quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Sala de espera (Médicos - parte II)

Bem, voltemos ao médico do início da parte I.


Venho sentindo algumas dores na região lombar, abaixo das costelas. Lugar onde nas extremidades, camadas abaixo da minha gordura acumulada, fica os rins. É uma dor aguda, chata e que eu fingia que não sentia. Mas doía. E muito.

Como vocês já sabem (parte I), odeio clínicos gerais. Eu até poderia ir ao hospital, passar pelo martírio de ser atendido pelas secretárias com ênfase em medicina, conseguir meu encaminhamento e ser atendido por um especialista, no caso, um nefrologista.

Mas pensando em minha saúde como um todo, resolvi marcar uma consulta direta com o tal especialista. Marquei para 17:00, pois poderia sair mais cedo do serviço e, mesmo com o atraso já esperado dos médicos, possivelmente estaria liberado antes das 18:00, o que me permitiria pegar um transito menos caótico e que chegaria em casa antes de acabar o Jornal Nacional, além de aumentar minha expectativa de vida em 06 meses.

Cheguei ao médico com 15 minutos de antecedência, como solicitado pela secretária.

- Boa tarde Sr. Guilherme.

- Boa tarde.

Não me diga que vai atrasar. Não me diga que vai atrasar...

- Olha, o Dr. tá um pouquinho atrasado. Mas vou pegando seus dados. Pode me dar a carteirinha do plano?

- Esse pouquinho é quanto tempo?

- Falta atender essas pessoas.

Nesse momento, eu já não gostei do uso do plural da palavra “pessoa”. E piorou quando olhei ao redor e vi 06 pessoas sentadas.

- Todas elas?

- Sim, mas não se preocupe. Tem pessoas que apenas estão acompanhando.

- Ok.

E sentei. Sabendo que ia mofar.

Detesto essas salas de espera. Em 2012, vejo revistas com foto da Xuxa com o Senna, em Angra dos Reis, falando da expectativa do Réveillon de 1989-1990. Era melhor mexer no celular. Entrei no twitter. Nos meus emails. Na globo.com. Até no IG eu entrei. E quando olhei no relógio, só haviam passados 10 minutos.

E então o médico chamou o Sr. Beltrano, que levantou junto com a Sra. Beltrana, e foram para o consultório. Sobravam apenas 4 pessoas, além de mim, o que me fazia deduzir que eram dois casais.

No momento em que tive a atenção tomada pela convocação do médico, passei a reparar o consultório. E então reparei no casal a minha frente.

O Sr. Ciclano aparentava ter entre 40-45 anos. Era um pouco gordo (como eu), usava uma barba aparada, e já possuía cabelos brancos e alguns fios na barba. Usava um terno bem cortado e sapatos bem engraxados. Estava sentado bem encostado ao fundo do sofá, com as pernas cruzadas e folheava uma revista. Ao lado, estava a Sra. Ciclano.

A moça aparentava ter entre 25-30 anos, era loira, alta e bonita. E usava um vestido vermelho, com um decote considerável, e usava um sapato vermelho, com salto. Porém, ela estava esparramada no sofá e sentava com as pernas abertas. E olhando para um celular.

Olhei para a ela, olhei para as pernas, olhei para o cara que olhava para a revista. Olhei para o celular. Olhei para o relógio. Olhei para a secretária. Olhei para o outro casal, mas não resisti e olhei pra ela de novo. Para as pernas. E para o cara, que olhava a revista.

Que situação desagradável. A natureza masculina me fazia olhar pra ela e para as pernas. Mas a razão me fazia desviar o olhar e aguardar minha consulta.

Resolvi então levantar e beber água. E saí do consultório para aguardar no corredor. E então escutei o médico chamar alguém. Entrei na sala para ver, mas era o outro casal que foram atendidos. O casal Ciclano ainda aguardava.

Ele com as revistas, ela com o celular e as pernas abertas.

Olhei para o relógio e vi que eram 17:30. Minha esperança de chegar em casa antes do Jornal Nacional se esvaia, junto com minha expectativa de vida. 

Sei que ouvi o médico chamando alguém e vi o casal Ciclano entrar ao consultório. Pronto, podia sentar no sofá de novo. Olhei para o relógio e eram 18:10. 

