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terça-feira, 2 de junho de 2015

Um nem tão pequeno assim Manual sobre Ônibus



Todos os dias quando acordo, eu penso no martírio que vou viver durante horas até o momento de encostar a cabeça no travesseiro novamente. (Achou que era música do Legião Urbana quando começou a ler, né?)

Quando eu digo martírio, quero que pense naquelas situações diárias que você irá passar e que estressam, fazem xingar, mas que no outro dia você vai ter que viver.

E não, não é sobre trabalho que me refiro. Claro que trabalhar se encaixa perfeitamente na descrição acima, mas não é isso - até mesmo porque, tem pessoas que labutam comigo e que passam os olhos nesse blog e não posso reclamar muito.

É sobre o martírio do ônibus.

Aliás, nada contra o transporte em si. Como já abordei algumas vezes nesse Muro das Lamentações, eu gosto de ônibus. Tal qual descrito no twitter esses dias: "O lado bom do transporte coletivo: eu posso dormir enquanto o motorista dirige. Isso é quase igual a ser rico, só que sendo pobre". 

Ao contrário do resto da sociedade e do Poder Público que desprezam tanto esse serviço e o consideram uma droga – tanto é que chamam os passageiros de usuários, eu gosto.

O que me incomoda mesmo é a falta de educação dos passageiros. Não consigo entender por que as pessoas não facilitam a vida de todos. Por isso, resolvi cagar umas regras aqui dar umas dicas.


DICA 1 – EVITE EFEITO MANADA

Quantas e quantas vezes eu estou encostado no poste, esperando o ônibus chegar, quando ele aparece na esquina e entra numa fila de ônibus que param no mesmo ponto. Ele é o quarto, está a 100metros de distância, mas sempre tem um apressadinho que corre mais de meio quarteirão para não perder. O efeito manada é inevitável e todos correm até o coletivo.

Reclamei disso no Twitter nesses dias e várias pessoas falaram a mesma coisa: “Ah, mas se não fizer isso o motorista passa por fora e eu perco o ônibus”. Tudo bem, até concordo, mas quando se está em horário de pico e as faixas ao lado estão todas ocupadas com trânsito ruim, ou seja, das 06h às 20h, o motorista não vai conseguir mudar de faixa. Além disso, pode ser que pessoas dentro do ônibus tenham dado o sinal para descer naquele ponto.

Portanto, coleguinhas, quando vocês estiverem no ponto e houver outros ônibus em fila esperando para encostar e não tenham visto desembarque de passageiros, NÃO CORRAM ATÉ O ONIBUS QUE ESTEJA ATRÁS.
 
Correr só se for assim


DICA 2 – NÃO SEJA O TIO PATINHAS E NÃO ESCONDA O DINHEIRO

Ok, você não correu e entrou no ônibus. Chega na catraca, coloca a mochila sobre a mesinha do cobrador/trocador e começa a procurar moedas ou o cartão de passagem. Uma fila de pessoas ávidas por dormir ou mexer no celular se forma atrás e você começa a ficar mais nervoso. O motorista acelera, o cobrador/trocador bate a moedinha para avisar que todos desembarcaram, a senhora sentada nas poltronas com preferência começa a passar mal com o odor oriundo do sovaco do cara atrás de você e você fica mais nervoso ainda. Acha as moedas, deixa aquela de 10 centavos cair, não tem coragem de abaixar no ônibus e entrega a nota de 50 reais para pagar a passagem...

Aí você pensa que se tivesse com o dinheiro separado no bolso ou com o cartão colocado em local de fácil acesso, não passaria por isso e facilitaria a vida de todo mundo.

Pois é. Então, fique COM O DINHEIRO/CARTÃO DA PASSAGEM NAS MÃOS ou deixe em local de acesso rápido, e não segure a fila que se forma atrás de você.


