segunda-feira, 22 de julho de 2013

Desencontros

Enquanto o ônibus atravessava a estrada, sua presença estava apenas no campo físico, já que seu espírito estava longe.

Não sabia sequer se estava apenas pensando ou se tinha dormido e não percebeu. Fato é que a cada quilometro percorrido, se afastava mais da realidade.

Sonhava com uma vida melhor, desejava um salário maior, queria ter um problema menor. Ou que seu trabalho fosse menos pior.

O fato é que aqueles fones em seu ouvido faziam com que não estivesse ali e a cada música tocada era um toque de reflexão.

Talvez por isso, não percebeu o olhar de interesse da pessoa que estava ao seu lado, quando justamente refletia sobre a falta de interesse que causava nas pessoas desconhecidas.

Foto retirada do site www.viajenaviagem.com 
Porém, quando tocou uma música do Zezé de Camargo e Luciano, retornou ao ônibus, afinal, não era isso que ouvia no dia-a-dia e nem sabia como aquela música foi parar na memória do seu Ipod.

Agora, restava selecionar uma música para retornar os pensamentos.

Olhou para os lados e viu que grande parte dos demais passageiros estavam dormindo, razão pela qual olhou para o relógio e descobriu que já eram duas e quinze da manhã.

O mais incrível é que a última vez que havia consultado o relógio, não eram nem nove horas. Será que dormiu por esse tempo? Ou apenas viajou nos pensamentos?

Agora, não importava mais.

Olhou para o lado e reparou na beleza da pessoa ao seu lado. Tinha um rosto angelical, parecendo ser uma boa pessoa. Mas sabia que não geraria interesse.

Selecionou a discografia do Legião Urbana, reclinou a cadeira, ajeitou o travesseiro e cruzou os braços atrás da cabeça.

Retomou os pensamentos no emprego, no time do coração, nos amigos de faculdade. Pensou na família, nos irmãos, na cerveja gelada que aguardava na primeira prateleira da geladeira, ao lado da caixinha de leite e da garrafa d’água.

Então pensou na pessoa ao lado. Tentava imaginar sua profissão, seu nome, onde morava, o que gostava de comer. Viu que não tinha alianças no dedo e tentou deduzir a idade, a cidade e as prioridades na vida que a poltrona ao lado devia ter. Mas não pensou em nada além disso, pois sabia que não havia chances ali.

Apenas gostava de refletir e imaginar.

Novamente, voltou ao ônibus quando a discografia chegou ao fim, selecionando, desta vez, a lista “Rock Nacional” com músicas do Skank, Jota Quest, Charlie Brown Jr., Capital Inicial e outros.

Mas desta vez, apenas selecionou a lista e voltou com o braço para trás da cabeça e fechou os olhos. E adormeceu.

Adormeceu e não viu a pessoa abrindo os olhos e retribuindo o olhar. Não percebeu que a poltrona ao lado também tentou imaginar sua profissão, seu nome, onde morava, o que gostava de comer, além de perceber que não usava aliança no dedo, deduzindo sua idade, cidade e prioridades de vida.

E ambos não descobriram que os respectivos anjos da guarda “bateram” e que se deram bem.

Quando acordou pela manhã, com o raio de sol em seu rosto, reparou que a bateria do Ipod havia acabado, mas não se importou.

Na parada seguinte, ela desceu do ônibus, enquanto ele permaneceu.

Para ele a viagem não chegou ao fim.

Como o ônibus, a vida segue seu caminho.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

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