Poucas vezes uma série de
TV me fez tão bem.
Em conversa recente com alguns amigos, todos falavam sobre as séries de
TV que estavam assistindo. Alguns falavam sobre séries de humor na Warner,
outros falavam sobre as séries de drama que passam na Universal, e dois falavam sobre os
CSI’s da vida. Até que alguém que me questionou qual acompanhava e respondi:
- Anos Incríveis.
- Do Kevin Arnold? Kkkkkkkkk
- Não entendi a graça.
- Isso é muito velho. Onde tá vendo isso? Na Rede Minas? Kkkkkkkk
- Não, to baixando no Youtube. Depois converto e guardo no HD externo. Vou mostrar essa
série para meus filhos um dia.
E aí formou-se um silencio. Ninguém entendia o motivo de estar assistindo aquela série tão antiga. Porém, fiz uma rápida
explicação (quem me conhece sabe que falo pouco, rsrs) e voltamos a beber e falar de assuntos de bar, como
futebol e mulher. Mas cheguei em casa e continuei a pensar na importância desta
série de TV.
Para quem não sabe (ou não se lembra), “Anos Incríveis” é uma série de TV, transmitida no Brasil no começo da década de
90, e que tem como tema a vida de um adolescente americano chamado Kevin Arnold, retratando o período escolar do ginásio
ao colegial no fim dos anos 60 e começo da década de 70. São 115 episódios divididos em 6 temporadas.
Assisti ao seriado quando passou na TV Cultura há mil anos. Obviamente,
devido a pouca idade, quando passou a primeira vez, não acompanhava religiosamente, mas
assistia quando lembrava ou quando mudava os canais e via que estava passando. Depois assisti alguns episódios quando foi reprisada em 2000-2001. Mas tinha me esquecido dessa
série, até no começo deste ano, quando vi alguém falando sobre ela em algum blog que me esqueci.
![]() |
| Essa é a turminha da pesada que aprontava altas confusões na série. |
Joguei as informações no Google para ver se
descobria um torrent para baixar a série e num dos
primeiros sites que
vejo, aparece uma frase que ele usa no episódio final.
O que mais me fascina quando vejo os episódios, é a atemporalidade dos acontecimentos importantes na infância e na adolescência, independentemente da geração (pelo menos até a minha). É até curioso que em um dos episódios, Kevin se imagina velho, num enterro de um amigo e na lápide do falecido a data de morte era no ano 2011, 50 anos a frente do ano em que ele se encontrava.
"Crescer acontece em um batimento cardíaco. Um dia você usa fraldas, no
outro dia você se foi. Mas as memórias da infância permanecem com você durante
este longo intervalo. Eu me lembro de um lugar, de uma cidade, de uma casa igual a muitas
outras casas, de um quintal igual a muitos outros quintais, de uma rua igual a
muitas outras ruas. E, mesmo após todos estes anos, eu ainda olho para trás,
com admiração. Foram
realmente Anos Incríveis."
(Kevin Arnold, Anos Incríveis)
(Kevin Arnold, Anos Incríveis)
O que mais me fascina quando vejo os episódios, é a atemporalidade dos acontecimentos importantes na infância e na adolescência, independentemente da geração (pelo menos até a minha). É até curioso que em um dos episódios, Kevin se imagina velho, num enterro de um amigo e na lápide do falecido a data de morte era no ano 2011, 50 anos a frente do ano em que ele se encontrava.
E contei isso tudo para
dizer o quanto esta série está me fazendo bem. Acho que seja devido as lembranças
da minha época de
colégio, tanto no ginásio (ensino fundamental) quanto no
Colegial (ensino médio). E comecei a rir sozinho das recordações.
Em “Anos Incríveis”, Kevin
tem um melhor amigo chamado Paul que estudava no mesmo colégio e que sempre o
acompanhou, apesar de
algumas brigas. Além
dele, sua paixão da
infância chama-se Winnie Cooper, que era sua
vizinha-colega-de-sala-amor-correspondido e seu primeiro pé-na-bunda. Mas voltaram depois. E separaram. E fizeram juras de amor. E voltaram. Mas se separaram...
Aí lembro de pessoas assim na minha vida. Do meu amigo da
época de colégio que até hoje é meu amigo. Aquele que agüentou todas as fases
da minha vida até onde estou. Fases de frustrações, alegrias, paixões,
bebedeiras. O cara que me apoiou quando
precisei e que me criticou quando foi preciso. E que eu critiquei
quando precisou, e que apoiei quando era necessário. Uma amizade de mais de 20 anos que enfrentou as mesmas coisas retratadas na série.
Depois recordei-me da paixão da minha infância-adolescência. Quantas vezes sofri por ela. E briguei com ela.
Me declarei para ela, porém depois paramos de conversar.
E então voltei a falar com ela. Lembrei
também de quando nos
beijamos. E quando nos separamos. Tudo
exatamente como retratado na série.
Assim me lembro desta fase
na vida, como o “próprio” Kevin. A série é narrada por ele, mais
velho, que nunca aparece. Não sabemos como ele se tornou fisicamente, mas
percebemos pelas suas
falas o quanto
aprendeu. Eu, quando
conto de algumas coisas dessa faixa etária dos 13-18 anos, como sobre a primeira
barba que fiz na vida, penso em como ter passado por estas situações me fez bem.