DICA 3 – NÃO TENHA TENDÊNCIA AO CARANDIRU

Você paga a passagem, todos em volta comemoram, passa da roleta e todos os lugares estão ocupados. Você olha para aquele espaço tentador localizado em frente à porta do meio do ônibus e sabe que é destinado aos cadeirantes. Mas você vai descer após 9 paradas, vai ficar ali, o que que tem? COM A SUA MOCHILA NA MÃO PRA OCUPAR MENOS ESPAÇO (pelo amor de Deus né?), você vai pro seu cantinho e observa que no fundo tinha espaço e pensa que tá tudo bem. Só que TODAS AS PESSOAS pensam a mesma coisa e resolvem ocupar o mesmo espaço, transformando o contingente populacional por metro quadrado maior do que o de uma cela comum no Carandiru.

Não faça isso, coleguinha usuário. Estudos comprovam que quem ocupa os lugares do fundo do ônibus, geralmente são pessoas que embarcaram no inicio do itinerário e TENDEM a descer primeiro, lhe conferindo maiores chances de conseguir sentar. Pode confiar, lá no fundo não tem monstros, cachorro bravo ou bicho papão.

Além disso, quanto mais as pessoas ficarem no Triângulo das Bermudas (catraca - espaço para cadeirantes – porta do meio – catraca), menos concorrência para as cadeiras no fundo você terá.

Portanto, FUJA DO CARANDIRU DO MEIO DO ÔNIBUS E OCUPE O FUNDO DO ÔNIBUS TAMBÉM!


Dica 4 – SEJA O PRÉDIO DO SÉRGIO NAYA E CEDA

Você demorou pra decidir se aventurar até o fundo do ônibus, mas percebe que tem espaço lá. Porém, pessoas ocupam o corredor entre as duas portas e você terá que se espremer até atingir o local. AINDA COM A MOCHILA EM UMA DAS MÃOS, você vai pedindo licença e EVITANDO RELAR/ESFREGAR NAS MULHERES ATÉ O LOCAL (pelo amor de Deus também né) e chega ao fundo.

Como recompensa, Deus faz o cara que está sentado na sua frente descer e um local está vago. Você olha pro lado e vê uma senhora em pé e com o olhar do Gato de Botas do Shrek na sua direção, transmitindo por telepatia a mensagem de “NÃO SENTA, FÉDAPUTA, NÃO SENTA”.

Cada um sabe da sua condição física, do nível de cansaço e quando vai descer. Se você vai descer em duas, três paradas, não custa ceder o lugar né? Agora, se eu estiver cansadaço ou sei que aquele ponto no centrão que desce 89% do ônibus está chegando, eu sento. Tirando isso, costumo ceder lugar.

Até porque, tem mulheres que usam uma bolsa maior que a do Gato Félix e que só de sentarem e colocarem a bolsa no colo, já permitem que um Hulk da vida ocupe um espaço confortável e considerável, além de evitar que esta mesma bolsa fique batendo na sua cabeça a cada freada brusca.

Por isso, faça uma gentileza e CEDA O LUGAR QUANDO POSSÌVEL.


DICA 5 - SEJA ESCOTEIRO

Você ganhou um lugar e cedeu à pessoa ao lado, chamando a atenção de Deus. Ele te recompensa e o melhor local do ônibus fica vago. (Aquela cadeira mais baixa, atrás das mais altas no fundo, em frente à porta de trás). Ali não tem intervalos de janela, ninguém abre ou fecha o vidro. Ali ninguém te vê direito e você pode encostar a cabeça no vidro e dormir.

Depois da meia hora de cochilo, acorda e percebe que o ônibus ainda está cheio e que faltam duas paradas para você descer. Você calcula que terá que ajeitar o cabelo amassado pelo vidro da janela, pedir licença à pessoa que está no corredor e pedir licença para as duas pessoas em pé, que te separam da saída.

O que você faz?
(a) Cochila mais um pouco.
(b) Começa a prestar atenção na conversa das pessoas em volta
(c) Começa a mexer no Facebook/Whatsapp/Twitter
(d) Já levanta e facilita a vida de todo mundo

Nada é pior do que a sensação Caverna do Dragão que ocorre nos ônibus. Você tem que ir embora dali, a porta de saída se abre, mas você não consegue chegar a tempo devido aos obstáculos físicos, ela se fecha e você espera a próxima oportunidade.

