Era a festa mais aguardada da minha vida.
O terno foi providenciado bem antes, assim como a camisa e a gravata. Minha irmã me ajudou a escolher a roupa. Afinal, uma festa de 15 anos não acontecia todo dia.
Era o aniversário da menina que eu estava a fim havia um tempo. Não sabia se aquilo que eu sentia era correspondido, e me matava de raiva não saber se ela estava me querendo ou se ela só era gente boa assim mesmo.
Uma semana antes da festa, eu soube de algo que me fez tremer: estavam faltando três rapazes para totalizar os 15 homens necessários para a famosa valsa dos 15 anos. Eu fui convocado para completar o plantel dos dançarinos.
Esse cara tinha 2 vezes mais pelo que eu (Imagem: jefffsbeardboard.yuku.com)
Com tudo isso na cabeça, eu estava ali, em frente ao espelho do banheiro, com 14 anos de idade e uma penugem rala acima da minha boca, além de outros oito fios finos que se espalhavam pelo meu rosto.
Meu pai não estava em casa, então, tinha que me virar sozinho.
Era hora de virar um homem.
Como um guerreiro destemido, abri o armário do banheiro, peguei um tubo que parecia uma pasta de dente e coloquei o creme que saiu na palma na mão. Naquela época, meu pai havia ganhado de um tio um pacote com uns oito aparelhos de barbear que eu sabia que eram baratos. Eu sustentava uma cara de mau quando molhei o aparelho e, com ele, retirei a espuma do rosto. No momento em que fui retirar a penugem preta que ficava sobre a minha boca, bem no finalzinho, cortei. Nada muito fundo, mas me deixou com uma leve sensação de fracasso. Meu pai chegou e viu que eu estava com um pequeno corte. "O que isso, menino?", perguntou. Em seguida, disse: "“Olha, da próxima vez, me chama ou me espera chegar. Tem que tomar cuidado! Agora se alguém te perguntar, fala que, sei lá, você brigou."
Durante a festa, não pude dançar com a minha amada. Ela teve de dar atenção a uns primos que apareceram do nada. Quase no fim de tudo, uma menina da minha sala sentou-se ao meu lado. O papo ia fluindo bem. "Aqui, eu tava doida pra te perguntar. O que é isso perto da sua boca?". Respondi que não era nada, que havia cortado fazendo a barba. E quando ela se aproximou para ver, eu a beijei. E foi muito bom.
Eu sabia que, naquela noite, eu havia virado homem.
**Meu primeiro texto para internet. Publicado originalmente no PortalHomem (http://www.portalhomem.com.br/artigos/minha-primeira-barba)
Engraçado, a gente cresce, passa dos 15 aos 30 anos e essa insegurança de saber se a pessoa que a gente tá afim "dá condição" ou não, não muda. Muitas vezes o que a gente procura é uma aventura, aquela que faça nossas pernas tremerem e a barriga esfriar. É viver aquela "irresponsabilidade" de adolescente sem medo de qualquer consequencia. E na viagem/festa que vc menos espera ela aparece e te beija por causa de um corte.
ResponderExcluirA vida é assim né? Sempre somos surpreendidos... às vezes, quando caminhamos para escolhas erradas, a vida nos faz uma surpresa e acabamos acertando.
ResponderExcluirSaudade dessa época!
E obrigado por acompanhar o blog!!