quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Mega-Sena do Natal


O expediente chegou ao fim e finalmente Renato podia ir embora.

Trabalhar dia 26 de dezembro era terrível. O telefone não tocava, o serviço não rendia e a internet no serviço ainda estava bloqueada. Se bem que isso não importava para ele.

Aliás, pouca coisa parecia importar pra ele.

Seu casamento de quase 10 anos não ia bem e estava perto do fim. Mas as prestações não. Faltava, ainda, 10 anos para quitar o apartamento que morava com sua esposa. Mais 120 prestações.

O pior é que não estava bem somente com a esposa. Também não estava bem financeiramente.

Seu salário servia apenas para pagar as contas. A de luz, telefone, celular, internet, prestação do carro, prestação do apartamento, prestação do armário novo da cozinha, plano de saúde, seguro do carro e condomínio. Sobrava apenas R$ 10,00 de tudo que recebia, sendo que R$ 2,00 ele usava pra jogar na Mega-Sena e resolver seus problemas.

Achou que poderia cortar o cabelo, depois de 4 meses, mas não podia. A metade do Décimo-Terceiro foi todo para as compras de Natal. Se o casamento não tivesse mal, ele poderia até ter economizado um pouco, mas preferiu gastar esse pouco incrementando o presente da patroa que não demonstrou muita excitação.

Até isso era frustante. Nem os presentes de Natal atendiam suas expectativas.

A outra metade do Décimo-Terceiro estava destinada ao pagamento do conserto do carro que, finalmente, sairia da oficina depois de três meses. E o azar não era ir esperar o ônibus não.

O problema era chegar em casa. A sogra veio do interior e estava aqui passando as "férias". Chegou no dia 01 de dezembro e só iria embora depois do Carnaval.

Mas ele não se importaria com ela se não fosse aqueles inúmeros cultos que a sogra fazia em casa. Se fossem só orações, Renato agüentava. O problema era a gritaria que o povo arrumava na sala do seu quarto. Isso era demais.

Não bastava seu time que, além de quase ter sido rebaixado, viu seu maior rival disputar o titulo depois de anos e perdeu seu melhor jogador para um time do Rio de Janeiro.

Mas pelo menos o expediente havia terminado.

Duas horas e dois ônibus depois, ele desceu do ônibus.

Refletiu sobre tudo e achava que podia se dar um luxo. Se dar um presente de natal. Contou as moedinhas no bolso e resolveu esbanjar. Foi até o Bar do Bigode, quase na esquina de casa, e pediu duas cachaças.

A primeira desceu queimando. Mas fez bem.  Acendeu um cigarro e esperou um pouco para virar a segunda pinga e ir para sua laje e fumar seu último cigarro antes de ir dormir.

Só que um cara encapuzado chegou armado no bar e anunciou o assalto.

Renato não estava nem aí. Virou seu copo de pinga na mesa com força, já que a segunda ardeu mais que a primeira. O bandido, de costas, se assustou com o barulho e já virou atirando.

Dois tiros acertaram o peito e Renato caiu no chão. Não resistiu e morreu.

A perícia não achou documentos nem dinheiro. Apenas um bilhete da Mega Sena. E estranhou que o defunto estivesse sorrindo.

Renato, finalmente, tinha ganho na loteria e resolvido seus problemas.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

Um comentário:

  1. Porra...muito bom, excelente texto!!!
    De mais um gordo nerd-social e atleticano kurdo-xiita!!!

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