Portanto, esteja SEMPRE ALERTA e, no último ponto antes do seu, levante e já vá se dirigindo à saída.


CONCLUSÃO

Acho que se seguirmos essas dicas, seremos usuários melhores nessa droga de serviço público. (E eu cochilarei mais feliz)

Se tiver mais dicas, deixe aí no comentário ;) 



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

terça-feira, 10 de março de 2015

O Casal e a Chuva


Quem me conhece, pessoalmente, sabe que eu ano à pé pela cidade, com fones no ouvido e mo...

Ops.

Já escrevi isso. Vou começar de novo.

Quem me conhece, pessoalmente, sabe que eu ando à pé pela cidade, com fones no ouvido e mochila, mas também ando de ônibus.

Aliás, não abro mão de usar ônibus. Mas justifico: dou sorte que esse meio de transporte é bem diversificado na região onde moro. Lá passam várias linhas e algumas, até, com ponto final próximos.

Além disso, uso em horários nem tão cheios assim – geralmente após às 17h – quando volto pra casa e quase sempre tem lugares vazios, o que me permite usar a viagem de volta como o horário conhecido por mim como “a hora do cochilo”.

Mas não foi o caso ontem.

Eu estava fora do meu horário padrão, distante do ponto em que costumo usar e com o número de linhas disponíveis bem reduzidos, já prevendo que não conseguiria dormir no ônibus.

Talvez isso justificasse, um pouco, o mau humor em que estava. Pra piorar, começou a chuviscar.

Corri para aquelas proteções que existem nos pontos de ônibus para me abrigar da chuva e todos se apertavam. Menos um casal.

Aliás, um casal não. O Casal.

Estavam próximos, mas nem pareciam perceber que estava chovendo. Na hora deduzi: Começo de namoro.

Até porque a gente sabe como funciona né? Ficavam abraçados o tempo todo, com as mãos entrelaçadas e trocavam olhares e sorrisos apaixonados.

Aí se olhavam em silêncio, davam selinhos, se abraçavam e reclinavam a cabeça no ombro do outro.

Isso sem falar, claro, nas brincadeiras que, mais que os beijos, são o que constroem um casal: bobagens, piadas internas, tapas carinhosos entre risadas.

Exalavam felicidade a cada abraço. A cada beijo. A cada olhar. E demonstravam que não eram duas pessoas ali. Eram uma pessoa só.

Porém a chuva “esforçou” como diz minha mãe. Ou “apertou” como diz meu pai. E de repente, perceberam que estava chovendo e foram procurar abrigo, mas o espaço que me protegia da chuva já estava ocupado em todos os lugares.

Então eles foram para perto de uma árvore, e se protegeram da chuva lá. Sem soltar as mãos, ficaram em silêncio, talvez até assustados, mas deixando transparecer que um dava sensação de segurança para o outro.

Estavam assim.

Meu ônibus chegou. Dei o sinal, embarquei e vi que eles iriam se separar ali.

Da roleta do ônibus, vi as mãos se soltarem e um último beijo entre eles. Um pouco apressado, mas bem carinhoso.

Sentei, encostei a cabeça na janela - preparando pra dormir - mas continuei olhando para aquele casal, agora, separado.

O rapaz que entrou no ônibus, sentou na cadeira da frente e foi para a janela despedir do seu amor.

Já o rapaz que ficou no ponto, acenou despedindo, atravessou a rua e correu para dentro de um prédio.

E o ônibus arrancou.

Neste momento, o rapaz na minha frente encostou a cabeça na janela, não sei se estava com os olhos fechados, mas certamente aparentava sonhar com seu namorado.

Pensando na minha namorada, fechei os olhos e cochilei.

Torcendo para que todos sejam felizes.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

quarta-feira, 4 de março de 2015

O Bilhete


Quem me conhece, pessoalmente, sabe que eu ando à pé pela cidade, com fones no ouvido e mochila nas costas.

