sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Anos Incríveis

Poucas vezes uma série de TV me fez tão bem.

Em conversa recente com alguns amigos, todos falavam sobre as séries de TV que estavam assistindo. Alguns falavam sobre séries de humor na Warner, outros falavam sobre as séries de drama que passam na Universal, e dois falavam sobre os CSI’s da vida. Até que alguém que me questionou qual acompanhava e respondi:

- Anos Incríveis.

- Do Kevin Arnold? Kkkkkkkkk

- Não entendi a graça.

- Isso é muito velho. Onde tá vendo isso? Na Rede Minas? Kkkkkkkk

- Não, to baixando no Youtube. Depois converto e guardo no HD externo. Vou mostrar essa série para meus filhos um dia.

E aí formou-se um silencio. Ninguém entendia o motivo de estar assistindo aquela série tão antiga. Porém, fiz uma rápida explicação (quem me conhece sabe que falo pouco, rsrs) e voltamos a beber e falar de assuntos de bar, como futebol e mulher. Mas cheguei em casa e continuei a pensar na importância desta série de TV.

Para quem não sabe (ou não se lembra), “Anos Incríveis” é uma série de TV, transmitida no Brasil no começo da década de 90, e que tem como tema a vida de um adolescente americano chamado Kevin Arnold, retratando o período escolar do ginásio ao colegial no fim dos anos 60 e começo da década de 70. São 115 episódios divididos em 6 temporadas.


Essa é a turminha da pesada que aprontava altas confusões na série.
Assisti ao seriado quando passou na TV Cultura há mil anos. Obviamente, devido a pouca idade, quando passou a primeira vez, não acompanhava religiosamente, mas assistia quando lembrava ou quando mudava os canais e via que estava passando. Depois assisti alguns episódios quando foi reprisada em 2000-2001. Mas tinha me esquecido dessa série, até no começo deste ano, quando vi alguém falando sobre ela em algum blog que me esqueci.

Joguei as informações no Google para ver se descobria um torrent para baixar a série e num dos primeiros sites que vejo, aparece uma frase que ele usa no episódio final.


"Crescer acontece em um batimento cardíaco. Um dia você usa fraldas, no outro dia você se foi. Mas as memórias da infância permanecem com você durante este longo intervalo. Eu me lembro de um lugar, de uma cidade, de uma casa igual a muitas outras casas, de um quintal igual a muitos outros quintais, de uma rua igual a muitas outras ruas. E, mesmo após todos estes anos, eu ainda olho para trás, com admiração. Foram realmente Anos Incríveis.
(Kevin Arnold, Anos Incríveis)

O que mais me fascina quando vejo os episódios, é a atemporalidade dos acontecimentos importantes na infância e na adolescência, independentemente da geração (pelo menos até a minha). É até curioso que em um dos episódios, Kevin se imagina velho, num enterro de um amigo e na lápide do falecido a data de morte era no ano 2011, 50 anos a frente do ano em que ele se encontrava.

E contei isso tudo para dizer o quanto esta série está me fazendo bem. Acho que seja devido as lembranças da minha época de colégio, tanto no ginásio (ensino fundamental) quanto no Colegial (ensino médio). E comecei a rir sozinho das recordações.

Em “Anos Incríveis”, Kevin tem um melhor amigo chamado Paul que estudava no mesmo colégio e que sempre o acompanhou, apesar de algumas brigas. Além dele, sua paixão da infância chama-se Winnie Cooper, que era sua vizinha-colega-de-sala-amor-correspondido e seu primeiro pé-na-bunda. Mas voltaram depois. E separaram. E fizeram juras de amor. E voltaram. Mas se separaram...

Aí lembro de pessoas assim na minha vida. Do meu amigo da época de colégio que até hoje é meu amigo. Aquele que agüentou todas as fases da minha vida até onde estou. Fases de frustrações, alegrias, paixões, bebedeiras. O cara que me apoiou quando precisei e que me criticou quando foi preciso. E que eu critiquei quando precisou, e que apoiei quando era necessário. Uma amizade de mais de 20 anos que enfrentou as mesmas coisas retratadas na série.

Depois recordei-me da paixão da minha infância-adolescência. Quantas vezes sofri por ela. E briguei com ela. Me declarei para ela, porém depois paramos de conversar. E então voltei a falar com ela. Lembrei também de quando nos beijamos. E quando nos separamos. Tudo exatamente como retratado na série.

Assim me lembro desta fase na vida, como o “próprio” Kevin. A série é narrada por ele, mais velho, que nunca aparece. Não sabemos como ele se tornou fisicamente, mas percebemos pelas suas falas o quanto aprendeu. Eu, quando conto de algumas coisas dessa faixa etária dos 13-18 anos, como sobre a primeira barba que fiz na vida, penso em como ter passado por estas situações me fez bem.

