quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Deus é testemunha


Domingo.

8 horas da manhã.

Campainha toca.

Finjo não ouvir e viro pro lado.

Campainha toca.

Continuo fingindo não ouvir.

E toca de novo. Não tem jeito.

- Oi. (Saí da cama e atendi à porta, de pijamas, e sem tirar as remelas.)

- Bom dia.

Não abri os olhos ainda. Nem vi quem era..

- Só se for pra você, o que você quer?

- Posso ler a Bíblia pra você?

- Não, obrigado. Eu sou alfabetizado. Bom dia.

E fechei a porta.

Mas a campainha tocou de novo.

- Desculpe senhor, mas sinto que preciso transmitir a palavra de Deus para você. Somos testemunhas de Jeová e...

- Não, obrigado.

E fechei a porta de novo.

Mas a campainha tocou de novo.

- Desculpe a insistência senhor, mas posso deixar apenas uma revista com o senhor? É de graça.

- Não, meu cachorro já tem jornal o suficiente.

- Não entendi.

- Nada, esquece.

- Tudo bem. Escute, posso ler um trecho da Bíblia pro senhor? Todo mundo precisa de orações, acho que seria bom para sua alma....

- Cara, você quer rezar agora?

- Não rezo senhor, eu oro.

- Tudo bem. Você quer orar agora? De madrugada? Tenho certeza de que Deus está dormindo...

- Deus nunca dorme senhor.

- Tá, mas eu durmo e estou com muito sono. E não com mínimo saco pra isso agora...

Antes que eu continuasse a frase, o cara começou a orar de olhos fechados, com uma mão no peito e outra apontando para o céu.

Pensei que era uma ótima oportunidade de fechar a porta devagar e desligar a campainha.

O anjinho dentro de mim estava acordando, mas pedia paciência.

O capetinha estava chegando da noitada, bêbado, e parecia querer acabar com aquilo logo, provavelmente para dormir até a hora do almoço.

Então, comecei a tossir falsamente e descontroladamente. Queria chamar a atenção dele...

- Tudo bem senhor? O senhor tá bem? Sabia que precisava de orações....

Isso. Chamei a atenção dele. Esfreguei os olhos. E olhei para atrás dele.

- Olha cara, eu queria muito ficar conversando com vocês, mas vou dormir.

- Vocês? Estou sozinho aqui senhor.

- Não. Tem um espírito atrás de você. Sou espírita e médium. Vejo espíritos. E tem um atrás de você.

O anjinho despertou e começou:

- Não. Não. Não. Não faça isso. Pare. Agradeça e o deixe ir.

O capetinha apenas ria. E sentou no ombro esquerdo, acendeu um cigarro e festejava:

- Isso, assuste ele. Continue nessa. Mas seja rápido porque quero dormir..

- Senhor. Eu não acredito nisso.

- Ok. Não vou te convencer. Mas não gostei da cara do espírito atrás de você não.

E ele olhou para trás. Podia sentir o aperto que ele passava.

O anjinho balançava a cabeça negativamente.

O capetinha sorria e pensava no sucesso daquela atitude.

- Olhe senhor, vou embora então. Não quer mesmo a revista?

- Não. E quando eu for ao centro espírita hoje vou procurar saber o motivo pelo qual o espírito está atrás de você.

- Tenha um bom dia senhor.

- Bom dia.

E foi embora. Até a hora que fechei a porta, ele virou de costas duas vezes.

E eu fui dormir. Junto com o capetinha. O anjinho foi rezar por nós.


Nota: Não tenho nada contra religiões e crenças. Só tenho algo contra alguém que toca minha campainha três vezes, num domingo, às 08 horas da manhã, e tentando me convencer a fazer algo que não quero.

2 comentários:

  1. KAKAKAKAKAKAKAKA... campainha devia ser programada pra tocar só depois do meio-dia nos fds. rsrs.

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  2. Nem me fale Rafa.

    Estressante viu?

    Obrigado por acessar sempre! =]

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