É só subir ou descer a Avenida Afonso Pena, aqui em Belo Horizonte, no trecho entre a Avenida Brasil e a Praça da Bandeira, no período entre 07:50 e 08:30 da manhã, que irão avistar um gordinho de tênis, com fones brancos nos ouvidos e uma mochila preta. Faço isso todos os dias.

Enquanto ouço as notícias do dia na Rádio BandNews FM, me afasto do caos do trânsito e aproveito a caminhada diária para pensar na vida. Vejo pessoas passando por mim e fico imaginando o que passa na vida de cada uma delas, quais as profissões que exercem, seus sonhos, problemas e desejos.

Sou uma criança nessa caminhada. Às vezes ando sobre o meio fio, não gosto que outras pessoas andem mais rápido que eu e fico puto quando realmente me ultrapassam.

E numa dessas caminhadas, eu vi um bilhete.

Aliás, um pedaço de bilhete. Rasgado. Largado.

Esse bilhete.

Com um horário, um dia da semana, meio endereço. Uma palavra que não entendi.

Imaginei mil coisas.

Poderia ser uma consulta médica. Uma pessoa doente, em um último recurso para manter a vida, precisando daquela consulta esperançosa para conseguir passar mais tempo com a família.

Quem sabe um encontro de amantes? Pessoas que possuem relacionamentos amorosos constituídos, longos, mas que se apaixonaram e resolveram se entregar aos desejos e nada mais seguro que um encontro em uma segunda-feira, 08 horas da manhã.

Ou talvez uma entrevista de emprego. Um adolescente em busca de sua primeira oportunidade de trabalho, ou um idoso procurando mais uma chance pra demonstrar que consegue produzir muito bem ainda. Ou um adulto médio vindo do interior batalhando para ter uma chance de sustento.

Poderia ser uma busca desesperada para amenizar dificuldades financeiras. Um encontro com um agiota que iria fazer um empréstimo com juros altíssimos para mais uma tentativa de realizar um sonho de um negócio próprio.

Porque não imaginar, talvez, um encontro da máfia dos olhos-puxados que dominam os shoppings populares. Sei lá, uma Yakusa Belohorizontina, com os chefes das famílias asiáticas reunidos para estabelecer as normas éticas de condução dos negócios de forma que todos saiam ganhando.

E se fosse apenas um trabalho de um motoqueiro qualquer que iria entregar aquele envelope polpudo de mais uma empreiteira corrupta para mais um político corrupto que iríamos ficar sabendo meses ou anos depois?

Poderia ser um monte de coisa.

Mas não queria imaginar que se tratava de um término de relacionamento, de uma pessoa demitida, de um documento qualquer de alguém que faleceu recentemente, ou um atendimento médico com notícias trágicas.

Porque de ruim já bastam as notícias que ouço todos os dias, que tratam de corrupção, morte, fraudes, acidentes e tragédias. Notícias que ouvia ali mesmo, enquanto via o bilhete e imaginava várias coisas.

Aquele pequeno bilhete rasgado, mesmo que por alguns instantes, não poderia ser portador de más notícias. Era sinal de que eu poderia imaginar que, em algum lugar da cidade, alguém estava extremamente esperançoso de que algo daria certo.

Assim como eu estava quando voltei a caminhar.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

1996



A hora chegou.

Não que a preparação até ali tenha sido fácil. Pelo contrário, foi preciso muita pesquisa e horas de sono foram desperdiçadas até aquele momento.

Depois de 4 meses, 6 dias e 3 horas, ela estava ali, pertinho dele, como ele não esperava.

Tudo começou quando sua mãe pediu pra que buscasse couve lá no Seu Geraldo. Assim que virou a esquina, viu um carrão preto estacionando em frente à antiga casa do Seu Manoel que morreu ano passado.

Quando a porta de trás se abriu, e aquela menina desceu do carro, parecia que estava tudo em câmera lenta. O olhar descompromissado dela, que parecia se preocupar mais com os fones no seu ouvido e com o cachorro que estava em seu colo, aparentava ser de outro mundo.

