segunda-feira, 24 de junho de 2013

Rockstar

O cansaço era evidente, mas ainda restavam alguns minutos de show.

Já havia cantado por uma hora e meia, entre músicas suas e covers, e o corpo dava sinais de que não iria aguentar...

Pelo menos, agora, poderia sentar.

Ainda sob os aplausos, sentou-se em um banquinho para tocar sua homenagem favorita, em versão acústica.

“Something in the way she moves…”

As luzes estavam apenas sobre ele. Não importava o cansaço. Era a hora de tocar pensando nela e apenas sussurava ao microfone.

“Attracts me like no other lover. Something in the way she woos me..”

Isqueiros e celulares iluminavam a platéia que cantava como se fosse um coral. O público cantava junto, mas ele não se importava com isso. Aliás, nem percebeu isso. Apenas cantava...

I don't want to leave her now, You know I believe and how…”

A cada acorde no violão, o tempo parava. Sentia cada nota, cada acorde...

“Somewhere in her smile she knows, that I don’t need no other lover… Something in her style that shows me”

O tempo parecia parar e, cada vez mais, o público cantava mais forte.

“I don’t want to leave her now, you know I believe and how...”

Se o corpo doía, era hora da adrenalina dominar. O arrepio não era apenas físico, tocava a alma. Sentia aquele frio na espinha...

E então levantou-se do banco, violão em punho, para o clímax da música. O momento em que a plateia sempre se emociona junto com ele...

“You’re asking me will my love grow.. I don’t know, I don’t know… 
You stick around now it may show… I don’t know, I don’t know…”

E então, no ultimo verso, desafinou.

Desafinou tão grotescamente, tão grosseiramente que se assustou.

E então abriu os olhos.

Na verdade não foi ele que desafinou e sim os batidos na porta do banheiro que sua irmã deu que o tirou da afinação, e sua carreira de Rockstar chegou ao fim.

- Pelo amor de Deus né? Sai desse banho logo que eu tenho que encontrar o Paulinho.

- Já vou.

Enxugou-se e saiu do banheiro com o rosto molhado, pensando nas exigências de “cem toalhas de rosto brancas” que faria se chegasse o estrelato, mas não sem antes escutar “que merda” da irmã enquanto entrava no quarto.

Infelizmente, sua turnê do banho daquele dia chegou ao fim.


E sem pedido de “mais um, mais um”.




Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

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