quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Indiana Jones e a BatCaverna Perdida



- Filho?

- Oi?

- A diretora da sua escola me ligou hoje.

- Legal. Mandou um abraço meu pra ela?

- É sério, Guilherme.

- Tá bom, mãe. Diga.

- Ela falou que vai ter uma excursão do seu colégio.

- Isso.

- E você não entregou o formulário de autorização.

- Não.

- Posso saber porque? Vai sem autorização, por um acaso?

- Não. Eu não vou.

- Vai sim. Vale 5 pontos!


Bom, vocês são testemunhas de que eu não queria ir nessa excursão do Colégio.

Mas o fato é que eu acho que sou claustrofóbico. Sim, eu acho, pois nunca fiz um exame de verdade para confirmar isso, mas tenho receio de lugares muito apertados e com muita gente.

E esta excursão era pra fazer um curso de Espeleologia.

Quando a professora de Geografia entregou um folder com os formulários de autorização e fotos da caverna onde seria feito o minicurso, já fiquei sem ar. Só não sai da sala correndo no momento porque já tinha pedido pra ir ao banheiro antes.

Tentei argumentar com minha mãe sobre meus traumas de natação, da minha falta de ar, do princípio de começo de Bronquite e Asma que eu poderia desenvolver, mas não tive escolha.


Logo na saída da escola, no dia marcado, entramos no ônibus e fomos para uma cidade próxima.

Enquanto os meninos aproveitavam para se aproximar das meninas que por sua vez faziam os famosos anus glicosadus para deixá-los sentar ao lado, eu olhava a paisagem pela janela e nem acompanhava os meus amigos no tradicional “Jererê-Jererê, é o LSD” que embalava o encontro das turmas daquele colégio.

Chegamos em uma fazenda para fazer o tal curso e enquanto alguns colegas de sala ostentavam seus chips, refrigerantes ou Toddynhos, eu olhava para o horizonte, buscando algum sinal que me acalmasse, que acabasse com aquilo que me incomodava, que tirasse o que estava deixando a garganta seca, que diminuísse o arrepio que sentia.

Foi quando a vi. Linda.

Passei por trás de alguns alunos, driblei alguns professores, me apertei por entre os ônibus e a encontrei ao lado do banheiro, longe do alcance de todos.

Como aquela fonte d’água era desejada. A cada gole que ingeria, percebia que estava voltando ao normal.

Mas fui descoberto e logo o professor veio me buscar e me levar junto com os outros alunos para a trilha.  Não tinha mais jeito.

Entramos pela trilha e logo o suor frio começava a escorrer pelo meu rosto. Afastava a gola da camisa, enxugava o rosto e procurava algo para me apoiar.

Andamos por alguns metros e entre estalactites, estalagmites e cocos de morcego, entramos em um salão enorme. Foi quando meus olhos brilharam e meu corpo congelou. 

Era grande, ampla, bonita. Mas fedia.
A sensação era de estar presente na BatCaverna. Haviam câmeras de segurança, corrimões, placas indicativas e iluminação especial por causa dos morcegos.

“Venham. Ao entramos à direita, poderemos ver um lago cristalino”. Acho que foi isso que o cara disse. Ou “pato albino”, sei lá. Nunca vou saber, pois os alunos seguiram o guia e eu olhava para o tamanho da área aberta e imaginando por onde o Batman entrava.

Não sei quando, mas sei que eu desencontrei da turma. De longe, via a sombra do retardatário da fila, mas fiquei parado e em silêncio, observando tudo ao meu redor. 

Quando percebi que estava por último, senti uma certa angústia. Comecei a andar devagar e tateando a parede da caverna (quem sabe não havia uma passagem secreta), com o máximo cuidado possível. 

Até que vi aquela pedra. 

Era linda. Verde. Seria um ótimo souvenir daquele momento. 

- Carái! O Batman tem kriptonita aqui - Eu disse, pensando alto.

Ah.... essa pedra vai ser minha....
Aproximei a mão devagar e encostei na pedra, que parecia possuir luz própria.

- EI! Tira a mão daí!

- Já era, Alfred.


Não olhei pra trás. Apenas peguei a pedra e saí correndo atrás dos alunos. Pude ver a sombra de alguém correndo atrás de mim. Era alguém com nariz um pouco grande e aparentemente careca.

Consegui alcançar a turma e enfiei a pedra no bolso, me misturando entre os alunos.  Era o artefato que poderia vender para a LuthorCorp ou usar de peso de papel, não sabia ainda, mas era a minha descoberta arqueológica.

Durante alguns minutos até esqueci que estava em um local que não havia ar disponível em grandes quantidades pra todo mundo. Só descobri isso quando subimos por uma escada de pedras e todo mundo tinha que entrar por um buraco.

Travei.

Eu não iria conseguir. Entraríamos em um buraco agachados e depois iríamos nos rastejar por cerca de trinta metros para ter acesso a algo que todos queriam ver.

Pessoas passavam na minha frente e eu estava sem saída.

- Ei!

Era ele, o cara que me viu com a pedra. O Alfred!

Subitamente, entrei naquele buraco sem olhar pra trás. O lugar era escuro e eu rastejava, com pouco ar disponível, mais preocupado com a minha kriptonita.

Ao achar a luz, senti alguém puxando meu pé. Não era possível que o Alfred tinha me alcançado.


Desesperado, pensei em tacar a pedra nele, mas não poderia ficar sem ela. Era meu tesouro.

Dei um coice, escutei um “Ai!” e apressei, suando mais ainda. Comecei a ver pontos pretos na minha frente e tive a plena sensação de desmaio.

Quase caí
Na hora de sair do buraco, não reparei em minha volta e quase caí na hora de descer. Com a pedra no bolso e a aflição no peito, de cair ou ser pego, fiquei preso a uma pedra e só conseguir saltar quando vi que era seguro.

A sensação de ar fresco enchendo os pulmões foi instantânea. Consegui sair do outro lado, me levantei rapidamente e passei a mão no rosto para enxugar o suor que insistia em escorrer.


E aí, olhei pro lado.

Todos estavam com o rosto sujo de um pó vermelho que havia no buraco. Era genial! Estávamos todos com os rostos e roupas sujas e eu não conseguiria ser descoberto.

Andamos mais um pouco e descobri que tinha dado um coice em uma menina que estava atrás de mim. Não vi o Alfred mais e cheguei a pensar que ele era um ancião que protegia a BatCaverna.

Saímos do outro lado da caverna e o ar livre quase me fez chorar de emoção.

Corri e mostrei a pedra para o Barata, meu amigo da outra aventura arqueológica.

- Segredo hein, Barata!

- Pode deixar.

Não sei até hoje que pedra é, mas me senti mais forte durante um tempo.

Até hoje ela está guardada comigo. Onde? Segredo. E se for, realmente, uma Kriptonita?


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

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