Ela mal podia acreditar que o tinha achado no Facebook.
Depois de uma paixão reprimida na infância e um lapso temporal de 15
anos, finalmente teve notícias dele.
Não que o esperasse todo esse tempo. Hoje, está casada, mas nunca se esqueceu do Dentinho, sua paixão no colégio.
Por duas ou três vezes jogou o nome dele no Google, mas
não conseguiu descobrir nada. Pesquisou também quando tinha Orkut, chegando até
a criar uma comunidade do colégio na esperança de que ele entrasse, mas não
obteve nenhum resultado interessante.
Teve até uma vez que viu um cara bem parecido com ele fazendo
compras no supermercado, mas não teve coragem de cumprimentar o rapaz.
Mas hoje, por coincidência, procurando um post de um amigo do serviço, viu por um acaso o comentário do rapaz responsável pelos papéis de carta coloridos com corações na sua infância e esboçou um sorriso.
O problema agora era: adicioná-lo aos amigos ou não?
Por um lado, poderia ter acesso a sua vida completa agora. Mas e se ele não se
lembrasse dela? E se descobrisse que ele é machista, racista, homofóbico e torce pro Flamengo? E se ele fosse gay?
Não que ainda tivesse algum interesse nele, mas ela gostava daquelas lembranças da infância e não queria estragá-las.
Sinceramente, não sabia o que deveria fazer. Até ligou
para as amigas, mas nenhuma ajudou de forma eficaz.
Depois de muito pensar, clicou em “Adicionar aos amigos”, fez
“Em nome do Pai” e seja o que Deus quiser.
Mas não precisou sofrer muito. No outro dia, pela
manhã, a notificação de aceitação da amizade já está disponível pra ela.
E então ela correu pras fotos dele e viu que ele não
havia mudado muito.
Tinha um pouco de cabelo branco, sua barriga estava um pouco maior e já havia
rugas no rosto dele. Mas o que sempre a admirou estava ali.
Os olhos tinham vida, o sorriso era o mesmo. Era ele ainda. Do jeitinho que
ela conhecia. Da forma que ela se apaixonou na infância.
E agora?
Se lembrou até de quando ouvia “Na estrada”, da Marisa monte, e pensava
nele. Sem notar, estava procurando essa música no Youtube e nas rádios de elevador que ouvia no carro.
De um jeito ou de outro, vivia aquela fase novamente. Era criança de novo.
Estava tudo bem, até o dia em que recebeu um convite
para um “Evento” que ele criou no Facebook.
A situação agora saiu do controle.
Ele não a convidou diretamente, afinal, não chegaram
nem a conversar. Mas e esse convite?
Será que deveria ir?
Antes de tudo era uma mulher casada e não deveria sair
sem seu marido. Porém, não iria fazer nada de errado. Era apenas questão de
curiosidade.
Foi só receber a notícia de que o marido viajaria para
uma reunião em Porto Alegre que encheu-se de coragem e se preparou para o happy hour.
Percebeu que aquele retorno ao passado, começava a sufocá-la e ela não
conseguia mais manter uma atitude normal. Ele, ao contrário, não fez nada
demais e demonstrava a mesma emoção de um James Bond sob tortura.
Já no local, depois de
alguns drinques a mais, ela decidiu se declarar. Respirou firme, tomou atitude
e caminhou com passos firmes em direção a ele, mas o viu beijando uma morena
com um vestido horroroso e o cabelo ressecado e com pontas duplas. Ali viu a
chama que reacendera, virar cinzas.
Foi embora pra casa, bêbada, e redigiu um email se declarando. Disse que o amava na infância, que ele ainda estava lindo e que aqueles
olhos juntamente com aquele sorriso eram a chave para o coração dela. Sem
pensar duas vezes, enviou o email, adormecendo logo em seguida, após tomar duas
garrafas de vinho e dormir enquanto chorava ouvindo “Na estrada” da Marisa Monte.
No outro dia, tomada de uma ira e de uma ressaca (tanto
física quanto moral), não teve dúvidas e apagou o Facebook. Foi trabalhar e se
preparou para receber o marido que chegaria de viagem naquele dia.
Mal sabia ela que ele não receberia o email, que
infelizmente caiu na caixa de SPAM e logo depois foi apagado.
Se o email tivesse caído na Caixa de Entrada poderia
até ter obtido uma resposta dele, o cara que pesquisava o nome dela no Google
todos os meses e que
deu pulos de alegria quando viu que ela o adicionara no Facebook.
Ela saberia que ele inventou o tal evento como pretexto
para reencontrá-la e até descobriria que devido ao atraso de 1 hora dela, ficou
com uma menina para curar a dor de achar que tinha sido ignorado e que havia tomado um
bolo.
Mas infelizmente, ela não soube de nada disso. Nem da
tristeza dele de ver que ela tinha apagado o Facebook.
Agora, em comum, só resta o ódio por Marisa Monte.
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