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terça-feira, 2 de junho de 2015

Um nem tão pequeno assim Manual sobre Ônibus



Todos os dias quando acordo, eu penso no martírio que vou viver durante horas até o momento de encostar a cabeça no travesseiro novamente. (Achou que era música do Legião Urbana quando começou a ler, né?)

Quando eu digo martírio, quero que pense naquelas situações diárias que você irá passar e que estressam, fazem xingar, mas que no outro dia você vai ter que viver.

E não, não é sobre trabalho que me refiro. Claro que trabalhar se encaixa perfeitamente na descrição acima, mas não é isso - até mesmo porque, tem pessoas que labutam comigo e que passam os olhos nesse blog e não posso reclamar muito.

É sobre o martírio do ônibus.

Aliás, nada contra o transporte em si. Como já abordei algumas vezes nesse Muro das Lamentações, eu gosto de ônibus. Tal qual descrito no twitter esses dias: "O lado bom do transporte coletivo: eu posso dormir enquanto o motorista dirige. Isso é quase igual a ser rico, só que sendo pobre". 

Ao contrário do resto da sociedade e do Poder Público que desprezam tanto esse serviço e o consideram uma droga – tanto é que chamam os passageiros de usuários, eu gosto.

O que me incomoda mesmo é a falta de educação dos passageiros. Não consigo entender por que as pessoas não facilitam a vida de todos. Por isso, resolvi cagar umas regras aqui dar umas dicas.


DICA 1 – EVITE EFEITO MANADA

Quantas e quantas vezes eu estou encostado no poste, esperando o ônibus chegar, quando ele aparece na esquina e entra numa fila de ônibus que param no mesmo ponto. Ele é o quarto, está a 100metros de distância, mas sempre tem um apressadinho que corre mais de meio quarteirão para não perder. O efeito manada é inevitável e todos correm até o coletivo.

Reclamei disso no Twitter nesses dias e várias pessoas falaram a mesma coisa: “Ah, mas se não fizer isso o motorista passa por fora e eu perco o ônibus”. Tudo bem, até concordo, mas quando se está em horário de pico e as faixas ao lado estão todas ocupadas com trânsito ruim, ou seja, das 06h às 20h, o motorista não vai conseguir mudar de faixa. Além disso, pode ser que pessoas dentro do ônibus tenham dado o sinal para descer naquele ponto.

Portanto, coleguinhas, quando vocês estiverem no ponto e houver outros ônibus em fila esperando para encostar e não tenham visto desembarque de passageiros, NÃO CORRAM ATÉ O ONIBUS QUE ESTEJA ATRÁS.
 
Correr só se for assim


DICA 2 – NÃO SEJA O TIO PATINHAS E NÃO ESCONDA O DINHEIRO

Ok, você não correu e entrou no ônibus. Chega na catraca, coloca a mochila sobre a mesinha do cobrador/trocador e começa a procurar moedas ou o cartão de passagem. Uma fila de pessoas ávidas por dormir ou mexer no celular se forma atrás e você começa a ficar mais nervoso. O motorista acelera, o cobrador/trocador bate a moedinha para avisar que todos desembarcaram, a senhora sentada nas poltronas com preferência começa a passar mal com o odor oriundo do sovaco do cara atrás de você e você fica mais nervoso ainda. Acha as moedas, deixa aquela de 10 centavos cair, não tem coragem de abaixar no ônibus e entrega a nota de 50 reais para pagar a passagem...

Aí você pensa que se tivesse com o dinheiro separado no bolso ou com o cartão colocado em local de fácil acesso, não passaria por isso e facilitaria a vida de todo mundo.

Pois é. Então, fique COM O DINHEIRO/CARTÃO DA PASSAGEM NAS MÃOS ou deixe em local de acesso rápido, e não segure a fila que se forma atrás de você.


