terça-feira, 27 de maio de 2014

Três Porquinhos

Ali, no leito de morte dos pais, descobriram que era hora de seguirem suas vidas.

Eram três descendentes, maiores de idade, solteiros e independentes. Na leitura do testamento, descobriram que receberiam a herança em dinheiro e que a casa em que moravam seria destinada, ironicamente, para uma instituição de caridade para órfãos.

Com dinheiro em conta, era hora de acharem um lugar para morar e resolveram construir.

Cícero, o mais novo, ganhava pouco pois era professor do Estado e era ligado ao governo federal. Assim que recebeu o montante, adquiriu um apartamento mais simples, através do programa “Minha Casa, Minha Vida” e guardar o resto do dinheiro.

Heitor, o filho do meio, era profissional liberal e ligado a oposição do governo federal. Andava bem vestido, se dizia uma pessoa correta, contra a corrupção e a favor das pessoas “Não ganharem o peixe e sim aprenderem a pescar”, mas não negava receber troco a mais na padaria, parava o carro em local proibido, passava na fila de idosos no supermercado e comprava ingressos nas mãos de cambistas. Por ser contra o governo federal e achar um absurdo “as esmolas que esse governo dá”, não gostava do programa “Minha Casa, Minha Vida” e decidiu investir em um projeto que envolvia uma parceria público-privada para a construção de um prédio.

Já Prático, o filho mais velho, era influente e possuía amigos tanto no governo federal como na oposição. Transitava entre os dois grupos e dizia ser amigo de todos. Por ocupar cargo público e ser amigo de deputados e senadores, disse que não precisava nem do Programa Habitacional, nem da Parceria Público Privada. Disse aos irmãos que ia dar seu jeito e seguiu seu projeto em separado.

Cícero viveu por seis meses na sua casa, mas quando chegou a época de chuvas, um vento forte derrubou o telhado e fez o apartamento se tornar área de risco. A perícia da Defesa Civil afirmou que sua casa foi construída com material de terceira qualidade e que não resistiria aos danos sofridos.

Desesperado, parou de pagar as prestações e quando percebeu um Oficial de Justiça acompanhado do Tenente Lobo da PM e com um mandado de despejo, fugiu para a casa do seu irmão do meio.

Heitor, que morava em um apartamento na área nobre da cidade, inicialmente não quis receber o irmão devido a suas posições ideológicas, mas acabou cedendo. Pouco tempo depois, por um milagre divino, o Ministério Público resolveu investigar os contratos da PPP firmada e descobriu que não havia licitação para construção do prédio, além de que o engenheiro que fez a obra era sócio da empreiteira contratada e da administradora do prédio. A irmã do tal engenheiro tentou calar a imprensa e abafar o caso, mas um jornal independente publicou e a notícia vazou.

Desesperados, Heitor e Cícero não sabiam o que fazer, pois eram os únicos moradores do prédio e, apesar de acharem suspeito a construtora do prédio não se empenharem em vender os apartamentos vagos, havia prestações a serem pagas. Quando perceberam um Oficial de Justiça acompanhado do Tenente Lobo e com um mandado de despejo, fugiram para a casa do seu irmão mais velho.

Prático, que morava em um apartamento de luxo na área mais nobre da cidade, inicialmente não quis receber os irmãos mais novos, mas cedeu. E todos viviam bem.

O Ministério Público, através de uma denúncia anônima, resolveu investigar o prédio em que Prático morava e descobriu que havia sido feito através de um financiamento junto ao BNDES. O contrato havia sido feito com uma empreiteira sem licitação, cujo dono era influente no Congresso Nacional, e a obra foi superfaturada. Além do “Caixa 2” que beneficiava a construtora, a empreiteira e a administração do prédio, descobriram que o dinheiro usado para pagar o BNDES foi retirado do investimento do Projeto Habitacional “Minha Casa, Minha Vida”.

Cícero ficou indignado porque descobriu o motivo pelo qual seu prédio era de qualidade inferior. Heitor jogava a podridão do governo federal na cara do irmão mais novo e ria da situação.

Logo depois, descobriram que a mídia só denunciou o caso porque o contrato da obra do prédio de Prático, cujo dono era ligado ao Congresso Nacional, era pra ter sido assinado com a construtora e a empreiteira que construiu o prédio de Heitor, diretamente ligado ao governo estadual e oposição ao governo federal. Uma terceira empresa, ligada ao governo municipal, reclamou na justiça que a licitação foi fraudulenta.

Foi a vez de Cícero jogar a podridão do governo estadual na cara do irmão do meio e rir da situação. Heitor não aceitava a gozação e ambos não cediam na disputa esquerda x direita. Por fim, ambos foram presos por perturbação a ordem.


Prático ficou desesperado, pois estava envolvido diretamente na fraude das Obras. Mas diferente dos irmãos recém-presidiários, sabia o que fazer. Ligou para um contato importante dentro do Poder Judiciário e comprou uma Liminar que impedia qualquer despejo.

O Oficial de Justiça, acompanhado do Tenente Lobo da PM, apesar de um mandado de despejo e de prisão para o Prático, não pode fazer nada. Insistiram, insistiram e não conseguiam derrubá-lo.

A mídia e a população logo se esqueceram do caso.


E Prático viveu tranqüilo pra sempre.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

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