segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O melhor café do mundo

Ele sempre gostou de café.

Sempre mesmo, desde criança.

Ainda pequeno, depois de jogar bola e andar de bicicleta após o almoço na casa dos avós no domingo, ficava sentado na sala para assistir Os Trapalhões e tomar café.

Sua avó trazia uma caneca com café e uma tigelinha com um pão doce com creme, dois “sanduíches” de biscoito maisena com queijo e uma fatia de bolo que o avô fazia todos os fins de semana. E só depois do café, era hora de ir embora.

Depois, já crescido, acordava cedo no domingo para ir à missa com a mãe para a professora do catecismo o ver lá. Antes, claro, não podia deixar de tomar o café em casa. E desde essa época, ele ouvia da mãe.

- Esse é o melhor café do mundo.

E detalhe, não era ela quem fazia o café. Era o pai. Era dele o título de melhor café do mundo.

E olha que a família dele era do interior de Minas Gerais e em todas as vezes em que ia pra lá e fazia visitas aos parentes que por lá ficaram, era obrigatório tomar café com pão de queijo.

 Sua mãe, quase uma sommelier e referência na arte milenar em apreciar a tal bebida sempre saia da casa dos parentes e dizia “Nossa, que delícia de café”, mas era só voltar pra casa e tomar o café do pai dele que dizia “que saudade que eu tava desse café”.

E foi assim que ele cresceu, tomando o melhor café do mundo todos os dias.

Repetia isso pra todo mundo e se orgulhava de dizer que o pai fazia o melhor café do mundo, por mais que outras pessoas não concordassem e dissessem que o café do seu pai era “ralo e doce”, ou “muito doce”, ele não aceitava e dizia que o dos outros era amargo ou forte demais, ou ainda retrucava dizendo que estava frio, forte e sem açúcar.

Até que tomou o café dela.

Um dia, conheceu uma moça e começaram a namorar.

- Aceita um café?

- Claro.

- Vou fazer, peraí.

- Adoro café.

- Prontinho.
  
O café era muito bom. Achou gostoso, parecido com o do pai, mas não superava o “melhor café do mundo” que conhecia em casa.

E o namoro virou noivado que virou casamento que gerou a mudança de cidade.

Após alguns anos fora da cidade natal, naquele natal, ele veio com a esposa e o casal de filhos.

Naquele dia 25 de dezembro, após o almoço e a conversa familiar, foi inevitável o convite da mãe.

- Filho, antes de ir embora, peraí que vou pedir pro seu pai fazer um café pra nós.

E a expectativa foi enorme. Tinha anos que não tomava o café do pai, mas a propaganda era enorme. Até o filho mais velho queria tomar aquele café.

- Pai, vamos tomar o melhor café do mundo?

- Vamos sim, filho. O café do seu avô.

- Vô, o pai sempre fala do seu café.

- É, seu pai gosta mesmo. Sempre gostou. Aliás, to vendo que você já gosta né?

- Gosto.

E então, o café ficou pronto e aquela conversa agradável do café do fim da tarde continuou.

No carro, voltando pra cidade onde agora morava, ele se surpreendeu com a pergunta do filho.

- Pai, gostei do café do vô, mas não achei o melhor café do mundo não.

E então ele pensou. Realmente, não era mais o melhor café do mundo. O café continuava gostoso, mas havia algo estranho nele...

- É porque foi a primeira vez que você o tomou, filho.

Mas aquilo não saia dos pensamentos. O café do pai, aquele que o acompanhou na adolescência e mesmo na vida adulta, não era o mesmo. Tinha algo errado.

Ao chegar em casa e colocar os filhos na cama, ele se surpreendeu com a esposa na cozinha preparando um café.

Sentou à mesa da cozinha com ela, tomaram um copo do café e conversaram sobre a viagem. No meio da conversa, percebeu algo.

- Que saudade que eu tava desse café.

A esposa apenas sorriu.

E então foram dormir felizes. Ela pelos dias passados com a família reunida. Ele pelos mesmos motivos. E por descobrir o melhor café do mundo.




Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha 

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