DICA 3 – NÃO TENHA TENDÊNCIA AO CARANDIRU

Você paga a passagem, todos em volta comemoram, passa da roleta e todos os lugares estão ocupados. Você olha para aquele espaço tentador localizado em frente à porta do meio do ônibus e sabe que é destinado aos cadeirantes. Mas você vai descer após 9 paradas, vai ficar ali, o que que tem? COM A SUA MOCHILA NA MÃO PRA OCUPAR MENOS ESPAÇO (pelo amor de Deus né?), você vai pro seu cantinho e observa que no fundo tinha espaço e pensa que tá tudo bem. Só que TODAS AS PESSOAS pensam a mesma coisa e resolvem ocupar o mesmo espaço, transformando o contingente populacional por metro quadrado maior do que o de uma cela comum no Carandiru.

Não faça isso, coleguinha usuário. Estudos comprovam que quem ocupa os lugares do fundo do ônibus, geralmente são pessoas que embarcaram no inicio do itinerário e TENDEM a descer primeiro, lhe conferindo maiores chances de conseguir sentar. Pode confiar, lá no fundo não tem monstros, cachorro bravo ou bicho papão.

Além disso, quanto mais as pessoas ficarem no Triângulo das Bermudas (catraca - espaço para cadeirantes – porta do meio – catraca), menos concorrência para as cadeiras no fundo você terá.

Portanto, FUJA DO CARANDIRU DO MEIO DO ÔNIBUS E OCUPE O FUNDO DO ÔNIBUS TAMBÉM!


Dica 4 – SEJA O PRÉDIO DO SÉRGIO NAYA E CEDA

Você demorou pra decidir se aventurar até o fundo do ônibus, mas percebe que tem espaço lá. Porém, pessoas ocupam o corredor entre as duas portas e você terá que se espremer até atingir o local. AINDA COM A MOCHILA EM UMA DAS MÃOS, você vai pedindo licença e EVITANDO RELAR/ESFREGAR NAS MULHERES ATÉ O LOCAL (pelo amor de Deus também né) e chega ao fundo.

Como recompensa, Deus faz o cara que está sentado na sua frente descer e um local está vago. Você olha pro lado e vê uma senhora em pé e com o olhar do Gato de Botas do Shrek na sua direção, transmitindo por telepatia a mensagem de “NÃO SENTA, FÉDAPUTA, NÃO SENTA”.

Cada um sabe da sua condição física, do nível de cansaço e quando vai descer. Se você vai descer em duas, três paradas, não custa ceder o lugar né? Agora, se eu estiver cansadaço ou sei que aquele ponto no centrão que desce 89% do ônibus está chegando, eu sento. Tirando isso, costumo ceder lugar.

Até porque, tem mulheres que usam uma bolsa maior que a do Gato Félix e que só de sentarem e colocarem a bolsa no colo, já permitem que um Hulk da vida ocupe um espaço confortável e considerável, além de evitar que esta mesma bolsa fique batendo na sua cabeça a cada freada brusca.

Por isso, faça uma gentileza e CEDA O LUGAR QUANDO POSSÌVEL.


DICA 5 - SEJA ESCOTEIRO

Você ganhou um lugar e cedeu à pessoa ao lado, chamando a atenção de Deus. Ele te recompensa e o melhor local do ônibus fica vago. (Aquela cadeira mais baixa, atrás das mais altas no fundo, em frente à porta de trás). Ali não tem intervalos de janela, ninguém abre ou fecha o vidro. Ali ninguém te vê direito e você pode encostar a cabeça no vidro e dormir.

Depois da meia hora de cochilo, acorda e percebe que o ônibus ainda está cheio e que faltam duas paradas para você descer. Você calcula que terá que ajeitar o cabelo amassado pelo vidro da janela, pedir licença à pessoa que está no corredor e pedir licença para as duas pessoas em pé, que te separam da saída.

O que você faz?
(a) Cochila mais um pouco.
(b) Começa a prestar atenção na conversa das pessoas em volta
(c) Começa a mexer no Facebook/Whatsapp/Twitter
(d) Já levanta e facilita a vida de todo mundo

Nada é pior do que a sensação Caverna do Dragão que ocorre nos ônibus. Você tem que ir embora dali, a porta de saída se abre, mas você não consegue chegar a tempo devido aos obstáculos físicos, ela se fecha e você espera a próxima oportunidade.

Portanto, esteja SEMPRE ALERTA e, no último ponto antes do seu, levante e já vá se dirigindo à saída.


CONCLUSÃO

Acho que se seguirmos essas dicas, seremos usuários melhores nessa droga de serviço público. (E eu cochilarei mais feliz)

Se tiver mais dicas, deixe aí no comentário ;) 



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Desencontros

Enquanto o ônibus atravessava a estrada, sua presença estava apenas no campo físico, já que seu espírito estava longe.

Não sabia sequer se estava apenas pensando ou se tinha dormido e não percebeu. Fato é que a cada quilometro percorrido, se afastava mais da realidade.

Sonhava com uma vida melhor, desejava um salário maior, queria ter um problema menor. Ou que seu trabalho fosse menos pior.

O fato é que aqueles fones em seu ouvido faziam com que não estivesse ali e a cada música tocada era um toque de reflexão.

Talvez por isso, não percebeu o olhar de interesse da pessoa que estava ao seu lado, quando justamente refletia sobre a falta de interesse que causava nas pessoas desconhecidas.

Foto retirada do site www.viajenaviagem.com 
Porém, quando tocou uma música do Zezé de Camargo e Luciano, retornou ao ônibus, afinal, não era isso que ouvia no dia-a-dia e nem sabia como aquela música foi parar na memória do seu Ipod.

Agora, restava selecionar uma música para retornar os pensamentos.

Olhou para os lados e viu que grande parte dos demais passageiros estavam dormindo, razão pela qual olhou para o relógio e descobriu que já eram duas e quinze da manhã.

O mais incrível é que a última vez que havia consultado o relógio, não eram nem nove horas. Será que dormiu por esse tempo? Ou apenas viajou nos pensamentos?

Agora, não importava mais.

Olhou para o lado e reparou na beleza da pessoa ao seu lado. Tinha um rosto angelical, parecendo ser uma boa pessoa. Mas sabia que não geraria interesse.

Selecionou a discografia do Legião Urbana, reclinou a cadeira, ajeitou o travesseiro e cruzou os braços atrás da cabeça.

Retomou os pensamentos no emprego, no time do coração, nos amigos de faculdade. Pensou na família, nos irmãos, na cerveja gelada que aguardava na primeira prateleira da geladeira, ao lado da caixinha de leite e da garrafa d’água.

Então pensou na pessoa ao lado. Tentava imaginar sua profissão, seu nome, onde morava, o que gostava de comer. Viu que não tinha alianças no dedo e tentou deduzir a idade, a cidade e as prioridades na vida que a poltrona ao lado devia ter. Mas não pensou em nada além disso, pois sabia que não havia chances ali.

Apenas gostava de refletir e imaginar.

Novamente, voltou ao ônibus quando a discografia chegou ao fim, selecionando, desta vez, a lista “Rock Nacional” com músicas do Skank, Jota Quest, Charlie Brown Jr., Capital Inicial e outros.

Mas desta vez, apenas selecionou a lista e voltou com o braço para trás da cabeça e fechou os olhos. E adormeceu.

Adormeceu e não viu a pessoa abrindo os olhos e retribuindo o olhar. Não percebeu que a poltrona ao lado também tentou imaginar sua profissão, seu nome, onde morava, o que gostava de comer, além de perceber que não usava aliança no dedo, deduzindo sua idade, cidade e prioridades de vida.

E ambos não descobriram que os respectivos anjos da guarda “bateram” e que se deram bem.

Quando acordou pela manhã, com o raio de sol em seu rosto, reparou que a bateria do Ipod havia acabado, mas não se importou.

Na parada seguinte, ela desceu do ônibus, enquanto ele permaneceu.

Para ele a viagem não chegou ao fim.

