Ele sempre gostou de café.
Sempre mesmo, desde criança.
Ainda pequeno, depois de jogar bola e andar de bicicleta após
o almoço na casa dos avós no domingo, ficava sentado na sala para assistir Os
Trapalhões e tomar café.
Sua avó trazia uma caneca com café e uma
tigelinha com um pão doce com creme, dois “sanduíches” de biscoito maisena com
queijo e uma fatia de bolo que o avô fazia todos os fins de semana. E só depois
do café, era hora de ir embora.
Depois, já crescido, acordava cedo no domingo para ir à
missa com a mãe para a professora do catecismo o ver lá. Antes, claro, não
podia deixar de tomar o café em
casa. E desde essa época, ele ouvia da mãe.
- Esse é o melhor café do mundo.
E detalhe, não era ela quem fazia o café. Era o pai. Era
dele o título de melhor café do mundo.
E olha que a família dele era do interior de Minas Gerais e em
todas as vezes em que ia pra lá e fazia visitas aos parentes que por lá
ficaram, era obrigatório tomar café com pão de queijo.
Sua mãe, quase uma sommelier
e referência na arte milenar em apreciar a tal bebida sempre saia da casa dos
parentes e dizia “Nossa, que delícia de café”, mas era só voltar pra casa e
tomar o café do pai dele que dizia “que saudade que eu tava desse café”.
E foi assim que ele cresceu, tomando o melhor café do mundo
todos os dias.
Repetia isso pra todo mundo e se orgulhava de dizer que o
pai fazia o melhor café do mundo, por mais que outras pessoas não concordassem
e dissessem que o café do seu pai era “ralo e doce”, ou “muito doce”, ele não
aceitava e dizia que o dos outros era amargo ou forte demais, ou ainda
retrucava dizendo que estava frio, forte e sem açúcar.
Até que tomou o café dela.
Um dia, conheceu uma moça e começaram a namorar.
- Aceita um café?
- Claro.
- Vou fazer, peraí.
- Adoro café.
- Prontinho.
O café era muito bom. Achou gostoso, parecido com o do pai, mas não superava o “melhor
café do mundo” que conhecia em casa.
E o namoro virou noivado que virou casamento que gerou a
mudança de cidade.
Após alguns anos fora da cidade natal, naquele natal, ele
veio com a esposa e o casal de filhos.
Naquele dia 25 de dezembro, após o almoço e a conversa
familiar, foi inevitável o convite da mãe.
- Filho, antes de ir embora, peraí que vou pedir pro seu pai
fazer um café pra nós.
E a expectativa foi enorme. Tinha anos que não tomava o café
do pai, mas a propaganda era enorme. Até o filho mais velho queria tomar aquele
café.
- Pai, vamos tomar o melhor café do mundo?
- Vamos sim, filho. O café do seu avô.
- Vô, o pai sempre fala do seu café.
- É, seu pai gosta mesmo. Sempre gostou. Aliás, to vendo que
você já gosta né?
- Gosto.
E então, o café ficou pronto e aquela conversa agradável do
café do fim da tarde continuou.
No carro, voltando pra cidade onde agora morava, ele se
surpreendeu com a pergunta do filho.
- Pai, gostei do café do vô, mas não achei o melhor café do
mundo não.
E então ele pensou. Realmente, não era mais o melhor café do
mundo. O café continuava gostoso, mas havia algo estranho nele...
- É porque foi a primeira vez que você o tomou, filho.
Mas aquilo não saia dos pensamentos. O café do pai, aquele
que o acompanhou na adolescência e mesmo na vida adulta, não era o mesmo. Tinha
algo errado.
Ao chegar em casa e colocar os filhos na cama, ele se
surpreendeu com a esposa na cozinha preparando um café.
Sentou à mesa da cozinha com ela, tomaram um copo do café e
conversaram sobre a viagem. No meio da conversa, percebeu algo.
- Que saudade que eu tava desse café.
A esposa apenas sorriu.
E então foram dormir felizes. Ela pelos dias passados com a
família reunida. Ele pelos mesmos motivos. E por descobrir o melhor café do
mundo.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha



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