segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Noé 2.0

- Alô?

- Wanderley?

- Sim, é ele. Quem é?

- Oi Wanderley, aqui é Deus. Tudo bom né...

- Como assim Deus?

- Ué, Deus.

- Duvido.

- Olha, outro São Tomé não né? Vou falar rápido porque seu celular é TIM e já fiz milagre de fazer ele funcionar. Manter por muito tempo já é demais né...

- E porque você tá me ligando? Por que simplesmente não apareceu na minha frente? Ou falou sem precisar do telefone?

- Porque senão você não ia acreditar...

- Ah ta. E vou acreditar que é você que ta falando comigo?

- Ta vendo o seu peixinho boiando na água?

- Meu Deus! Você matou meu peixe?

- Sim, seu Deus. E matei. Mas olha, tá vivo agora não tá?

- Tá, obrigado Senhor.

- De nada. Mas é o seguinte. Tenho um trabalho pra você.

- Claro Senhor, o que quer?

- Bom, é o seguinte. Vai ter um novo dilúvio. Preciso que construa uma arca e pegue um casal de todos os bichos.

- Ah tá. Igual Noé?

- Isso. Que bom que já sabe como funciona...

- Um casal de cada bicho?

- Sim, que bom que entendeu.

- Igual Noé?

- Sim cacete! E você tem 40 dias também.

- Senhor, uma dúvida.

- Fala rápido que to precisando ligar pra outra pessoa.

- Todos os bichos mesmo? Não posso deixar um casal de pernilongo fora? E um dos mosquitos da dengue também? Afinal, pernilongo é chato pra cacete e com o dilúvio, vai ter água parada e isso vai ajudar os mosquitos da dengue a se reproduzirem e na nova humanidade...

- Não. Preciso de um casal de cada um deles. E quanto a dengue, faz parte do projeto. 40 dias hein.

- Senhor, mais uma dúvida.

- Que é?

- Como vou fazer para achar um casal de ornitorrinco?

- Joga no Google.

- E como vou trazer um casal de ursos polares?

- Google.

- E os animais já extintos?

- Esses não preciso.

- Como vou fazer para colocar um leão e um cervo na mesma barca? O leão vai comê-lo...

- Coloque o leão e prenda. Depois coloque o cervo em outra cela.

- Meio complicado né?

- Olha só, se não quiser o serviço, não precisa. Eu chamo outra pessoa e você morre afogado.  Que tal?

- Tudo bem. Eu aceito o serviço.

- Ótimo. Então eu vou in...

- Mas com uma condição.

- Qual?

- O Senhor vai matar minha sogra agora para eu ter sossego para construir a arca.

- Wanderley, não tenho tempo pra isso. Tem mais de 2 milhões de orações no meu email para ver. Além do mais, sua sogra vai morrer mesmo afogada. Só se você quiser salvá-la... Faz assim, mande sua esposa e seus filhos para casa dela, assim você vai ter mais tempo.

- Mas Senhor, tá chegando os jogos finais do campeonato brasileiro... E meu time tá bem...

- Esse campeonato ta comprado já e nem eu posso fazer nada. Deixa eu ir então...

- Ok Senhor.

- Boa sorte Wanderley.


E Wanderley tentou construir a arca. Porém, assim que comprou a madeira, um agente da Polícia Federal o acusou de tráfico de madeira e queria prendê-lo de todas as formas. Foi preciso subornar o agente para tentar concluir o trabalho em paz.

Depois, durante a construção, teve suas ferramentas roubadas e, após comprar novas, foi notificado por um agente da Prefeitura pelo mesmo não ter alvará de construção e edificação. Além de não respeitar as leis de uso e ocupação do Solo e não ter licença ambiental.  

E enquanto tentava resolver isso, foi preso por tráfico de animal silvestre, quando recebeu um casal de pingüins. Ele até tentou um Habeas Corpus, mas como o caso do Mensalão ainda estava em julgamento, não foi atendido pelo STF. Tentou ligar pra Deus, mas seu telefone não registrou o número da chamada recebida. Nem adiantaria rezar, pois sabia que o email do Senhor estava cheio.

Faltando cinco dias para vencer o prazo, foi liberado após pagar fiança arbitrada em cem mil reais. Mas a arca havia sido apreendida pelas autoridades e estava em um pátio de veículos abandonados aguardando por um leilão.

E depois de ser ridicularizado em rede nacional pelo Faustão, Gugu e Eliana, ele se suicidou para fugir dos processos ambientais que estava respondendo.

Chegando ao céu descobriu Deus ainda havia tentado falar com ele, mas como o celular era da TIM, estava sem sinal. 

E no dia 21/12/12 o dilúvio chegou e a humanidade se foi. Um alerta de tempestade até chegou a tocar, mas as autoridades e a imprensa acharam que era mais uma daquelas fortes chuvas de fim de ano. 

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