Ano de 1900 e
alguma coisa, época dourada de colégio. Você não está preocupado com conta para
pagar e nem por trabalhar para sustentar família, só fica preocupado em saber a
hora do recreio ou a hora de chegar em casa para ver Jiraya, Jiban, Jaspion,
Dragon Ball ou os Cavaleiros do Zodíaco.
- Psiu, Serginho...
Bem na aula de
Ciências da professora mais chata da escola, Fernando me chama:
- Fala, cara... –
Sussurrei – Já disse que essa bruxa não gosta de mim...
- Então os anfíbios...
Bem pessoal, vamos esperar o Sr. Sergio acabar de conversar com o Sr. Fernando,
o papo deve ser mais interessante.
Quem nunca viveu
esta situação, de um professor querer te humilhar na frente da classe, não sabe
o que é indignação, “Por que logo comigo?”.
- Desculpa,
Professora...
- Voltando...
Enquanto ela virava
para o quadro negro, Fernando me mandou um bilhetinho escrito, “Nosso time será
eu, você, Thiago Azevedo, Beterraba, Ricardo Paulo e Adriano, beleza?”
Essa era a nossa panelinha
para jogar o campeonato de futebol de meia do recreio. Ano passado havíamos
perdido do time que sempre foi nosso arquirrival, Juninho, Paulinho, Balú,
Mostarda e os gêmeos Jadson e Jemerson ...
Vocês acham que a
bola era uma bolinha qualquer? Era a bola! Feita com 2 jornais, 3 revistas, e
cinco meias, sem contar com algumas folhas de caderno de ultima hora.
Estávamos no terceiro
horário (o que antecedia o jogo) e o tempo não passava. Entre nós, os atletas
do time da 4ª F, a ansiedade aumentava e a tensão estava transparecendo nos
olhares, nos entreolhávamos com uma mistura de ansiedade e medo de perder mais
uma.
- Quantas pernas
possuem os artrópodes, Adriano?
- Ah professora, eu
sei mas não quero responder...
- Se você não
responder, a sala ficará em sala te esperando...
Neste exato momento
faltavam 2 minutos para o sinal bater. Todos apreensivos, pressionando o menino
mais tímido da sala, isso não vai dar certo...
- Vamos Adriano,
estamos te esperando – Disse a megera.
Uma lágrima prestes
a cair dos olhos do Adriano, os amigos sabiam que aquilo era uma situação que
Adriano odiava, ele não gostava de falar em público e poderia afetá-lo
psicologicamente, atrapalhando no seu... Futebol.
- Oi..
- Quê? Não
escutamos?
- Oit...
Sussurou...
- Diga, menino!
- OITOOOOOO!!!
A Turma inteira saudou
o Adriano, foi como se fosse uma libertação, o cara conseguiu passar por um
obstáculo.
Mas a megera olhava
com uma cara maléfica, parecia que iria se vingar dos aplausos que a turma
concedeu ao Adriano.
- Muito bem, 4ª
F... Então querem dizer que vocês querem me confrontar...
Começou a famosa
síndrome da perseguição.
- Então vocês vão
ficar mais 15 minutos comigo, na hora do recreio.
- Mas...
- Que isso..
- Absurdo!!!
- Não,
professora...
- Por favor!!!
- PAREM, senão será
o recreio inteiro! Não admito ser confrontada...
Era o típico da
professora que tinha problemas sérios familiares e que estourava em cima dos
alunos, isso é bastante comum...
O time todo já
estava apreensivo e estávamos indignados com a situação, mas solidários com o
Adriano que estava de cabeça baixa...
TRINNNNNNNNNNNN
Sinal soou,
barulhos de pisões fortes no chão, a galera correndo para o pátio, descendo as
escadas como se fossem doidos. E a 4ª F presa. O quê que a 4ª D irá pensar? Que
nós “Arregamos”? Isso era possível.
- Então vamos continuar.
As formigas se alimentam...
Passaram-se 5
minutos.
A orientadora
Alexia estranhou nossa ausência no pátio e foi até a sala para ver o que estava
acontecendo, já que a fama da professora Jurema era péssima até entre os colegas
professores. Provavelmente ela percebeu que era mais uma maldade da bruxa.
- Professora..
- Sim, Alexia..
- Boa tarde, turma.
Professora, precisarei de sua ajuda neste horário de intervalo, será que você pode
apressar para que possamos fazer uma reunião? É urgente.
A turma toda desconfiava
que era uma ação salvadora da orientadora Alexia, que era querida por todos os
alunos.
- Tudo bem, turma
podem ir...
- AÊÊÊ!!!! – um
coro ensurdecedor ecoava nos corredores.
O nosso time era o
mais empolgado e estávamos com “sangue nos zói” para pegarmos a 4ª D...
Chegamos ao campo
de batalha. Latas de lixos que eram as traves já estavam posicionadas. As
meninas ficavam em torno do “campo” gritando o nome da turma e nos sentíamos os
verdadeiros jogadores.
- Não tinha tempo
para lanchar, vamos começar. – Disse Jorge Augusto, que seria o juiz do jogo.
Ganhamos o par ou
impar e a bola era nossa.
Começou o jogo e não
havia tática. Não tinha zagueiro e nem atacante. A bola ia e todos corriam
atrás, uma bagunça. Mas éramos movidos pela raça e pelo orgulho ferido.
Pequenos homens querendo reconstruir a honra de terem perdido num clássico da
quarta série.
- Pega, Adriano!
- Toca...
E o pequeno tímido
mete um gol no cantinho... “GOOOLLLLLL” – 1 x 0, a cara de felicidade do meu
amigo era contagiante, ele foi do inferno ao céu em menos de 20 minutos.
Jemerson começa uma
briga com Thiago Azevedo, o tempo escureceu. Jadson, seu irmão, foi comprar a
briga também e deu um soco nas costas do Thiago. Fiquei doido e já cheguei na
voadora... Parecia jogo entre River Plate e Boca Juniors, aquele clássico
argentino.
Como eu sou um
azarado, a professora Jurema, lá da sala dos professores, viu a situação toda
bem na hora que Beterraba tinha jogado o Paulinho na lata de lixo.
Contra fatos não
há argumentos. Os dois times tomaram 3 dias de suspensão pelo STJD e ficamos
esperando esperançosos o setor jurídico conseguir um efeito suspensivo, vulgo orientadora
Alexia, para nos salvar.
E adivinhem onde nossa
salvadora estava no momento da briga generalizada? Ao lado da megera... Mais
uma vez, “contra fatos, não há argumentos” – apelar para a FIFA? Nunca
conseguiremos...
Então a alternativa
era ficar em casa de castigo.
Ficamos, mas
felizes por terem conquistado a vitória no “La Bombonera da escola”.
E não tiro o que
disse: Esses foram anos dourados. Tanto que sinto saudade, até hoje, da querida
professora Jurema.

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