terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O clássico das multidões


Ano de 1900 e alguma coisa, época dourada de colégio. Você não está preocupado com conta para pagar e nem por trabalhar para sustentar família, só fica preocupado em saber a hora do recreio ou a hora de chegar em casa para ver Jiraya, Jiban, Jaspion, Dragon Ball ou os Cavaleiros do Zodíaco.

- Psiu, Serginho...

Bem na aula de Ciências da professora mais chata da escola, Fernando me chama:

- Fala, cara... – Sussurrei – Já disse que essa bruxa não gosta de mim...

- Então os anfíbios... Bem pessoal, vamos esperar o Sr. Sergio acabar de conversar com o Sr. Fernando, o papo deve ser mais interessante.

Quem nunca viveu esta situação, de um professor querer te humilhar na frente da classe, não sabe o que é indignação, “Por que logo comigo?”.

- Desculpa, Professora...

- Voltando...

Enquanto ela virava para o quadro negro, Fernando me mandou um bilhetinho escrito, “Nosso time será eu, você, Thiago Azevedo, Beterraba, Ricardo Paulo e Adriano, beleza?”

Essa era a nossa panelinha para jogar o campeonato de futebol de meia do recreio. Ano passado havíamos perdido do time que sempre foi nosso arquirrival, Juninho, Paulinho, Balú, Mostarda e os gêmeos Jadson e Jemerson ...

Vocês acham que a bola era uma bolinha qualquer? Era a bola! Feita com 2 jornais, 3 revistas, e cinco meias, sem contar com algumas folhas de caderno de ultima hora. 

Estávamos no terceiro horário (o que antecedia o jogo) e o tempo não passava. Entre nós, os atletas do time da 4ª F, a ansiedade aumentava e a tensão estava transparecendo nos olhares, nos entreolhávamos com uma mistura de ansiedade e medo de perder mais uma.

- Quantas pernas possuem os artrópodes, Adriano?

- Ah professora, eu sei mas não quero responder...

- Se você não responder, a sala ficará em sala te esperando...

Neste exato momento faltavam 2 minutos para o sinal bater. Todos apreensivos, pressionando o menino mais tímido da sala, isso não vai dar certo...

- Vamos Adriano, estamos te esperando – Disse a megera.

Uma lágrima prestes a cair dos olhos do Adriano, os amigos sabiam que aquilo era uma situação que Adriano odiava, ele não gostava de falar em público e poderia afetá-lo psicologicamente, atrapalhando no seu... Futebol.

- Oi..

- Quê? Não escutamos?

- Oit... Sussurou...

- Diga, menino!

- OITOOOOOO!!!

A Turma inteira saudou o Adriano, foi como se fosse uma libertação, o cara conseguiu passar por um obstáculo.

Mas a megera olhava com uma cara maléfica, parecia que iria se vingar dos aplausos que a turma concedeu ao Adriano.

- Muito bem, 4ª F... Então querem dizer que vocês querem me confrontar...

Começou a famosa síndrome da perseguição.

- Então vocês vão ficar mais 15 minutos comigo, na hora do recreio.

- Mas...

- Que isso..

- Absurdo!!!

- Não, professora...

- Por favor!!!

- PAREM, senão será o recreio inteiro! Não admito ser confrontada...

Era o típico da professora que tinha problemas sérios familiares e que estourava em cima dos alunos, isso é bastante comum...

O time todo já estava apreensivo e estávamos indignados com a situação, mas solidários com o Adriano que estava de cabeça baixa...

TRINNNNNNNNNNNN

Sinal soou, barulhos de pisões fortes no chão, a galera correndo para o pátio, descendo as escadas como se fossem doidos. E a 4ª F presa. O quê que a 4ª D irá pensar? Que nós “Arregamos”? Isso era possível.

- Então vamos continuar. As formigas se alimentam...

Passaram-se 5 minutos.

A orientadora Alexia estranhou nossa ausência no pátio e foi até a sala para ver o que estava acontecendo, já que a fama da professora Jurema era péssima até entre os colegas professores. Provavelmente ela percebeu que era mais uma maldade da bruxa.

- Professora..

- Sim, Alexia..

- Boa tarde, turma. Professora, precisarei de sua ajuda neste horário de intervalo, será que você pode apressar para que possamos fazer uma reunião? É urgente.

A turma toda desconfiava que era uma ação salvadora da orientadora Alexia, que era querida por todos os alunos.

- Tudo bem, turma podem ir...

- AÊÊÊ!!!! – um coro ensurdecedor ecoava nos corredores.

O nosso time era o mais empolgado e estávamos com “sangue nos zói” para pegarmos a 4ª D...

Chegamos ao campo de batalha. Latas de lixos que eram as traves já estavam posicionadas. As meninas ficavam em torno do “campo” gritando o nome da turma e nos sentíamos os verdadeiros jogadores.

- Não tinha tempo para lanchar, vamos começar. – Disse Jorge Augusto, que seria o juiz do jogo.

Ganhamos o par ou impar e a bola era nossa.

Começou o jogo e não havia tática. Não tinha zagueiro e nem atacante. A bola ia e todos corriam atrás, uma bagunça. Mas éramos movidos pela raça e pelo orgulho ferido. Pequenos homens querendo reconstruir a honra de terem perdido num clássico da quarta série.

- Pega, Adriano!

- Toca...

E o pequeno tímido mete um gol no cantinho... “GOOOLLLLLL” – 1 x 0, a cara de felicidade do meu amigo era contagiante, ele foi do inferno ao céu em menos de 20 minutos.

Jemerson começa uma briga com Thiago Azevedo, o tempo escureceu. Jadson, seu irmão, foi comprar a briga também e deu um soco nas costas do Thiago. Fiquei doido e já cheguei na voadora... Parecia jogo entre River Plate e Boca Juniors, aquele clássico argentino.

Como eu sou um azarado, a professora Jurema, lá da sala dos professores, viu a situação toda bem na hora que Beterraba tinha jogado o Paulinho na lata de lixo.

Contra fatos não há argumentos. Os dois times tomaram 3 dias de suspensão pelo STJD e ficamos esperando esperançosos o setor jurídico conseguir um efeito suspensivo, vulgo orientadora Alexia, para nos salvar.

E adivinhem onde nossa salvadora estava no momento da briga generalizada? Ao lado da megera... Mais uma vez, “contra fatos, não há argumentos” – apelar para a FIFA? Nunca conseguiremos...

Então a alternativa era ficar em casa de castigo.

Ficamos, mas felizes por terem conquistado a vitória no “La Bombonera da escola”.  

E não tiro o que disse: Esses foram anos dourados. Tanto que sinto saudade, até hoje, da querida professora Jurema. 



Bruno Farnese. Relações Públicas, filho de Roberto e Kátia. Adorador de carne e cerveja, odeia azeitona, perder no xadrez do avô ou na peteca da avó. Gosta de tentar escrever nas horas vagas. Reclamações e sugestões? Você pode segui-lo no Twitter @bfarnese ou no Facebook.

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