Tudo o que ela queria era sair daquele trânsito infernal e chegar em casa.
Não queria ir pra botequim, casa das amigas ou encontrar com aquele cara
que estava no seu pé. Queria apenas chegar em casa, tomar um banho, uma cerveja
gelada e dormir, pois a vida de repórter estava consumindo 18 horas do dia.
E o pior nem era o seu volume de trabalho, pois gostava do que fazia.
Aliás, gostava não, amava. Era muito bom poder cobrir alguns eventos que a
cidade toda gostaria de ir e falar com celebridades, como o show do Paul McCartney em
que trabalhou recentemente.
Aliás, esse show foi o grande presente que ganhou da sua amiga de redação
que estava escalada para o evento, porém, de última hora, essa azarada teve que
ir pro Rio de Janeiro e a sortuda assumiu a pauta do Beatle.
Nunca vai se esquecer desse dia em que viu o Mineirão inteir...
E então os pensamentos foram dispersados devido a uma forte batida na traseira.
Imagens da primeira briga de trânsito registrada (tira retirada do site http://uniaodeabobrinhas.blogspot.com)
Sua cabeça bateu no vidro, mas não machucou. O braço bateu na porta, mas
também não tinha sido nada demais. As costas doíam um pouco mais, até mesmo devido a pancada,
porém sem maiores preocupações.
- Moça, você está bem?
- Sim.
- Desculpa, não vi que você freou.
- Sem problema.
- Olha, eu vou te dar meu telefone, endereço, tudo certinho tá?
Alguma coisa
estava errada.
- Beleza. Só vou ligar pra Polícia para fazer a ocorrência.
- Não moça, precisa disso não, vou assumir tudo. Mas não chama a polícia
não...
Com certeza, alguma coisa estava errada. Seu faro de repórter estava no
talo, sentindo que
muita coisa estava errada ali. E foi agravado por aquilo que se parece bem com
o “sentido de aranha” do Homem-Aranha, também conhecido como intuição feminina.
- Por quê? Você tá com documento atrasado?
- Não.
- Você roubou o carro?
- Não. Olha os documentos aqui.
- Entendo. Olha, não sei porque o senhor não quer que chame a polícia. Eu
tenho seguro e só posso acioná-lo com o boletim de ocorrência. Sinto muito.
Enquanto o motorista entrou desolado e passava a mão na cabeça, ela ligou
para polícia e usou o
celular para fotografar o carro. Depois de duas fotos da traseira do carro,
virou a câmera para o carro que bateu nela.
Foi aqui que, do nada, uma mulher levantou a cabeça e surgiu do banco do
passageiro, quase matando a repórter de susto.
- Moça, tira
foto de mim não.
“Será que estavam usando drogas?” “Tinham bebido?” eram o que passava em
sua mente.
Então, quando a polícia chegou, as coisas começaram a se desenhar.
Para começar, o motorista realmente tinha bebido e não passou no teste do bafômetro.
A polícia então falou que ele não poderia dirigir e o carro só sairia
dali com outro motorista, só que a mulher que estava no carro com ele não sabia
dirigir.
Devido ao cansaço, ela não sabia quanto tempo já tinha se passado. As
costas doíam mais e
os pés ferviam dentro daquele sapato.
Mas a coisa piorou quando uma mulher, sabe-se Deus como, apareceu na cena
do acidente e chegou metendo a mão na cara do motorista bêbado.
Como ela surgiu e como ficou sabendo do acidente, não se sabia, mas deu para entender que ela
era esposa dele e a mulher que estava no carro era a amante do sujeito.
E descobriu-se isso quando a esposa abriu a porta do carro e tirou a
outra de dentro do carro na força, jogando-a contra o capô. O policial só viu
isso quando colocou o
motorista bêbado dentro da viatura e escutou o grito de uma delas.
- Sua vagabunda, cretina.
- Me solta, sua chifruda.
- Sou chifruda, mas não pego homem de ninguém não sua piriguete,
piiiiiiiiiiiiii de uma piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
E então, se engalfinharam e começaram a brigar ali mesmo.
- Aiaiai... Meu megahair não. Solta, sua cachorra, filha de uma
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
- Vou é arrancar seus olhos, sua piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, de um a
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Vai pra piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Sua
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii filha de uma
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
Pronto. Não era preciso relatar o resto. O banho, a cerveja gelada e a
cama estavam cada vez
mais distantes.
O Policial largou a ocorrência e separou a briga, colocando a esposa
dentro do carro batido e a amante na viatura com o motorista bêbado, que dizia
que não tinha bebido. A esposa disse que não ia levar carro de ninguém embora e que “Galo onde canta,
janta”. O motorista bêbado gritava que não era Galo e que era cruzeirense,
enquanto a amante ligava pra cabeleireira para colocar um novo megahair, já que
o antigo estava jogado na avenida.
Recebeu o B.O. do policial e recebeu recomendações de ir para um hospital, mas não aceitou.
Tudo o que ela queria era chegar em casa, pois tinha que ir trabalhar cedo no
outro dia.
O problema não seria a hora que teria que acordar, mas ter que escrever
sobre essa história e correr para cobrir a coletiva do Prefeito sobre os avanços do trânsito
para a Copa.
(Caso Verídico)
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


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