Como foi bom passar pelos medos. Medo de a professora fazer prova oral. Medo de falar na frente de todos. Medo de ir mal na prova. Medo de ser reprovado. Medo de quando o diretor te chama. Medo de apanhar. Medo de machucar. Medo do ano seguinte.

Mas também foi importante passar pelas vitórias. A vitória do primeiro dez. De se sair bem na prova oral. De ganhar o campeonato na escola. De enfrentar o menino mais velho. De beijar aquela menina. De ter passado de ano tranqüilo.

Tudo isso, medos e vitórias, são retratadas nesta série de TV.

Ainda não cheguei ao ponto nostálgico de pegar fotos antigas e ficar revendo, ou buscando cadernos para ver anotações antigas. Mas todas as vezes que estou no ônibus e vejo entrando 5 ou 6 pessoas com uniforme de alguma escola, sinto saudade dessa época. E tenho vontade de falar pra eles aproveitarem bem. Não terem medo. De aproveitarem. Mas aí não teria graça. Todos têm que passar por isso.

Eu não era popular, era um fracasso no vôlei e peteca. Não tinha o nome guardado por muitos professores e nem fui destaque em matéria nenhuma. O diretor não sabia meu nome. E não era aluno nota 10. Talvez um nota 7. Mas sei que vivi da forma mais sincera possível.

Eu corria para comprar ficha do lanche, quando tinha dinheiro pra isso. E depois para as intermináveis filas para entregar a ficha e conseguir minha coxinha e minha coca. Eu trocava figurinhas e jogava tapão para completar o álbum (E cuspia na mão para ter vantagem). Fingia contusões para o professor de Educação Física para ficar jogando xadrez com meu amigo mencionado parágrafos acima. Matei aula. Briguei em jogos na escola. Mas também levava bombons para as mulheres no dia internacional delas e para as professoras no dia delas (além do Dia Internacional das Mulheres). Participei de peças de teatros. Recolhi dinheiro para ajudar pessoas carentes. Fui membro do Grêmio Estudantil. E passei algumas tardes na sala do diretor por mau comportamento. Apanhei de meninos maiores que eu. E bati em alguns menores. Peguei no pé das meninas mais gordas, mas sofri muita gozação por ter problemas de espinhas e por ser magro demais (E hoje sofro gozação por ser gordo). Beijei algumas meninas. Outras muitas não me quiseram. Fiz juras de amizades eternas.

Enfim, eu não sei se alguém do colégio lembra que eu passei por lá. Mas todos que lá estudaram se lembram do que passamos lá. Coisas boas, coisas ruins. Infelizmente, não tenho notícias de 98% das pessoas que lá estiveram dividindo isso. E até isso é retratado em “Anos Incríveis”.

Além da fase escolar, a série retrata outros “incômodos” da adolescência, como enterros, brigas com familiares, discordância com leis, o primeiro show de rock, o primeiro cachorro e por aí vai. Resumindo, retrata muito bem o que todos passamos nesta fase em que muitas vezes acertamos quando fazemos as coisas erradas e erramos quando fizemos a coisa certa. Tudo é aprendizado.

Lógico que gosto de “CSI”, acompanhei “House”, vi alguns episódios de “Game Of Trones” e ri muito com “Friends” e “Two and a Half Man”. Mas se encaixar em um momento da vida, como “Anos Incríveis” se encaixou na infância e se encaixa neste momento de lembranças, acho difícil.


Crescer nunca é fácil. Você se segura naquilo que existia. Você tem esperança por aquilo que virá. Mas, naquela noite, acho que percebi que era hora de largar o que havia sido e olhar para o que poderia ser. Outros dias. Dias que virão. Na verdade, nós não temos que odiar uns aos outros por envelhecermos. Nós temos apenas que nos perdoarmos por crescermos.” 
(Kevin Arnold - Anos Incríveis)

PS: A trilha sonora é uma obra a parte. Músicas do Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, Chuckberry e outros, aumentam a qualidade dos episódios. Pena que o motivo pelo qual não temos boxes da série à venda é justamente este, os direitos autorais das músicas. Uma pena. A abertura com With a Little Help from My Friends" dos Beatles, é cantada com perfeição por Joe Cocker. É de arrepiar.


2 comentários:

  1. Nossa Bruno recordações para você e para eu tbm.
    É pena que no mundo de hoje, os programas que fazem efeito, que nos faz refletir, que serve como auto-ajuda, não existem mais. Hoje, o que se vê e que dá ibope é violência, traição, bumbuns de fora e apologia ao sexo...cultura inútil para que o povo continue cada vez mais ignorantes sem propositos e opiniões pertinentes para cobrar de um governante "qualquer". Abç!!!

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  2. Realmente... O texto é do Guilherme, mas realmente ele escreveu para todos aqueles q tiveram a oportunidade de ver séries como esta...

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