segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Difícil Missão


Como um Brasileiro nato, Jorginho tem um time do coração. Sim, ele é fanático, daqueles torcedores que vai a todo canto acompanhando os jogos do clube.

Numa dessas andanças, aproveitou uma folga do serviço para enfrentar uma aventura e tanto e ver o Glorioso na Argentina. Você deve estar se perguntando “Por que aventura? Deve ter sido uma viagem qualquer”. Não, não foi. Até porque não foi de avião, na qual seria possível chegar cheiroso e indo direto para hotel e dormir confortavelmente. A viagem foi de ônibus, na raça. Foram 52 horas na ida e 62 horas na volta, devido a problemas no caminho, problemas no ônibus que estragou várias vezes, erros grotescos do motorista, paradas demoradas, enfim, vários momentos que se quisesse contar, daria um livro.

- Estamos parando? – perguntou para um amigo sentado ao lado.

- Estamos... De novo, acho que não chegaremos a tempo...

Todos desceram. Estavam em Coritiba já e todos naquela ansiedade para chegar à terra dos “hermanos”.

- Pessoal, vamos até o centro da cidade para arrumar um problema no ônibus. Daqui umas duas horas, mais ou menos, voltaremos para pegá-los.

Ninguém questionou e os olhares transmitiam revolta, mas ninguém queria ser o chato da viagem. Então, todos esperaram por seis horas.

- Olha! Até que enfim, esses chifrudos chegaram...

- Ótimo.

- Putz, não aguentava mais...

O ônibus estacionou, os motoristas saíram e explicaram que teriam que trocar de ônibus no Rio Grande do Sul para seguir viagem. Jorginho pensou, “poderia piorar?”. Ah se ele soubesse o que estava esperando...

Chegaram, então, numa cidadezinha para a troca dos ônibus. Eram 3 horas da manhã, todo mundo cansado, nervosos e com frio, estavam na casa dos 0°C. De repente, o que Jorginho tem mais receio nestas viagens aconteceu: a vontade de ir ao banheiro. E como ele iria dizer para um ônibus inteiro esperar para ele ir ali no posto cagar? Como ele poderia agir... Não tinha como pensar mais, foi no automatismo:

- Galera, segura a onda ai que preciso cagar...

Alguns riram, outros me zoavam, outros ficaram reclamando. Nem esperou a resposta, tinha certeza que não o deixariam ali, afinal de contas não é do feitio do torcedor deixar um irmão de guerra na mão. 

Foi caminhando com dificuldade, segurando com raça,quando apertava o passo deixava uma rastro no ar, complicando mais ainda a situação. Ele rezava, parecia uma eternidade para chegar até o caixa do posto para perguntar ainda se poderia usar o banheiro.

Quando chegou para perguntar, a sensação era como se fosse um forasteiro entrando em cidades de filme de “bang bang”: Ele entra no bar (aquelas famosas portas de abas que abre  tanto para fora quanto para dentro), o cara que estava secando o copo para te encarando (com o pano enfiado no mesmo), o cara que tocava piano também para, a turma que jogava poker esquece do jogo para ficar te observando...  

- Boa noite, será que eu poderia usar o banheiro?

O Senhor do caixa me respondeu seco e objetivo, com cara de mau.

- Segue em frente e vira à esquerda.

Jorginho foi tentando disfarçar o aperto que tava. Entrou no banheiro, a luz acendeu e ele logo pensou “ótimo, o cara foi receptivo...”. Entrou num Box apertado, forrou o vaso sanitário com papel higiênico, normal e pá.... “regassou”... Alívio, melhor coisa que tem, “obrigado, Deus...”.  

E ele lá, acabando a missão, e de repente a luz apaga. Puta que pariu! “O cara tá me trancando”..

- Ei! Moço!!! To aqui, não me tranca!

No automatismo saiu do Box para tentar algo, tudo escuro, como que ele iria fazer? Logo veio à cabeça aqueles filmes de serial killer, “Vou morrer, chegou meu fim...” 

Num pulo desesperado saiu e, adivinhem... a luz acende! E então, percebeu a burrice e descobriu que tinha sensor de presença no banheiro.


A sensação de alivio retornou. Jorginho voltou para o ônibus sendo zoado e xingado ao mesmo tempo, mas com a sensação de dever cumprido.



Bruno Farnese. Relações Públicas, filho de Roberto e Kátia. Apreciador de carne e cerveja, odeia azeitona, perder no xadrez do avô ou na peteca da avó. Gosta de tentar escrever nas horas vagas. Reclamações e sugestões? Você pode segui-lo no Twitter @bfarnese ou no Facebook.

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