Mas eu já tava muito estressado. Eram 18:15 e nada de me chamar. Fiquei mais 25 minutos balançando as pernas freneticamente. E aí a secretaria cometeu o erro de tentar puxar conversa.

- Sr. Guilherme, me desculpe viu? Hoje ele ta meio atrasado?

- Meio atrasado? 1 hora e meia de espera e meio atrasado?

- Mas é que ele teve que fazer um atendimento urgente na hora do almoço e atrasou.

- Dane-se. É uma falta de respeito do mesmo jeito.

E um anjinho e um capetinha apareceram. O anjinho sentado no meu ombro esquerdo, sussurando no meu ouvido.

- Calma! A paciência é um dom divino.

O capetinha em pé, encostado no tridente que tinha fincado no meu ombro direito, lixava uma das unhas, apenas falava:

- Eu já tinha quebrado tudo nesta merda. Já estava tudo pegando fogo e o médico ardia queimado...

- É complicado Sr. Guilherme, eu sei. Mas acho que não vai demorar.

- Tomara que não.

E o capetinha me alertava:

- Ela ta mentindo, cara. Olha pra cara dela.

E o anjinho tentava me fazer não dar ouvidos.

- Ela não tem nada a ver com isso. E às vezes o caso do Sr. Ciclano é importante.

E aí aconteceu.

Ouvi risadas altas do médico e a seguinte frase saindo do consultório: "Olha essa foto aqui lá da praia de Cancún. Teve um dia que..."

O capetinha parou de lixar a unha. E começou a gritar no meu ouvido, enquanto imobilizava o anjinho:

- Eu avisei. Taca fogo. Taca fogo. E já segurei esse coxinha aqui.

Mas nem precisava mais.

- AGORA CHEGA NÉ! TÁ DE BRINCADEIRA COMIGO!

- Olha Sr. Guilherme, eu acho que ele já ta acabando...

- NÃO QUERO SABER DESSE FDP MAIS! 1 HORA E 45 MINUTOS PARA ELE MOSTRAR FOTOS DE VIAGEM! EU QUERO QUE ELE PEGUE ESSAS FOTOS E PÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ. E VAI PRA PÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ.

O médico então abre a porta do consultório, com ar de Xerife desses westerns que passam no TCM.

- O que ta acontecendo aqui?

O capetinha, após deixar o anjinho amarrado e com uma faixa na boca, resolveu tocar tambores dentro de mim. Eu tremia de raiva. E já passava uma tinta, no rosto, se preparando pra guerra. E ouvia AC/DC em seus fones de ouvido.

- O QUE TÁ ACONTECENDO AQUI, SEU PÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍI´? MINHA CONSULTA TAVA MARCADA PARA 17 HORAS! 5 HORAS DA TARDE, SEU MERDA! E FALTAM 10 MINUTOS PRA SETE HORAS! 1 HORA E CINQUENTA MINUTOS DE ESPERA. VOCE QUER ME PÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍIÍ, SEU PÍÍÍÍÍÍÍÍÍIÍÍÍÍ.

A secretária estava assustada. O casal Ciclano estava assustado. E o médico, também se assustou.

- Olha, eu te atendo agora. Não precisa de escândalo.

- ME ATENDER AGORA? TÁ DE BRINCADEIRA NÉ? EU JÁ TAVA INDO EMBORA. SÓ QUERO QUE ELA (apontei pra secretária) RASGUE A FICHA DO CONVÊNIO PORQUE NÃO QUERO PAGAR POR ESTA PÍÍÍÍÍÍÍÍIÍÍÍÍÍÍ.

- Calma senhor. Eu te atendo amanhã de manhã, pode ser? No primeiro horário.

- EU QUERO QUE AMANHÃ DE MANHÃ VOCE VAI PRA PÍÍÍÍÍÍÍÍIÍÍÍÍÍÍÍ. SEU PÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ. RASGA ESTA PÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍI LOGO!

E a secretária nem quis esperar atitude do médico. Ela mesmo rasgou, me devolveu a carteira do convênio. Tremendo.

Saí pela porta a fim de matar alguém. Desci de escada e fui pro carro. No transito, não conseguia concentrar. Até reparar que a dor tinha passado. Milagrosamente. E tive duas certezas:

A) Tinha que começar a marcar consultas na parte da manhã.

B) Qualquer médico é melhor que um clínico geral.

E cheguei em a tempo de assistir Jornal da Globo. E com menos 06 meses de vida...

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