De provável descendência japonesa, com a pele clara, olhos puxados, cabelo escuro e liso, fino, franja cortada rente às sobrancelhas. Usava calça jeans azul, com uma camiseta vermelha com uma árvore branca no canto direito. E sorriu. Lindamente.

Nunca antes na história dos seus 14 anos havia sentido o que sentiu naquele momento.

Estranhamente, suas pernas bambearam e algo esquentou em seu corpo. Ele simplesmente não conseguia se mover e nem tirar os olhos daquela menina que foi logo entrando na casa.

E só aí que ele se movimentou.

Quando voltou pra casa, deixou a compra da mãe em cima da mesa e nem os gritos de “Cadê meu troco?” interromperam a corrida até a janela do seu quarto, pra ver se conseguiria ver a casa dela.

Pulou até a sua cama, depois na cama da sua mãe, e por fim subiu no banquinho para alcançar a janela do banheiro, a única que tinha visão do quintal da casa dela.

Como era linda.

Pena que os seus sessenta e um quilos distribuídos em um metro e cinqüenta e dois de altura, aliados aos óculos e às espinhas não atrairiam a atenção dela.

Aliás, como não atraíra a atenção de nenhuma espécie feminina há dois anos. As únicas aproximações que recebeu foram de uma freira amiga da sua mãe - que vivia o abraçando quando o via - e de Caju, a cadela do vizinho que adorava lamber seus calcanhares.

Passou dias a admirando pela janela, tanto que até largou o Internacional Super Star Soccer de lado. Sua mãe até estranhou não ouvir mais as narrações imitando o Sílvio Luiz, e constatar que as revistinhas do Lanterna Verde e do Batman permaneciam exatamente onde ela havia colocado.

- Filho, tá acontecendo alguma coisa?

- Não, mãe.

- O que cê tá fazendo na janela então?

- Nada.

- Você tá bem?

- Tô! Já disse.

- Já que tá bem e tá à toa, faz um favor pra sua mãe! Corre lá na venda do Periquito e compre cloro e água sanitária.

- Sério, mãe? Não pode esperar quinze minutos?

- Não. Agora!

O problema não era ir ao Periquito, mas perder a chance de vê-la chegando do inglês. Todos os dias, entre 15h30 e 15h40, o carro da mãe de uma amiga dela parava em fila dupla, ela saía pela porta de trás com suas meias brancas até os joelhos e saia negra como os cabelos. Despedia acenando da porta de casa e entrava, fechando o portão. Em 10 segundos ele a via novamente, quando ela subia as escadas rumo ao segundo andar da casa.

Todos os dias ele a olhava nesse horário e agora não poderia para poder ir à venda para sua mãe.

Andando cabisbaixo pela rua, sem pisar nas linhas do desenho do piso da calçada, pensava em como falar com ela. Se lembrou que talvez o Porquinho, seu amigo que morava perto da venda, pudesse ajudar.

- Oi, Porquinho!

- Fala comigo!

- Passei aqui e perto e lembrei que meu primo me pediu pra te perguntar uma coisa.

- Que primo?

- Não importa. Ele pediu segredo.

- Tá bom. Fala aí.

- Então. Meu primo tem um amigo que tá apaixonado com a vizinha dele. E ele é meio feio, sabe? Como que ele faz?

- Ah, sei lá. Você sabe que eu não sei chegar nas meninas, né? Elas é que chegam em mim hahahaha!

- Sei. Aham.

- Pois é. Mas sei lá. Ele tem que chamar a atenção dela. Tipo, jogar bola na frente dela, fazer uma porrada de gols, dar chapéu, canetinha nos rivais e tals. Aí ela olha pra ele.

- Mas a vizinha não o vê jogando bola.

- Como que você sabe?

- Eu sei.

- Ah, sei lá então. Eu chamo atenção das meninas assim. Vou ter que entrar porque dei pause no Sonic II lá e não tem como salvar né?

- Eu sei. Valeu.

