terça-feira, 9 de julho de 2013

Castanheira

Após 17 anos, e muito relutar, estava de volta naquela cidade.

Não era qualquer cidade, era a cidade em que foi criada, a cidade que conheceu aos oito anos e a que foi obrigada a se despedir aos dezesseis.

Não que isso fosse bom, afinal, não guardava grandes lembranças e, talvez por isso, não fazia questão de passar a noite lá. “Vou fazer o que tenho que fazer no fórum e vou embora”, pensou e jurou pra si mesma.

Enquanto andava apressada pelo centro, com celular nos ombros e procurando algo em sua bolsa, atravessou a rua e seguiu pela Rua Direita. O problema é que o fórum não era por ali. Talvez inconscientemente, ou apenas por curiosidade, seguiu a rua e virou à esquerda.

Andou até o meio do quarteirão, parou e achou o bloco de notas que estava procurando. Após anotar o que precisava, guardou os papéis na bolsa e desligou o celular, enquanto se olhava pela vitrine da loja.  Até que viu o reflexo.

Não o seu reflexo, mas com a praça que estava atrás dela.


Era a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim de 17 anos atrás.

Não acreditando no que via, e principalmente nas lembranças que foram desenterradas num piscar de olhos, retirou os seus óculos escuros, colocando-o sobre sua cabeça.

Nem preocupou-se em olhar para os lados, simplesmente atravessou a rua para ver de perto. Era incrível. A mesma tinta branca cobria o meio fio, o mesmo banco de cimento cinza com tábuas de madeira, a mesmas flores dos dois lados ao redor do banco. E ela. A castanheira.

Não podia acreditar que ela estava ali, intacta, viva.

A árvore que subiu pela primeira vez na vida. A árvore que mais subiu na vida. A Castanheira da Praça da Matriz.

Instantaneamente se lembrou dos momentos que passou ali. Do dia que subiu para se esconder dos cachorros da Dona Lúcia que correram atrás dela. Do dia que roubou dois suspiros na loja do Seu Francisco e se refugiou lá. Daquela vez que choveu demais e ela foi obrigada a se abrigar em seus galhos. Da vez que quebrou o braço por cair dela. E claro, lembrou dele.

Quantas vezes se escondeu atrás do tronco para que ele não a visse? Quantas vezes se escondeu atrás do tronco com ele?

Eram tantas lembranças que fez questão de atravessar a praça e ir até a castanheira para vê-la de perto, sentir novamente o cheiro daquela madeira. Não que precisasse, mas era necessário.

E qual não foi sua surpresa e encontrar a “tatuagem” no tronco com as letras, R e L, dentro de um coração? Não acreditava as iniciais do seu nome e do nome dele, ainda estavam ali.

Obviamente, não era a única, mas ela nem precisou procurar. Sabia exatamente onde elas estariam.

Passou a mão sobre as iniciais desenhadas no casco da árvore e mais lembranças vieram à tona. Quantos momentos bons passou ali, quantos beijos trocados com ele, quantos amassos... Mas logo em seguida, vieram as lembranças ruins.

Das várias brigas com ele, das noitadas que ele passava na rua, dos dias que ele preferia jogar bola a estar com ela, daquela vez que achou o telefone daquela vizinha oferecida dentro da calça dele. E do dia em que tudo acabou.

E com uma lágrima escorrendo em seu rosto, pela primeira vez desde que viu a castanheira novamente, desviou o olhar e olhou para o céu, parecendo pedir para aquelas memórias fossem apagadas e aquela cicatriz fosse, enfim, fechada.

Porém, assustou-se com o celular tocando e voltou à realidade.

- Oi. Não, tudo bem, cheguei sim. Não, estou chegando ao fórum, to aqui pertinho, assim que conversar com o juiz eu te ligo. Tá, eu já disse que tá tudo bem sim. Deixa eu desligar. Tchau.

Desceu a escadaria da praça enquanto enxugava os olhos, pronta para atravessar a rua e voltar para seu caminho.

Porém, hesitou. Olhou para trás e viu a castanheira novamente. Precisava se despedir dela.

Assim que outra lágrima escorreu pelo seu rosto, virou-se para frente novamente e atravessou a rua. Sem olhar para trás.

Enquanto seguia seu caminho, absorvida em suas lembranças, não percebeu que a loja em que olhava a vitrine era dele.

Não percebeu que ele estava olhando, pela janela da sua loja, tudo o que ela fazia na praça.

Não viu que as lágrimas que deixou cair, também estavam caindo do dono da loja e que as lembranças compartilhadas entre eles, também deixou cicatrizes abertas para ele.

E ele, com lágrimas nos olhos, viu aquela mulher caminhar pela rua e deixar a praça exatamente como há 17 anos, enquanto ele também ficou parado, sem reação, como naquele dia.

E ambos não tiveram a oportunidade de se entenderem e descobrirem que o que viveram foi significativo e forte.


Como as raízes daquela castanheira.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

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