Após 17 anos, e muito relutar, estava de volta naquela cidade.
Não era qualquer cidade, era a cidade em que foi criada, a
cidade que conheceu aos oito anos e a que foi obrigada a se despedir aos
dezesseis.
Não que isso fosse bom, afinal, não guardava grandes
lembranças e, talvez por isso, não fazia questão de passar a noite lá. “Vou fazer
o que tenho que fazer no fórum e vou embora”, pensou e jurou pra si mesma.
Enquanto andava apressada pelo centro, com celular nos
ombros e procurando algo em sua bolsa, atravessou a rua e seguiu pela Rua
Direita. O problema é que o fórum não era por ali. Talvez inconscientemente, ou
apenas por curiosidade, seguiu a rua e virou à esquerda.
Andou até o meio do quarteirão, parou e achou o bloco de
notas que estava procurando. Após anotar o que precisava, guardou os papéis na
bolsa e desligou o celular, enquanto se olhava pela vitrine da loja. Até que viu o reflexo.
Não o seu reflexo, mas com a praça que estava atrás dela.
Era a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo
jardim de 17 anos atrás.
Não acreditando no que via, e principalmente nas lembranças
que foram desenterradas num piscar de olhos, retirou os seus óculos escuros,
colocando-o sobre sua cabeça.
Nem preocupou-se em olhar para os lados, simplesmente
atravessou a rua para ver de perto. Era incrível. A mesma tinta branca cobria o
meio fio, o mesmo banco de cimento cinza com tábuas de madeira, a mesmas flores
dos dois lados ao redor do banco. E ela. A castanheira.
Não podia acreditar que ela estava ali, intacta, viva.
A árvore que subiu pela primeira vez na vida. A árvore que
mais subiu na vida. A Castanheira da Praça da Matriz.
Instantaneamente se lembrou dos momentos que passou ali. Do
dia que subiu para se esconder dos cachorros da Dona Lúcia que correram atrás
dela. Do dia que roubou dois suspiros na loja do Seu Francisco e se refugiou
lá. Daquela vez que choveu demais e ela foi obrigada a se abrigar em seus
galhos. Da vez que quebrou o braço por cair dela. E claro, lembrou dele.
Quantas vezes se escondeu atrás do tronco para que ele não a
visse? Quantas vezes se escondeu atrás do tronco com ele?
Eram tantas lembranças que fez questão de atravessar a praça
e ir até a castanheira para vê-la de perto, sentir novamente o cheiro daquela
madeira. Não que precisasse, mas era necessário.
E qual não foi sua surpresa e encontrar a “tatuagem” no
tronco com as letras, R e L, dentro de um coração? Não acreditava as iniciais
do seu nome e do nome dele, ainda estavam ali.
Obviamente, não era a única, mas ela nem precisou procurar.
Sabia exatamente onde elas estariam.
Passou a mão sobre as iniciais desenhadas no casco da árvore
e mais lembranças vieram à tona. Quantos momentos bons passou ali, quantos
beijos trocados com ele, quantos amassos... Mas logo em seguida, vieram as
lembranças ruins.
Das várias brigas com ele, das noitadas que ele passava na
rua, dos dias que ele preferia jogar bola a estar com ela, daquela vez que
achou o telefone daquela vizinha oferecida dentro da calça dele. E do dia em
que tudo acabou.
E com uma lágrima escorrendo em seu rosto, pela primeira vez
desde que viu a castanheira novamente, desviou o olhar e olhou para o céu,
parecendo pedir para aquelas memórias fossem apagadas e aquela cicatriz fosse,
enfim, fechada.
Porém, assustou-se com o celular tocando e voltou à
realidade.
- Oi. Não, tudo bem, cheguei sim. Não, estou chegando ao
fórum, to aqui pertinho, assim que conversar com o juiz eu te ligo. Tá, eu já
disse que tá tudo bem sim. Deixa eu desligar. Tchau.
Desceu a escadaria da praça enquanto enxugava os olhos,
pronta para atravessar a rua e voltar para seu caminho.
Porém, hesitou. Olhou para trás e viu a castanheira
novamente. Precisava se despedir dela.
Assim que outra lágrima escorreu pelo seu rosto, virou-se
para frente novamente e atravessou a rua. Sem olhar para trás.
Enquanto seguia seu caminho, absorvida em suas lembranças,
não percebeu que a loja em que olhava a vitrine era dele.
Não percebeu que ele estava olhando, pela janela da sua
loja, tudo o que ela fazia na praça.
Não viu que as lágrimas que deixou cair, também estavam
caindo do dono da loja e que as lembranças compartilhadas entre eles, também
deixou cicatrizes abertas para ele.
E ele, com lágrimas nos olhos, viu aquela mulher caminhar
pela rua e deixar a praça exatamente como há 17 anos, enquanto ele também ficou
parado, sem reação, como naquele dia.
E ambos não tiveram a oportunidade de se entenderem e
descobrirem que o que viveram foi significativo e forte.
Como as raízes daquela castanheira.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


Nenhum comentário:
Postar um comentário