Como foi bom passar pelos
medos. Medo de a
professora fazer prova oral. Medo de falar na frente de todos. Medo de ir mal na prova. Medo de
ser reprovado. Medo de quando o diretor te chama. Medo de apanhar. Medo de
machucar. Medo do ano seguinte.
Mas também foi importante passar pelas vitórias. A
vitória do primeiro dez. De se sair bem na prova oral. De ganhar o campeonato na escola. De
enfrentar o menino mais velho. De beijar aquela menina. De ter passado de ano
tranqüilo.
Tudo isso, medos e
vitórias, são retratadas nesta série de TV.
Ainda não cheguei ao ponto
nostálgico de pegar fotos antigas e ficar revendo, ou buscando cadernos para ver anotações antigas. Mas todas as vezes que
estou no ônibus e vejo entrando 5 ou 6 pessoas com uniforme de alguma escola,
sinto saudade dessa época. E tenho vontade de falar pra eles aproveitarem bem. Não terem
medo. De
aproveitarem. Mas aí
não teria graça. Todos têm que passar por isso.
Eu não era popular, era um fracasso no vôlei e peteca. Não tinha
o nome guardado por muitos professores e nem fui destaque em matéria nenhuma. O diretor não
sabia meu nome. E não era aluno nota 10. Talvez um nota 7. Mas sei que vivi da
forma mais sincera possível.
Eu corria para comprar
ficha do lanche, quando tinha dinheiro pra isso. E depois para as intermináveis
filas para entregar a ficha e conseguir minha coxinha e
minha coca. Eu trocava figurinhas e jogava tapão para completar o álbum (E
cuspia na mão para ter vantagem). Fingia
contusões para o professor de Educação Física para ficar jogando xadrez com meu amigo mencionado parágrafos acima. Matei aula. Briguei em jogos na escola. Mas também
levava bombons para as mulheres no dia internacional delas e para as
professoras no dia delas (além do Dia Internacional das Mulheres). Participei de peças de teatros. Recolhi dinheiro
para ajudar pessoas
carentes. Fui membro do Grêmio Estudantil. E passei algumas tardes na sala do
diretor por mau comportamento. Apanhei de meninos maiores que eu. E bati em
alguns menores. Peguei no pé das meninas mais gordas, mas sofri muita gozação
por ter problemas de
espinhas e por ser magro demais (E hoje sofro gozação por ser gordo). Beijei
algumas meninas. Outras muitas não me quiseram. Fiz juras de amizades eternas.
Enfim, eu não sei se alguém
do colégio lembra que eu passei por lá. Mas todos que lá estudaram se lembram do que passamos lá. Coisas
boas, coisas ruins. Infelizmente,
não tenho notícias de 98% das pessoas que lá estiveram dividindo isso. E até isso é retratado em “Anos Incríveis”.
Além da fase escolar, a série retrata outros “incômodos” da adolescência, como enterros, brigas com familiares, discordância com leis, o
primeiro show de rock, o primeiro cachorro e por aí vai. Resumindo, retrata
muito bem o que todos passamos nesta fase em que muitas vezes acertamos quando
fazemos as coisas erradas e erramos quando fizemos a coisa certa. Tudo é aprendizado.
Lógico que gosto de “CSI”,
acompanhei “House”, vi alguns episódios de “Game Of Trones” e ri muito com
“Friends” e “Two and
a Half Man”. Mas se encaixar em um momento da vida, como “Anos Incríveis” se encaixou na infância e se
encaixa neste momento
de lembranças, acho
difícil.
PS: A trilha sonora é uma obra a parte. Músicas do Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, Chuckberry e outros, aumentam a qualidade dos episódios. Pena que o motivo pelo qual não temos boxes da série à venda é justamente este, os direitos autorais das músicas. Uma pena. A abertura com “With a Little Help from My Friends" dos Beatles, é cantada com perfeição por Joe Cocker. É de arrepiar.
“Crescer nunca é fácil. Você se segura naquilo que existia. Você tem
esperança por aquilo que virá. Mas, naquela noite, acho que percebi que era
hora de largar o que havia sido e olhar para o que poderia ser. Outros dias. Dias que
virão. Na verdade, nós não temos que odiar uns aos outros por
envelhecermos. Nós temos apenas que nos perdoarmos
por crescermos.”
(Kevin Arnold - Anos Incríveis)
(Kevin Arnold - Anos Incríveis)
PS: A trilha sonora é uma obra a parte. Músicas do Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, Chuckberry e outros, aumentam a qualidade dos episódios. Pena que o motivo pelo qual não temos boxes da série à venda é justamente este, os direitos autorais das músicas. Uma pena. A abertura com “With a Little Help from My Friends" dos Beatles, é cantada com perfeição por Joe Cocker. É de arrepiar.

Nossa Bruno recordações para você e para eu tbm.
ResponderExcluirÉ pena que no mundo de hoje, os programas que fazem efeito, que nos faz refletir, que serve como auto-ajuda, não existem mais. Hoje, o que se vê e que dá ibope é violência, traição, bumbuns de fora e apologia ao sexo...cultura inútil para que o povo continue cada vez mais ignorantes sem propositos e opiniões pertinentes para cobrar de um governante "qualquer". Abç!!!
Realmente... O texto é do Guilherme, mas realmente ele escreveu para todos aqueles q tiveram a oportunidade de ver séries como esta...
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