segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Desabafo de um viciado


Oi. Meu nome é Guilherme. Estou há 2 dias limpo e gostaria de dizer que ainda sou viciado.

Sim, sou viciado.

E acho que este é o primeiro passo para superar um vício: Admitir.

Admito a todos que tenho este vício. No começo, achava que não era viciado, mas com as crises de abstinência, eu negava. Não queria reconhecer. Assumir isso para todos, seria muito constrangedor. Mas minha família já sabia. Minha mãe desconfiava. Meu pai sempre me dizia que isso é uma praga.

Juro que tentei parar. Mas não consegui.

Meu limite foram 40 dias limpo, mas cai na tentação depois e tive uma recaída forte. E aí, voltei a consumir mesmo. Com força.

Até mesmo na casa da minha namorada eu consumia. Ela brigava comigo, porque a quantidade era excessiva, mas ela não tinha muito embasamento para me julgar, porque também consumia. Aliás, eu penso que ela brigava comigo não pelo meu consumo, mas porque ela comprava pra ela e eu aproveitava do seu estoque particular.

Lembro-me de um dia, quando cheguei em casa, fui correndo para meu quarto e abri minha caixinha com estoque pessoal. Quando abri, estava vazia. E comecei a suar frio, comecei a procurar freneticamente pelo quarto, mas não achei nada. E descobri que meu irmão tinha pegado pra ele.

Um ódio tomou conta de mim e assim que ele chegou em casa, brigamos. Meus pais tiveram que interferir, mas não tinha jeito. Saí de casa para comprar mais e só aí fiquei satisfeito. Mas sentia vergonha disso.

Minha mãe, preocupada com minha saúde, me fez ir a uma médica para avaliar minha condição física e fazer exames. Tentei escapar das perguntas da médica, mas ela sabia que eu mentia. Confessei meu vício e ela disse que eu poderia consumir de início, mas em quantidades menores. Mas se possível, deveria abandonar.

Cheguei a seguir a recomendação médica, mas com o passar dos dias aumentava a quantidade de consumo. Era maior do que eu. Sonhava com isso.

Procurei mudar o layout do meu quarto com objetivo de ilustrar uma mudança de vida, mas sempre arrumava um lugar para estocar, longe dos olhos dos meus familiares. Acho que minha mãe desconfiava quando entrava com uma mochila no quarto e fechava a porta depois, por poucos minutos, e depois fingia que nada acontecia. Logo eu, que sempre deixava a mochila na sala...

Mas eu fazia isso para esconder. Guardar para mim, para aproveitar quando a vontade batia. E como aquilo me fazia bem, pena que dava sede, mas me fazia muito bem.

Quando mudei de emprego, no ano passado, achei que era momento de mudar de vida. Procurei andar com pessoas que acreditava não gostar daquilo. E parecia que eu estava certo.

Criei um hobby para tentar não pensar. Comecei a jogar futebol todos os sábados com companheiros de serviço. Até pensar em criar um blog eu pensei (!!!) e parecia que tudo caminhava para uma solução.

Até que um dia, após um almoço inofensivo, uma pessoa que trabalhava comigo me ofereceu. Eu não acreditava naquilo. Não poderiam fazer isso comigo. O problema é que ninguém sabia do meu vício, não poderia culpá-los. Resisti no primeiro dia. No segundo dia, ao ser oferecido novamente, não consegui resisti. E tive outra recaída.

Acho que este é o problema de todos os viciados: as recaídas. Parece que a vontade de consumir é acumulada e você precisa acabar com aquilo tudo de uma vez.

Em um belo sábado, quando estava sozinho em casa, tudo caminhava para mais uma recaída. Então tive uma decisão. Não vou mentir e dizer que não consumi. Eu consumi sim. Mas fazia parte do plano. Consumi tudo. Todo meu estoque, que não era grande, mas o bastante para satisfazer bem.

Aí entrou a parte dois do meu plano. Assim que acabou, decidi que não ia comprar mais. Usei a minha caixa de estoque para colocar objetos que ficavam espalhados pelo meu quarto para não ter onde guardar. Pegava o dinheiro em que comprava aquilo e comecei a guardar em outra caixa para poder ver o quanto gastava naquilo. E quando completava uma quantia razoável, depositava no banco.

Comecei a sentir orgulho de mim. Eu estava vencendo. Até minha namorada começou a consumir menos. Minhas roupas antigas começaram a servir. Minha mãe percebia que eu estava bem e não alimentava mais aquele vício. Eu estava melhorando a olhos vistos.

Porém, uma reportagem me mostrou que personalidades da TV eram viciadas também. E sofriam com aquilo. O problema foi que aqueles depoimentos me mostravam que era normal sofrer por consumir aquilo. Um dos “globais” chegou a desabafar no twitter. Aí tive mais uma recaída.

Voltando pra casa, estava com um dinheiro no bolso e resolvi comprar. Cheguei em casa não tinha ninguém. Então abri o pacote, e ao sentir aquele cheiro de novo, eu estava feliz. E então consumi de novo.

Percebi que lutar contra aquilo era impossível. Os momentos em que sentia aquele cheiro e aquela sensação eram os momentos felizes. Lógico que não eram os únicos de minha vida, mas fazia parte do rol.

E percebi que eu poderia viver sim, com pequenas quantidades, como minha médica havia recomendado, e que isso não iria me matar.

Hoje, faço esse depoimento para assumir meu vício e para falar que consigo consumir sim um pouco todos os dias. Sei que a quantidade que eu uso não faz mal a saúde e, ao mesmo tempo, me satisfaz.

Alguns podem falar que sou fraco, porque não resisti. Outros vão dizer que isso tudo é uma bobagem, que hoje em dia todo mundo é assim e que existem vários estudos que tratam dos benefícios do consumo na saúde.

Minha mãe aceitou. Meu pai continua falando que é uma praga. Meu irmão nunca devolveu o que consumiu. Minha irmã consume muito. Minha namorada continua comprando pra ela e eu acabo consumindo, sob protestos dela.

Mas hoje estou limpo há dois dias. Mas sei que amanhã vou acabar consumindo. Se bobear, irei usufruir do meu pequeno estoque. Não tem jeito. O chocolate é minha vida. E eu vou ser sempre viciado nisso...

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