O cansaço era evidente, mas ainda restavam alguns minutos de show.
Já havia cantado por uma hora e meia, entre músicas suas e covers, e o corpo dava sinais de que não
iria aguentar...
Pelo menos, agora, poderia sentar.
Ainda sob os aplausos, sentou-se em um banquinho para tocar sua
homenagem favorita, em versão acústica.
“Something in the way
she moves…”
As luzes estavam
apenas sobre ele. Não importava o cansaço. Era a hora de tocar pensando nela e
apenas sussurava ao microfone.
“Attracts me like no other lover. Something in
the way she woos me..”
Isqueiros e celulares iluminavam a platéia que cantava
como se fosse um coral. O público
cantava junto, mas ele não se importava com isso. Aliás, nem percebeu
isso. Apenas cantava...
“I don't want to leave her now, You know I believe and how…”
A cada acorde no violão, o tempo parava. Sentia cada nota,
cada acorde...
“Somewhere in her
smile she knows, that I don’t need no other lover… Something in her style that
shows me”
O tempo parecia parar e, cada vez mais, o público
cantava mais forte.
“I don’t want to leave her now, you know I believe and
how...”
Se o corpo doía, era hora da adrenalina dominar. O
arrepio não era apenas físico, tocava a alma. Sentia aquele frio na espinha...
E então levantou-se do banco, violão em punho, para o
clímax da música. O momento em que a plateia sempre se emociona junto com
ele...
“You’re asking me will my love grow.. I don’t know, I
don’t know…
You stick around now it may show… I don’t know, I don’t know…”
E então, no ultimo verso, desafinou.
Desafinou tão grotescamente, tão grosseiramente que se
assustou.
E então abriu os olhos.
Na verdade não foi ele que desafinou e sim os batidos
na porta do banheiro que sua irmã deu que o tirou da afinação, e sua carreira
de Rockstar chegou ao fim.
- Pelo amor de Deus né? Sai desse banho logo que eu
tenho que encontrar o Paulinho.
- Já vou.
Enxugou-se e saiu do banheiro com o rosto molhado,
pensando nas exigências de “cem toalhas de rosto brancas” que faria se chegasse
o estrelato, mas não sem antes escutar “que
merda” da irmã enquanto entrava no quarto.
Infelizmente, sua turnê do banho daquele dia chegou
ao fim.
E sem pedido de “mais um, mais um”.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha
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