhinho da mamãe que frequenta sertanejo só para pegar meninas”, pensou Patrícia, agora na janela, enquanto via o rapaz descendo do ônibus.

E ambos seguiram viagem. Cada um com seu ponto de vista.