Ali, no
leito de morte dos pais, descobriram que era hora de seguirem suas vidas.
Eram três
descendentes, maiores de idade, solteiros e independentes. Na leitura do
testamento, descobriram que receberiam a herança em dinheiro e que a casa em
que moravam seria destinada, ironicamente, para uma instituição de caridade
para órfãos.
Com
dinheiro em conta, era hora de acharem um lugar para morar e resolveram
construir.
Cícero, o
mais novo, ganhava pouco pois era professor do Estado e era ligado ao governo federal. Assim que
recebeu o montante, adquiriu um apartamento mais simples, através do programa “Minha
Casa, Minha Vida” e guardar o resto do dinheiro.
Heitor, o
filho do meio, era profissional liberal e ligado a oposição do governo federal.
Andava bem vestido, se dizia uma pessoa correta, contra a corrupção e a favor
das pessoas “Não ganharem o peixe e sim aprenderem a pescar”, mas não negava
receber troco a mais na padaria, parava o carro em local proibido, passava na
fila de idosos no supermercado e comprava ingressos nas mãos de cambistas. Por
ser contra o governo federal e achar um absurdo “as esmolas que esse governo dá”,
não gostava do programa “Minha Casa, Minha Vida” e decidiu investir em um
projeto que envolvia uma parceria público-privada para a construção de um prédio.
Já Prático,
o filho mais velho, era influente e possuía amigos tanto no governo federal
como na oposição. Transitava entre os dois grupos e dizia ser amigo de todos.
Por ocupar cargo público e ser amigo de deputados e senadores, disse que não
precisava nem do Programa Habitacional, nem da Parceria Público Privada. Disse
aos irmãos que ia dar seu jeito e seguiu seu projeto em separado.
Cícero
viveu por seis meses na sua casa, mas quando chegou a época de chuvas, um vento
forte derrubou o telhado e fez o apartamento se tornar área de risco. A perícia
da Defesa Civil afirmou que sua casa foi construída com material de terceira
qualidade e que não resistiria aos danos sofridos.
Desesperado,
parou de pagar as prestações e quando percebeu um Oficial de Justiça
acompanhado do Tenente Lobo da PM e com um mandado de despejo, fugiu para a
casa do seu irmão do meio.
Heitor,
que morava em um apartamento na área nobre da cidade, inicialmente não quis
receber o irmão devido a suas posições ideológicas, mas acabou cedendo. Pouco
tempo depois, por um milagre divino, o Ministério Público resolveu investigar
os contratos da PPP firmada e descobriu que não havia licitação para construção
do prédio, além de que o engenheiro que fez a obra era sócio da empreiteira
contratada e da administradora do prédio. A irmã do tal engenheiro tentou calar
a imprensa e abafar o caso, mas um jornal independente publicou e a notícia
vazou.
Desesperados,
Heitor e Cícero não sabiam o que fazer, pois eram os únicos moradores do prédio
e, apesar de acharem suspeito a construtora do prédio não se empenharem em
vender os apartamentos vagos, havia prestações a serem pagas. Quando perceberam
um Oficial de Justiça acompanhado do Tenente Lobo e com um mandado de despejo,
fugiram para a casa do seu irmão mais velho.
Prático,
que morava em um apartamento de luxo na área mais nobre da cidade, inicialmente
não quis receber os irmãos mais novos, mas cedeu. E todos viviam bem.
O Ministério
Público, através de uma denúncia anônima, resolveu investigar o prédio em que Prático morava e
descobriu que havia sido feito através de um financiamento junto ao BNDES. O
contrato havia sido feito com uma empreiteira sem licitação, cujo dono era influente
no Congresso Nacional, e a obra foi superfaturada. Além do “Caixa 2” que beneficiava a
construtora, a empreiteira e a administração do prédio, descobriram que o
dinheiro usado para pagar o BNDES foi retirado do investimento do Projeto
Habitacional “Minha Casa, Minha Vida”.
Cícero
ficou indignado porque descobriu o motivo pelo qual seu prédio era de qualidade
inferior. Heitor jogava a podridão do governo federal na cara do irmão mais
novo e ria da situação.
Logo
depois, descobriram que a mídia só denunciou o caso porque o contrato da obra
do prédio de Prático, cujo dono era ligado ao Congresso Nacional, era pra ter
sido assinado com a construtora e a empreiteira que construiu o prédio de
Heitor, diretamente ligado ao governo estadual e oposição ao governo federal. Uma
terceira empresa, ligada ao governo municipal, reclamou na justiça que a
licitação foi fraudulenta.
Foi a vez
de Cícero jogar a podridão do governo estadual na cara do irmão do meio e rir
da situação. Heitor não aceitava a gozação e ambos não cediam na disputa
esquerda x direita. Por fim, ambos foram presos por perturbação a ordem.
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Prático
ficou desesperado, pois estava envolvido diretamente na fraude das Obras. Mas
diferente dos irmãos recém-presidiários, sabia o que fazer. Ligou para um contato
importante dentro do Poder Judiciário e comprou uma Liminar que impedia
qualquer despejo.
O Oficial
de Justiça, acompanhado do Tenente Lobo da PM, apesar de um mandado de despejo
e de prisão para o Prático, não pode fazer nada. Insistiram, insistiram e não
conseguiam derrubá-lo.
A mídia e
a população logo se esqueceram do caso.
E Prático
viveu tranqüilo pra sempre.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


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