Chegou até a venda pensando que não tinha adiantado nada aquela conversa com o Porquinho e pediu a água sanitária e o cloro.

- Tá aqui, guri. To te achando meio pra baixo. Que foi?

- Nada não.

- Tá apaixonado é?

- Eu? Tá doido?

- To vendo os coraçõezinhos daqui.

- Sério?

- Ó! Te dar um conselho. Fale pra ela o que você tá sentindo.

- Fome?

- Não. Que você acha ela linda e etc. Vai por mim.

- Tá bom. A mãe pediu pra você anotar. Depois ela passa aqui.

- Tá bom. Com Deus aí! E boa sorte.

Na volta pra casa, pensou em tudo aquilo e na conversa que teve com o Vinicius, seu psicólogo, que disse que “aquela insegurança era normal já que os jovens costumam colocar mulheres em pedestais, estabelecendo possíveis frustrações como fatos consumados, sendo que o certo era viver os dias sem grandes anseios. Pois um cotidiano sem frustrações seria aproveitado para formação do ego sem grandes quedas, e que possibilitaria a retirada do medo do fracasso, já que as perdas para quem esperava muito eram maiores do que a vitória para quem esperava pouco”.

Como era difícil entender aquilo tudo.

E foi aí que aconteceu. Depois de 4 meses, 6 dias e 3 horas, ela estava ali, pertinho dele, como ele não esperava.

Ela estava ali, na porta do prédio dele. Sozinha.

Ele com uma sacola preta com uma garrafinha de cloro e outra de água sanitária.

As pernas tremeram. A garganta secou. E ela estava ali, a vinte metros dele.

Cenas de filmes românticos passaram pela sua cabeça, uma poesia que tentava decorar, o olhar do Seya para a Saori no Cavaleiros do Zodíaco, a ideia de voltar até a venda do Periquito. Quinze metros.

Era agora ou nunca. Teria que ser a cantada perfeita. Dez metros.

Pensou em ser meticuloso, manhoso na medida certa. Tinha que derreter o coração dela. Pigarreou. Cinco metros.

Saiu o arriscado e infalível. Um metro.


- Oi.

- Oi.

E aí virou um encontro.

Aí viraram três.

Aí virou a vontade de passar mais tempo juntos.

O tempo deixou de ser importante e parecia ter sido ontem.

Parecia que sempre foi.

E parecia ser pra sempre.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Natal



Não tinha jeito. Paulo adorava o Natal.

Tudo porque na família dele era uma farra. E ele sempre ganhava dezenas de presentes. Era da mãe, do padrasto, do pai, da madrasta, dos irmãos mais velhos, dos tios e tias maternos e paternos, da madrinha e do padrinho. E claro, dos avós.

A família do pai era bem característica, dessas que se veem em novelas e livros. O avô paterno era uma figura. Tinha os cabelos brancos, óculos com lente redonda na ponta do nariz e usava suspensórios (mesmo em casa, mesmo sem camisa) e um chinelo bem característico de uma pessoa idosa. Amável e compreensivo, sempre tinha uma história pra contar e um doce escondido para “estragar” o neto.

Já a avó paterna era uma cozinheira de mão cheia, e costureira à moda antiga. Sempre de vestido estampado, com pequenas flores e um avental. Diariamente perdia os óculos pela casa, mas sabia exatamente onde estava tudo o que todos precisavam. Também era amável, e nunca deixou de dar o que os netos pediam pra comer.

Para Paulo, o Natal fazia sentido quando almoçava todo 25 de dezembro e abria um monte de presentes. Até que seu avô chamou.

Inicialmente não queria, mas Paulo foi.

- Paulinho, você não acha que tem muito brinquedo não?

- Não, vô!

- Você tem que ajudar as pessoas. Há criança no mundo que não tem nenhum brinquedo. Olha quantos ganhou nesses anos e olha quantos ganhou hoje. Tem que desfazer de algum.

- Mas vô, eu gosto de todos. E nenhum tá estragado ou quebrado.

