O expediente chegou ao fim e finalmente Renato podia ir embora.
Trabalhar dia 26 de dezembro era terrível. O telefone não tocava, o serviço não rendia e a internet no
serviço ainda estava bloqueada. Se bem que
isso não importava para ele.
Aliás, pouca
coisa parecia importar pra ele.
Seu casamento de quase 10 anos não ia bem e
estava perto do fim. Mas as prestações não. Faltava, ainda, 10 anos para quitar o apartamento que morava com
sua esposa. Mais 120 prestações.
O pior é que não estava bem somente com a esposa. Também não estava bem financeiramente.
Seu salário servia apenas para pagar as contas. A de luz, telefone, celular,
internet, prestação
do carro, prestação
do apartamento, prestação do armário
novo da cozinha, plano de saúde, seguro do carro e condomínio. Sobrava apenas R$ 10,00 de tudo que recebia, sendo que R$ 2,00 ele usava pra jogar na
Mega-Sena e resolver seus problemas.
Achou que poderia cortar o cabelo, depois de 4 meses, mas não podia. A metade do Décimo-Terceiro foi todo para as compras de Natal. Se o casamento não tivesse mal,
ele poderia até ter
economizado um pouco, mas preferiu gastar esse pouco incrementando o presente
da patroa que não demonstrou muita excitação.
Até isso era frustante. Nem os presentes de Natal atendiam suas
expectativas.
A outra metade do Décimo-Terceiro estava destinada ao pagamento do
conserto do carro que, finalmente, sairia da oficina depois de três meses. E o azar não era ir esperar o ônibus não.
O problema era chegar em casa. A sogra veio do interior e
estava aqui passando as "férias". Chegou no dia 01 de
dezembro e só iria
embora depois do Carnaval.
Mas ele não se importaria com ela se não fosse aqueles inúmeros cultos que a sogra fazia em casa. Se fossem só orações, Renato agüentava. O problema era a gritaria que o povo arrumava na sala do seu quarto. Isso era demais.
Não bastava seu time que, além de quase ter sido rebaixado, viu seu maior rival disputar o titulo depois de
anos e perdeu seu melhor jogador para um time do Rio de Janeiro.
Mas pelo menos o expediente havia terminado.
Duas horas e dois ônibus depois, ele desceu do ônibus.
Refletiu sobre tudo e achava que podia se dar um luxo. Se dar um presente
de natal. Contou as moedinhas no bolso
e resolveu esbanjar. Foi até o Bar do Bigode, quase na esquina de casa, e pediu duas cachaças.
A primeira
desceu queimando. Mas fez bem. Acendeu um cigarro e esperou um pouco para virar a segunda pinga e ir para sua laje e fumar
seu último cigarro antes de ir dormir.
Só que um cara encapuzado chegou
armado no bar e anunciou o assalto.
Renato não estava nem aí. Virou seu copo
de pinga na mesa com força, já que a segunda ardeu mais que a primeira. O bandido, de costas, se
assustou com o barulho e já virou atirando.
Dois tiros acertaram
o peito e Renato caiu
no chão. Não resistiu e morreu.
A perícia não achou documentos nem
dinheiro. Apenas um
bilhete da Mega Sena.
E estranhou que o defunto estivesse
sorrindo.
Renato, finalmente, tinha ganho na loteria e resolvido seus problemas.

Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha
Porra...muito bom, excelente texto!!!
ResponderExcluirDe mais um gordo nerd-social e atleticano kurdo-xiita!!!