sábado, 15 de setembro de 2012

O convite da festa


Era o convite mais importante que recebera naquele ano.

Festa na casa da Vanessa e a turma toda do 1º ano estaria lá. E havia rumores de que gente do 2º e até do 3º ano estariam lá também.

O problema era só um. Só entrava na festa quem levasse bebidas. E ele tinha 15 anos.

Nesta fase da vida, ele não ligava em não ter idade para dirigir ou ter idade pra votar, mas nada incomodava mais do que o fato de não conseguir comprar bebidas alcoólicas.

Era um desafio. Não era fácil comprar bebidas. E então buscou ajuda, procurando a pessoa que poderia ajudar. Aquela pessoa que nunca lhe abandonaria. Aquela pessoa que o Chuck Norris ligaria em caso de desespero. Seu irmão mais velho.

- Tá doido? Depois a mãe descobre isso e contra pro pai e sou eu que vou ouvir. Além disso, na sua idade, eu...

E aí parou de ouvir. Não ajudaria em nada e gastaria tempo desnecessário. Mudança de estratégia.

Ligou para o amigo e depois de longos 20 minutos no telefone, ambos chegaram à mesma conclusão: não tinha jeito. Em momentos de dificuldade, atitudes drásticas devem ser tomadas. E tinham que ter pulso para resolverem sozinhos.

O horário da festa estava quase chegando e eles não tinham muito tempo.

Encontraram em um supermercado, perto do local da festa, no horário combinado e traçaram a estratégia: Iriam se dividir. Ele pegaria as vodcas. O amigo esperaria no caixa, para não correr o risco de enfrentar uma fila gigante. Aí era pagar. E mentir se for caso.

Entraram no supermercado e se olharam. Desejaram boa sorte um ao outro pelo olhar e se separaram.

E lá foi ele pegar as duas garrafas. Setor de bebidas. Alvo localizado. Olhou para aos lados e não viu ninguém. Pegou as garrafas rapidamente e caminhou com passos largos para o caixa. De longe viu o amigo, também olhando para os lados e caminhando na fila.

Ele apertou o passo e foi o tempo de chegar até a fila e entregar as garrafas para o amigo que era o próximo. Agora tinha que dar a volta na fila, enquanto o amigo passaria pelo sufoco sozinho. Mas ele chegaria para ajudar. Tinha que chegar.

E foi aí que aconteceu.

Ele viu o amigo. No caixa. E estava com olhar de desespero.

A lâmpada vermelha do caixa acendeu. 

“Fudeu”, pensou.

Pensou em correr e fugir, mas não podia deixar o amigo ali. Era desumano.

Ao chegar, com olhar de desespero, perguntou o que estava ocorrendo, já pensando em como iria contar para seu pai advogado que estava preso. E como sua mãe iria reagir em ter um filho marginal. E como seu irmão iria fazer aquele olhar de “eu te disse”.

Antes de se imaginar com roupa de presidiário, foi interrompido pela voz da moça do caixa:

- Você está com ele?

Ele podia negar. Bastava pegar um saco de chips no corredor da fila e dizer que estava querendo apenas aqueles salgadinhos. Ou pegar um chiclete. Mas não iria abandonar o amigo. Poderia se arrepender depois, mas quis seguir em frente.

- Sim, estou com ele.

E se preparou para o fim.

- Ah tá. É porque eu tô com um problema aqui e se não estivesse com ele, iria dizer para esperar sua vez. E vai demorar.

“Agora fudeu mesmo. Ela falou que existia um problema e que iria demorar. Fomos pegos e iremos envelhecer na cadeia” pensou.

- Co-co-como assim, pro-pro-blema?

- O leitor não tá conseguindo ler o código de barras. Aí chamei minha colega e ela foi lá buscar outra. Tá tudo bem garoto? Você tá meio pálido, suando...

- To.... quer dizer, acho que to né.

E a moça sorriu. E ficou olhando para ele e para o amigo. E o amigo olhando pra ela e pra ele. E ele para os dois.

O tempo era cruel. Anos se passaram. Pelo menos essa era a sensação.

Do nada, a moça cortou o silêncio. E o coração deles.

- Vocês têm idade para comprar isso?

E eles pararam de respirar. Se olharam. Engoliram a seco. Mas uma onda de coragem tomou conta dele. E ele não iria desistir naquele momento. Era festa na casa da Wanessa. Teria gente do 3º ano lá.

- Temos.

- Que bom. Hoje em dia essa meninada começa a beber cedo. É meio perigoso né.

- Pois é.

E a colega da moça do caixa chegou. Com outras duas garrafas na mão. A moça do caixa passou as duas garrafas com sucesso pelo leitor.

- Deu 21,98.

E deram o dinheiro. Estavam perto do sucesso. Ele olhou para o amigo e ambos sorriram.

Colocaram as garrafas na sacola. Agora era só ir embora.

- Peraí, peraí, peraí.

A voz da moça do caixa os paralisou. Sentiram um frio na espinha. Medo.

- O troco.

E então suspiraram. O amigo pegou o troco, enfiou no bolso e foram embora.

A vontade deles eram ir correndo pra festa. Cumpriram a missão com louvor.

Ao chegar ao local da festa, vários outros rapazes os cumprimentaram. Alguns ficaram surpresos. Como garotos da 8ª série podiam carregar bebidas?

Ele então a viu no portão, recebendo os convidados. Wanessa estava linda.

- Que bom que você veio. E que bom que você trouxe o Guilherme. Como conseguiram comprar as vodcas?

Com um sorriso no rosto e peito estufado, ele suspirou.

- É uma longa história. Mais tarde te conto.

E ele contou. Não só pra ela. Não só aquele dia.

E eu conto agora.

2 comentários: