João e Maria possuíam várias
características, mas a mais marcante de todas era a curiosidade.
Naquele dia, estavam em um piquenique com um grupo
de amigos e quando foram acender a churrasqueira, perceberam que tinham pouco
carvão e a solução encontrada foi usar lenha.
João e Maria então resolveram ir à
floresta ao lado para buscar lenha, já que não haviam árvores na área do
camping.
Os dois então seguiram uma trilha que
levava para o meio da floresta, mas estavam com medo de se perder. Até que
Maria teve uma ideia.
Ela retirou o celular do bolso, abriu o
Google Maps e marcou o local de saída como favorito. A partir daí foram
caminhando, com o mapa aberto na tela do celular.
Ambos andaram por uns minutos até que
viram uma grande árvore, já velha e seca, e um grande pedaço de
galho no chão. Maria resolveu quebrar em pequenos pedaços, enquanto
João subiu na árvore para pegar mais alguns tocos de madeira.
- Ei! Vocês dois! Não pode mexer na
árvore não! Isso é crime ambiental, vocês sabiam?
João foi quem ouviu primeiro o guarda
florestal e logo pulou da árvore.
- Que merda, Maria. Vamos sair daqui!
E ambos saíram correndo dali para fugir
do guarda.
Correram pela trilha
e acabaram se afastando muito da área de camping, chegando em um local aberto com grandes pedras no chão, onde se sentaram para descansar.
- Acho que despistamos ele, Maria.
- Também acho, João. Nossa, corri
demais.
Maria retirou o celular do bolso para olhar onde estavam, mas não tinha sinal
de internet no celular.
- Essa TIM é uma merda viu?
- Que foi Maria?
- Não tem sinal de internet aqui, João,
e não tem como nos orientarmos pelo GPS. Só tem dois “pininhos” aqui de sinal,
só dá pra ligar pra alguém. Acho que podíamos ligar pra polícia. Ou pros
bombeiros...
- Tá doida, Maria? Vamos ser
processados por crime ambiental. Já sabem que estamos aqui.
- Pior que verdade. Podemos, então, voltar um pouco até
termos sinal de internet.
-....
- João?
- ...
- João, cadê você?
- Aqui.
Veja!
E então Maria viu a casa.
Ela não acreditava naquilo que via,
afinal, não é todo dia que se vê uma casa de doce na frente.
- Venha Maria, vamos comer.
- Tá doido, João? Olha a bomba calórica
que é esta casa, não quero engordar. Só de olhar eu já engordei uns 2 kg!
- Ah, deixa de ser besta, Maria, venha
logo.
De fora, perceberam que a casa era
repleta de doces. As paredes eram feitas de chocolate com castanhas, com o
telhado fechado em
biscoito Wafer e sorvete de flocos. As
janelas eram rosquinhas redondas, com cobertura de morango.
A curiosidade estava gritando e João
quis entrar na casa rápido, porém, Maria o puxou pelo braço e achou aquilo
estranho.
Tentou consultar o local pelo Foursquare pra saber mais detalhes e verificar suas avaliações, mas lembrou que estava sem sinal.
Então ligou para a Prefeitura para
saber se aquela casa estava regularizada, se constava no sistema e se possuía
alvará de funcionamento.
Somente na hora que confirmou a
irregularidade da construção e conseguiu chamar a Vigilância Sanitária para
verificar a validade dos doces, Maria percebeu que João já estava lá dentro.
Então, correu para dentro da casa e achou João
deitado no chão desmaiado.
- João, você está bem?
- Annnnn...
- O que está sentindo?
- Dor na barriga... dor de cabeça...
enjoo....
- Peraí.
Então Maria lembrou de uma vez que
acessou o Google pelo celular para consultar os sintomas para sua colega de
sala e descobriu que era apenas uma indigestão.
E lembrou-se também que um chá de boldo
faria bem e poderia amenizar os sintomas e foi procurar as folhas nos
arredores.
Acessou o arquivo do Whatsapp e achou a
foto da folha da erva baixada à época. Então, com o celular na mão, Maria
precisou verificar mais de vinte folhas, e quando conseguiu achar, meia hora
depois, entrou na casa e foi direto pra cozinha para colocar água no fogo e
fazer o chá.
No momento em que fazia a infusão do
chá, se assustou com um barulho e viu que a porta se abriu.
- Quem é você e o que faz na minha
casa?
- Meu nome é Maria e estou aqui fazendo
um chá para meu irmão que se adoeceu, desculpe senhora.
- Sem problema, filha. Pode continuar
fazendo o chá, vou olhar seu irmão.
Maria agradeceu e continuou a fazer o
chá. Mas quando chegou a sala da casa, viu que seu irmão não estava mais ali.
Imediatamente, Maria retirou seu
celular e ligou pra Polícia.
Só que Maria se surpreendeu novamente,
quando percebeu que a senhora simpática se tratava, na verdade, de uma bruxa
velha. A única saída foi se esconder na cozinha, enquanto observava a senhora
revirando a sala atrás dela.
Quando a polícia chegou, Maria correu e
denunciou a senhora pros guardas.
Novamente, foi surpreendida. A PM
chegou através de uma ligação da própria senhora que alegava que invasão de
domicílio dos dois jovens.
A PM então revistou a menina e
encontrou as ervas que Maria usava para o chá, acusando-a de uso de drogas,
prática de curandeirismo e maus tratos com o irmão.
Maria tentou virar o jogo, alegando que
a bruxa mantinha os dois em cárcere privado, mas a PM não acreditou.
Um dos policiais chegou a estranhar o
fato de haver uma criança deitada na cama da senhora e suspeitar de pedofilia,
mas não adiantou.
Maria foi presa e encaminhada para
reabilitação em casa de menores infratores.
A velha senhora respondeu um processo
administrativo junto a prefeitura por estar com a casa em situação irregular e
por não ter autorização ambiental para manter aquelas ervas no quintal, mas não
teve maiores problemas.
E João foi levado para o hospital. Ele
não sabia, mas era alérgico com castanhas, e como não tinha plano de saúde, não
recebeu atendimento a tempo no SUS e após um choque anafilático, morreu.
Pena que a imprensa não noticiou nada,
afinal, infelizmente, foi apenas mais um caso no país de “crime” cometido por
menores e de morte em hospital por falta de atendimento.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha
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