Como o ônibus, a vida segue seu caminho.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Magical Mistery Tour


Roll up, roll up from the Mistery Tour

Como disse aqui uma vez, estou fazendo um curso preparatório para concursos e isso tem me privado da vida social, afinal, saio do serviço e vou direto para assistir às aulas, que são diárias e no período de 19 às 22:15.

Depois da aula, vou para casa e chego por volta das 23h, me restando apenas tomar um banho e rastejar até a cama, na qual às 06:15 eu levanto e vou trabalhar, reiniciando o ciclo. Este é meu mundo e minha rotina de segunda à sexta.

Estou acima do peso, talvez em virtude do meu vício, ou talvez em virtude de alimentações no passado recente, e como vocês viram acima é meio complicado eu encaixar uma atividade física na minha rotina.

Pela razão acima, (além de motivos financeiros) resolvi que não iria usar o carro e usaria apenas uma das váááááárias opções de transporte público que Belo Horizonte (IRONIC MODE) proporciona, qual seja, o ônibus, que até já rendeu um pequeno conto aqui.

E andar de ônibus, amigos, é uma das melhores experiências que a vida te proporciona. É no ônibus que você entende como chineses são malabaristas, já que todos nós temos que nos equilibrar carregando mochila/bolsa/sacola/livros enquanto segura o balaustre do veiculo e firma o corpo nas curvas que o motorista faz. Isso tudo, sem esbarrar na dona que está sentada e dormindo na sua frente.

A modalidade malabarística acima tem um agravante na época de chuva. Porque você faz tudo aquilo acima, segurando um guarda-chuva/sombrinha molhados e em uma temperatura 10 vezes maior, já que as janelas estão fechadas. Aquele alemão de bigodinho teria inveja dos ônibus às 07/08 da manhã nos períodos de chuva e certamente os utilizaria como método de tortura.

Mas eu descobri uma experiência ainda mais emocionante do que ônibus na manhã: ônibus depois das 22hrs! Isso sim é emoção!

Quem nunca andou de ônibus depois das 22:00 não sabe que aquele veiculo consegue atingir a velocidade de 100 km por hora. Você nunca sabe se a natureza está chamando o motorista para as necessidades especiais naquele exato momento ou se é a última viagem que ele vai fazer na vida e quer acabar logo com aquilo. O fato é que motorista depois das 22hrs, é tipo o Pateta quando assume o volante naquele desenho:



E além da emoção de chegar com vida ao destino, porém com joelhos e ombros roxos de tanto chacoalhar no ônibus com as freadas e curvas bruscas, a gente tem o prazer de verificar como o ser humano é. Nas segundas e terças, parece que você está em ônibus que vai para um velório, pois ninguém conversa. É aquele silencio. Pessoas com expressões tristes e trocador cochilando. Quarta e quinta feira, já melhora. Aí já vimos pessoas falando ao celular e o trocador conversando com o motorista. Mas na sexta! Ah, as sextas! Sexta parece que é boate. Pessoas conversando, rindo e algumas até bebendo latinhas de cerveja. É dia da alegria.

E ontem, em plena quarta-feira, me surpreendi quando voltava pra casa.

Como sempre faço, sento e começo a mexer no celular no facebook e no twitter, com fones nos ouvidos escutando músicas relaxantes, tipo ACDC. Estava tudo caminhando como todos os dias, quando vi duas meninas sentadas no banco da frente e uma outra amiga delas, sentada no lugar do corredor no banco ao lado, conversando, e aparentavam ter uns 20 anos no máximo.

Então, essa menina que estava sentada sozinha no banco, vira para suas amigas que estavam no banco ao lado e solta essa bomba:

“Quer fazer seu homem feliz, passe bacon na sua bacurinha! Você vai ver a felicidade dele e vai sentir um prazer inesquecível”

Pronto. A frase do ano chamou minha atenção. Nem a Marta Suplicy e nem a menina do Altas Horas dariam uma dica dessas. Achei até que ela era responsável pelo perfil do twitter Dicas de nova.