- Mais um motivo pra dar algum pros outros. Você gostaria de ganhar algum brinquedo quebrado ou estragado? Um boneco faltando braço? Claro que não né?

- Claro que não né, vô!

- Pois é. Sabe a Lurdinha que trabalha aqui em casa? Então, Marquinhos, o filho dela, não ganhou presente nenhum. Que tal você dar algum pra ele?

Paulo olhou pra criança sentada no fundo do lote do avô e começou a pensar. A Lurdinha não tinha família na cidade e o pai de Marquinhos sumiu no mundo. Era sempre convidada pra passar o natal lá e sempre ficava em um cantinho, junto com o filho.

- Ah vô, mas eu gostei de tudo.

- Eu sei que gostou. Ajudar as pessoas faz bem. Acredite em mim.

Então Paulo olhou em volta. E teve uma ideia.

Na verdade, se lembrou que na noite do dia 24 de dezembro, o Natal era na família da mãe com os avós. E o problema era justamente eles. 

Sua avó materna era uma pessoa humilde, de vida simples e sem muitos luxos. Mesmo assim era amável como poucas. Não tinha quase nada, mas oferecia tudo que podia e sempre dava um presentinho pro neto. Dessa vez, ela mesmo fez um balanço de árvore.

Mas o avô era mais problemático. Era mais rabugento, mais amargo, mas ainda assim carinhoso com o neto. Cabelos e barba brancos, magro toda vida, com marcas do tempo que assustavam as crianças mais novas. Mas não ligava. Não era muito de papo, sempre muito sério, e ainda tinha um problema na perna direita. O mais engraçado é que nunca reclamava de nada e sempre dizia que “não tinha problema na perna direita. A esquerda é que era abençoada”.

O problema é que o avô estava doente, não saía da cama e tinha perda de memória. Às vezes, perguntava duas, três vezes a mesma coisa e as pessoas em volta se irritavam com facilidade.

Nesse natal, foi visitar o avô e ele lhe chamou no canto.

- Oi Guri! Tá vendo aquele pacotinho verde ali em cima da poltrona? Pode pegar, é seu presente de natal.

- Brigado vô!

- Espero que sirva.

Um frio na espinha apareceu no garoto. Era roupa.

Abriu o pacote e constatou. Uma bermuda preta e uma camisa branca. Nem retirou a roupa do embrulho, apenas abriu e viu o que era. E claro, não podia deixar de agradecer o avô.

- Brigado vô!

- De nada.

- E a perna?

- Qual delas?

- A que o senhor tem problema.

- Já disse. Não tenho problema na perna direita. A es...

- A esquerda que é abençoada. Eu sei. Ó vô! Vou lá comer. Brigadão! Tchau!

Nem um abraço ou beijo no avô. Apenas isso: “Brigadão”.


Paulo então pensou, "o melhor era dar a roupa que ganhou do avô materno pro Marquinhos." Assim, ficava livre da roupa, fazia uma criança com um presente e o avô paterno felizes.

- Marquinhos. Toma! Pra você!

- Brigado Paulo.

- Espero que sirva.

E sob a aprovação, e o sorriso, do avô paterno foi brincar com seus brinquedos novos. Lurdinha também era só alegria, enquanto Marquinhos tirava  a roupa do embrulho e viu que um pião caiu.

- Paulinho, caiu aqui ó! É seu!

- Pode ficar. Não quero.

- Obrigado.

Enquanto Marquinhos era só sorrisos com o pião, Lurdinha foi guardar a roupa na mochila do filho. Dias depois, descobriram que havia cem reais escondidos no bolso esquerdo da bermuda e um bilhete.

“Dei essa bermuda de presente para meu neto e, provavelmente, ele deu de presente pra outra pessoa, sem nem experimentar a roupa ou descobrir o pião no bolso direito, pois só quer saber de brinquedos. Se você ganhou essa bermuda dele, fique com o dinheiro. Feliz Natal”

Lurdinha apenas pensou. Realmente, ele tinha a perna esquerda abençoada.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha