sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Depois do fim...

Saí do elevador, após descer 09 andares, e passei pela roleta me despedindo do porteiro. Mas não foi algo casual. Desta vez, eu usava um crachá de visitante e o entreguei na saída.

Fazia exatamente um ano que tudo tinha acontecido. E eu estava lá de novo.

Visitei o último escritório de advocacia que trabalhei na vida, antes de mudar de profissão para rever minha coordenadora (que é minha amiga) e alguns amigos que ainda estão lá.

É impressionante como cada parede, cada computador, cada lugar ocupado por aquelas pessoas que ainda estão ali, me fazem recordar dos momentos que tive, quando ainda era advogado.

Infelizmente (ou felizmente não sei) não vi minha mesa, pois o andar onde eu ficava foi entregue visando redução de custos. Agora todas as funções do meu antigo andar, estavam agrupadas no andar que minha coordenadora ocupava.

Mas nem era necessário. Basta fechar os olhos que eu lembro da minha mesa. Da minha cadeira. Da disposição dos processos.  Das canetas. Da minha caneca de café. Da minha garrafa d’água. Do meu chimarrão (e sou mineiro hein). Das gavetas. Do meu cofre de moedas dado por uma amiga que sentava ao meu lado.

Lembro de tudo. E acho que se visse alguém ocupando minha mesa, ficaria com ciúmes. Por isso nem me importei nem não ver minha mesa. Nem meu andar.

Independente dos motivos que me fizeram sair daquele escritório, fiquei feliz de estar ali novamente, principalmente pelo fato de perceber o quanto cresci como homem e como advogado pela minha passagem ali.

Entrei lá um jovem advogado achando que o próximo passo seria ser nomeado ministro do STF. Mas não passava de um estagiário mais experiente. E saí de lá mais experiente, mas menos advogado. Porém, mais humano. Mais homem.

Foi lá que eu tive uma equipe para gerenciar. Não sabia nem mandar em mim mesmo, mas tinha que coordenar uma pequena sub-equipe. Foi lá que aprendi que tinha que tomar decisões rápidas e assumir as conseqüências. E que tomar decisões é um ato difícil e solitário. Foi lá que eu aprendi a seguir regras e descumpri-las quando necessário. E assumir minhas atitudes.

Foi lá que eu aprendi que quando o barco começa a afundar é hora de tentar mantê-lo flutuando e não sendo o primeiro a saltar de lá. Foi lá que eu aprendi a me oferecer para fazer serviços que não eram meus para aproveitar oportunidades quando essas aparecessem. E a aceitar tarefas de bom grado para adquirir mais experiências.

Aprendi também que salários atrasam e que devemos nos precaver. Mas não abaixar a cabeça e correr atrás.

Lá vivenciei chegadas e partidas de colegas de trabalho, pela porta da frente e dos fundos, e que atingiam e influenciavam a motivação de quem ficava. Para o bem e para o mal.

Foi trabalhando lá que fiz horas extras sem reclamar. E recebi elogios sem esperar. Aprendi que não se deve entrar na sala da chefe sem pedir. E, às vezes, entrar sem ser chamado. 

Treinei novos contratados. Recebi treinamentos de veteranos. E em todos eles eu aprendi que nada nessa vida é fácil. Mas também não é impossível. Com paciência e dedicação, todos evoluíam lá.

E, se aprendi nos quadrinhos que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, foi naquele escritório que vivenciei este ditado. Assumi prazos que achavam que não cumpriria, mas cumpri. Assumi processos que ninguém achava que daria certo, mas deu. Assumi acordos que achavam que não seriam cumpridos, mas foram. Assumi atitudes de estagiários sem a coordenação saber, mas resolvi os problemas. Enfim, coloquei a cara pra bater, e assumi a responsabilidade por tudo que era da minha alçada. E foi assim o tempo todo, até mesmo quando saí.

Foi lá que descobri que é possível fazer amizades verdadeiras em locais de trabalho. Pessoas em quem se apoiar e oferecer apoio. Que dividiam os momentos de trabalho como Formigas Operárias. Pessoas que, no momento mais difícil, estavam ali do lado. E nos momentos mais alegres também. Pessoas para se levar para o resto da vida. E que justificavam acordar cedo e dividir oito, nove ou dez horas de trabalho nos dias de semana.

Foi lá que formamos um time. Literalmente. E que se reunia mesmo aos sábados. De meio-dia às  duas  da tarde, fora a resenha depois. 
Não é glu-glu ié-ié do Sérgio Malandro não. É que a pelada era cheio de amigos mesmo.

Mas fiz inimizades também. E foram importantes para demonstrar que máscaras caem. Pode demorar, mais sempre caem. Pessoas egoístas, traiçoeiras, que cultivam a podridão humana e puxam tapete às escuras e sorriem falsamente pela manhã. Estas são importantes também, pois me mostraram como eu não deveria ser.

Momentos de alegria e de tristeza. Momentos em que trabalhei com uma equipe de 06 excelentes estagiários. Ou em outras épocas quando tinha apenas 04 bons estagiários. Momentos de certeza de um trabalho bem feito e outros de insegurança.

Porém, tudo foi feito com a melhor das intenções. Inclusive com minha equipe de estagiários.

Queria saber deles. Alguns me irritavam, outros me surpreendiam. Mas todos eram tratados de forma igual, como pais tratam os filhos. Posso ter sido enganado, em algum momento, por alguns deles. Mas não me arrependo. Sempre acreditei no trabalho deles. E quando parecia que não vingariam, sempre pedia a coordenação mais uma chance e eles vingavam.

Enfim, enquanto trabalhei ali, eu vesti a camisa. E me dediquei.

Porém, até hoje, vivi inquieto com uma pequena ironia do destino. Enquanto trabalhei lá, mantive uma pasta no Outlook com os emails de despedida de todos os funcionários que tive o prazer de conviver naquele escritório. Mas, quando saí, não escrevi o meu.

Hoje, enfim, acho que posso colocar esta tarefa como realizada. 

Me despedi do porteiro do prédio como sempre fazia.

Com a consciência em paz e junto com amigos feitos naquele escritório, fui tomar cerveja no melhor buteco do Brasil, como sempre fazia também.

6 comentários:

  1. não sei, mas acho que foi nesse escritório que te conheci, hein? rsrs. e não me lembro se cheguei a escrever e-mail de despedida...

    mas como é engraçado olhar pra trás e ver nosso início de carreira, como as coisas mudaram e como hoje provavelmente vc tá num lugar que vc nunca imaginou que estaria (ainda não somos ministros do stf... rsrs), mas mesmo assim a carreira tá legal. =)

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    1. Foi exatamente lá Rafa! Rsrsrs E tb não sei se teve um email de despedida, mas teve uma despedida no aniversário da chefa! E eu estava lá kkkk

      Pois é. Hj sou funcionário público e vejo o quanto é importante passar por situações como a que passamos naquele escritório. Foi um aprendizado danado.

      Quando tiver em BH me avise viu? Beijos

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    2. FALA GUILHERME,
      EMOCIONANTE CARA!!! UMA BELA DESPEDIDA ATRASADA EU DIRIA!
      RELENDO O QUE VC ESCREVEU CONSEGUI ME IMAGINAR NAQUELES CORREDORES, COM PESSOAS TÃO BACANAS E SEMPRE COM MUITO TRABALHO A FAZER!!! FOI UMA EXPERIENCIA LER SEU TEXTO, SERIO MESMO!
      FORAM BONS TEMPOS PARA TODOS NOS NO FAMOSO SIQUEIRAO!
      E NOSSA PELADA TEM QUE VOLTAR!!!!!
      ESPERO QUE ESTEJA TUDO EM PAZ NA SUA VIDA CARA,
      SE NAO TIVER UM FACEBOOK FAÇA-O E VAMOS MANTER CONTATO

      UM ABRAÇO

      RAFAEL MALOTE!!!!

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    3. É verdade. Não é pq saímos de lá não, mas acho que o escritório era melhor na nossa época. Rsrsrs.

      Mas foi uma grande experiência na minha vida mesmo.

      Quanto a pelada, como disse para o Morgan aqui embaixo, achei um ultraje não me chamarem para a última pelada. Uma afronta! Um disparate! Me sinto como o Cartola que criou a Mangueira e não teve uma homenagem da escola, quando faria 100 anos! kkkk

      Mas se marcarem e me chamarem eu vou! kkkkk

      valeu por entrar no blog. Abraço

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  2. Meuuuuuuu fiiiilhooo ... belo texto!


    Lembro direitinho também da entrevista que fiz com você parceiro ....... foi despojada, mas o papo foi reto ... sem lenga-lenga ...... e no Siqueirão que aprendi a realmente a peticionar a entender de verdade o saneamento do processo.


    E quando tive que substituir a Aline ... vixeee ... ali eu aprendi mesmo a lidar com milhares de processos. Foi uma experiência tão grande, que passei na OAB de primeira, graças ao que eu conseguir aprender no Siqueira, e tá até documentando nos meu agradecimentos no meu convite de formatura.


    E realmente você foi um líder pra galerinha de lá presidente, tanto que depois que vc largou a presidencia da pelada, a mesma foi decaindo aos poucos, até de fato acabar, morreu mesmo....


    Mas é isso aeee ... bola pra frente ... hoje sou eu que estou nesta batalha como advogado, ao mesmo tempo escravizado e apredendendo como as suas sábias palavras:


    "Foi lá que aprendi que tinha que tomar decisões rápidas e assumir as conseqüências. E que tomar decisões é um ato difícil e solitário. Foi lá que eu aprendi a seguir regras e descumpri-las quando necessário. E assumir minhas atitudes."


    Abração mano ....

    Felipe Morgan

    PS: Porrrraaa, volta pra presidencia da pelada meuuuu filllhooooo .....

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  3. É isso aí meu filho! Na pressão é que funciona! E é bom que a gente aprende assim. Na marra. E sendo homem, assumindo tudo que fez.

    E fiquei puto com essa pelada. No jogo de despedida nem me chamaram. kkkkkkkk. Brincadeira. Uma afronta!!

    Valeu por entrar no blog aí! Depois divulga!!

    Abraços

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