Mas aí, a menina continuou dando dicas de relacionamento.

“Olha, se você quer ser uma mulher diferente, tem que se misturar no campo do seu homem. Mas tem que dar um espaço para ele também. Tipo assim, se ele gosta de vídeo-game e ouvir funk, jogue vídeo-game com ele e dance funk com ele. Mas não por mais de 2 horas, porque senão ele cansa de você”.

E, em seguida, veio a frase que desmistificou a arte milenar da dança do ventre.

“Procure saber as fantasias sexuais dele. Um dia eu vesti de odalisca e comecei a tirar o véu. Só que o FDP começou a rir e eu fiquei com raiva. Mas aprendi que temos que ter cuidado. Na vez seguinte, vesti de enfermeira e foi bem melhor”

Pena que elas desceram no ponto em seguida. Estava curtindo demais as dicas e até tentei gravar um vídeo para mostrar para a patroa, mas a bateria tava baixa.

E quando pensei que meu retorno para casa voltaria a ser um tédio, um sujeito que estava ao lado do cobrador, grita:

“Ô motorista, quer cagar meu filho? Para de correr. Em nome de Jesus! Tá amarrado pelo capeta!”

Bom, achei que era só um bêbado né? Mas nãããããããão! Porque dois pontos depois, quando ele desceu, começou a atirar pedras no ônibus e gritava:

“O motorista tá possuído! Saí capeta! Saaaaaaaaaaaai daííííííííí”

O motorista assustado arrancou e foi embora. Correndo mais ainda, é verdade. Mas tava rindo. E eu também.

Descobri que tinha sido a volta pra casa mais divertida de todos os tempos da última semana. Dei o sinal para descer e...

De repente, levanta uma menina que tava até babando no vidro de tanto que dormiu e começou a puxar a corda para dar o sinal, só que como eu já tinha feito isso, não adiantava.

Ela não percebeu e começou a puxar a corda enlouquecida.

“Ô motorista eu vou descer viu. Não to conseguindo dar sinal, mas eu vou descer...”

“É porque alguém já deu sinal, dona”

Então ela viu que eu tinha dado sinal. Mas viu que ainda não era o ponto dela. E simplesmente, sentou e dormiu de novo.

Pena que eu desci do ônibus e não acompanhei essa viagem até o fim.

Mas mal posso esperar para voltar pra casa hoje. 


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ponto de Vista

E após esperar por meia hora, George entra no ônibus, já quase cheio, mas com alguns lugares vazios, inclusive um ao lado da janela.

Com seus fones no ouvido, começa a cochilar, ainda mais porque está parado perto da Rodoviária e ali sempre sobe muita gente. Enquanto o ônibus enchia, encostou a cabeça na janela e fechou os olhos tentando dormir.

Contudo, foi só o ônibus arrancar para ele despertar. E viu uma menina correndo e batendo a mão no ônibus, pedindo para o mesmo parar.

E era linda.

O ônibus estava cheio e ele percebeu que havia uma senhora já sentado ao seu lado, o que impossibilitada de ficar perto dela, porém, ele percebeu que ela estava em pé, espremida na entrada do ônibus, e dificilmente ele chegaria perto. Sem contar o fato de que sua miopia impedia de vê-la melhor.

Então, resolveu dormir.

Mas não conseguia.

Quando abria os olhos, via a dificuldade dela de se equilibrar, segurando no balaustre e com cadernos e livros ao mesmo tempo. Além disso, os óculos de armação fina que ela usava, teimavam em escorregar pelo nariz, o que dava um charme naquela falta de jeito danada.

Apenas cinco pontos de parada depois, ela conseguiu chegar até a roleta, momento em que colocou os livros e cadernos sobre a mesinha do cobrador, e pode descansar um pouco os braços, enquanto procurava moedas na bolsa.

George não conseguia parar de olhar pra ela. Era totalmente linda. Cabelos lindos amarrados e colocados atrás da orelha. Um belo corpo. E aqueles óculos...

E ela parecia corresponder. Sempre olhava pra ele. Por mais que desviasse o olhar, sempre acaba nele. E olhava nos olhos. Depois ajeitava os cabelos, parecendo querer transmitir alguma mensagem.

O ônibus foi esvaziando.

Ele não tirava os olhos dela.

Ela não tirava os olhos dele.

Até que ela ficou em pé, em frente a ele. E ele não poderia perder a oportunidade.

- Quer que carregue?

- Claro.

E ela sorriu. Entregou os livros e cadernos pra ele com um lindo sorriso. E recolocou aquela mecha de cabelos loiros que teimavam em ficar atrás das orelhas.

E ainda ajeitou os óculos.

George pensava que não iria agüentar.

Que sorriso. Que olhos lindos.

E ela começou a reparar nele.

Ele tinha olhos bonitos. Quando ele olhava pela janela, possuía um olhar determinado. Gostava disso. Era lindo de perfil. E os óculos que ele usava trazia um ar charmoso.

George olhou então para os livros dela que estavam no seu colo. Eram sobre Psicologia, mas tinham uma bela letra na etiqueta. Que letra linda. E descobriu o nome dela: Patrícia. Que nome lindo. Patty...

Patrícia olhava para aquele rapaz que estava bem vestido. Sua roupa social estava quase impecável, mesmo no fim do dia. Ficou impressionado sobre como ele soube combinar as cores. Se vestia bem e tinha um bom corte de cabelo.

Ele percebeu que ela não tinha aliança nos dedos.

Ela percebeu que ele não tinha aliança nos dedos.

"É amor a primeira vista", ambos concluíram.

E parece que Deus também, pois Ele resolveu ajudar.

A senhora que estava sentada ao lado de George se levantou. E Patrícia poderia sentar ao lado dele.

Patrícia se sentou e pediu os livros, porém aquela mecha se soltou de novo, obrigando a colocá-la atrás da orelha de novo. E sorriu sem graça.

George entregou os livros e quase pediu para fotografar aquele sorriso. Ela era demais.

Patrícia estava visivelmente sem graça. Mas sorrindo. Ela retirou o seu Ipod da bolsa e selecionou uma baladinha do Aerosmith.

E foi aí que aconteceu.

George viu que ela escolheu Aerosmith. "Não é possível. Ela tinha que ter defeito”, pensou.

E por coincidência sua playlist havia acabado. E ele teve que escolher uma nova playlist, desta vez, escolheu o disco novo do Fernando e Sorocaba.

O problema foi que Patrícia viu a escolha da playlist dele.

Não é possível. Tinha que ter algum defeito”, pensou.

Neste momento, ela virou o rosto e olhou pro outro lado. Ele fez o mesmo.

George não acreditava que Patty pudesse gostar dessas músicas. “Se ainda fosse um sambinha... mas ficar puxando saco de bandas de fora não dá.”, pensou.

E imaginou que não seria legal se envolver com alguém que estude psicologia. Ela iria ficar avaliando seu perfil e ele não poderia falar nada sem ser analisado.

E Patrícia também não acreditava que aquele cara pudesse gostar dessas músicas. “Se ainda fosse um sambinha... mas ficar ouvindo música de corno não dá”, pensou.

E começou a pensar que um homem daquela idade possuir roupas tão impecáveis era estranho e pensou “das três uma. Ou ele é apegado demais com a mãe e ela que passa as roupas dele; ou ele é casado e tira a aliança, sendo um safado; ou é desempregado e preguiçoso e só fica procurando emprego”.

E então George pediu licença e deu o sinal para descer, pois chegou ao seu destino.

Me livrei de uma roqueira que iria ficar me analisando o tempo inteiro”, pensou George enquanto descia do ônibus.

Me livrei de um filhinho da mamãe que frequenta sertanejo só para pegar meninas”, pensou Patrícia, agora na janela, enquanto via o rapaz descendo do ônibus.

E ambos seguiram viagem. Cada um com seu ponto de vista.