sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Indiana Jones e o Colégio da Perdição


Desta vez, ele tinha se estrepado de vez.

Era a terceira vez que ia para sala da diretoria em menos de dois meses. E enviado pela mesma pessoa. Sua professora de Ensino Religioso.

Não que ele não fosse religioso. Andava sempre com um crucifixo de madeira amarrado no pescoço, presente de quando comungou pela primeira vez. Tudo bem que, futuramente, iria crismar devido às meninas interessantes que faziam aula com ele. A questão não era essa.

A questão com a professora era pessoal.


Ele questionava algumas coisas da Bíblia e ela não aceitava. Afinal, ensinava aquela matéria há quase 50 anos, e não seria aquele pirralho da 7ª série que iria incomodá-la. Já estava sem paciência e resolveu acompanhá-lo até a sala do diretor.

- Chega Professor. Esse menino sempre me contesta.

- Isso é a rebeldia da adolescência. Temos que ter paciência...

- Mas ele sempre me contesta. Sempre! Se fosse só comigo, tudo bem. Mas vem contestar a palavra de Deus? Vem contestar a Bíblia? Isso eu não aceito... Temos que dar uma punição severa. Sugiro que copie o livro de Genesis inteiro... Afinal, estamos em colégio católico. E temos que dar o exemplo.

- Tudo bem. Farei isso. Mas acalme-se.

E a professora deixou o menino lá. E o diretor, para evitar atrito com a professora, atendeu seu pedido e ordenou que o menino copiasse um livro inteiro da Bíblia.

Só que Deus devia estar olhando e ficou com pena do garoto, pois só isso explicaria o fato de o próximo aluno que chegasse à Diretoria fosse o Barata, o grande amigo do rapaz. O seu companheiro de pelada e seu vizinho.

- Meu Deus, você também Bernardo?

- É Barata, Sr. Diretor.

- Que apelido é esse Bernardo. O que foi?

- A professora de Ensino Religioso me mandou pra cá. Falou que era pra eu conversar com o senhor e sofrer as mesmas conseqüências do helege que está aqui.

- É herege.

- É, isso aí.

- Vocês dois hein? Tá. Senta na outra ponta da mesa aí e copia a Bíblia junto com ele.

E então o menino viu que seu amigo estava ali e isso já o confortava. Era como se dividisse o fardo com ele.

Até que o telefone tocou e algo tinha acontecido com a turma de 3º ano. Parece que uma menina estava com calça jeans e não podia. Ou então era alguém fumando no banheiro. Ele não sabia, pois só viu o diretor falando "menina" e "banheiro", mas tinha certeza de que isso era um sinal dos céus, pois o diretor teve que sair correndo pra resolver aquilo.

E lá estavam os dois na sala do diretor. Sozinhos. E o melhor. Com o armário do diretor.

O armário do Diretor estava para os alunos do “ginásio” como a “Arca Perdida” era pro Indiana Jones. Era um objeto de desejo. E abrir e verificar os itens preciosos era o sonho dos aventureiros.

Instalação do Armário do Diretor

Barata foi pra porta e ele correu para o armário. O problema foi que não conseguiu abrir. Para aumentar o desafio, tinha que achar a chave e tinha pouco tempo. Só faltou o chapéu e o chicote (E o medo de cobras). A mochila ele tinha. E estava ali com ele.

Abriu as gavetas com rapidez, mas não achava nada. “Pensa, pensa, pensa”. Tentou a tática da chave embaixo do tapete. Mas não tinha tapetes. Tentou no vaso de plantas, mas também não tinha plantas ali. Até que lembrou-se do seu avô que tinha um armário e a chave ficava em cima dele.

Subiu na cadeira do diretor e tateou o topo do armário. E lá estava ela.

Pulou rapidamente da cadeira e abriu o armário.

Era maravilhoso. Tudo estava ali.

Bolas que o diretor tirou dos alunos. As petecas. Baralhos. Isqueiros. Canivetes. Fitas silver tapes queos alunos usavam nos tênis e nas mochilas. E o prêmio de ouro: as revistas de mulher pelada.

- Anda cara.

Barata gritou e cortou o efeito do canto da sereia. Ele estava hipnotizado com aquilo.

De Indiana Jones, tinha certeza de que tinha virado Robin Hood. Poderia fazer justiça e devolver tudo aos pobres alunos. Seria carregado nas costas e viraria o mais popular do colégio. Todos saberiam seu nome.

Porém, quando encostou no primeiro item, descobriu que era errado aquilo tudo. Para que ser popular? Não podia ser coisa de Deus, como pensou antes. Era a tentação vinda do inferno. Coisa do tinhoso.

E parou para pensar.

- Cara, fudeu. O diretor tá vindo lá no pátio.

“Dane-se. Eu rezo depois e peço desculpas.”

- Vai me avisando, Barata.

Pegou uma bola com o escudo do seu time. Um canivete. Umas três revistas de mulher pelada. Um rolo de silvertape.

- Anda porra! Ele tá no fim do corredor.

E aí, ele achou. O item que todos que já estiveram o mais próximo dali relatavam. O item que ele nunca imaginou que estivesse ali. A lenda do colégio. O Santo Graal. O que lhe daria poderes divinos.

Os formulários de advertência dos alunos. Já assinados.

Era prático. Era só marcar um x e identificar o que o aluno cometeu. Preenchia só o nome do aluno. O resto era x. Nunca imaginou que já estariam assinados.

Ele suou frio. Seria lendário. Todos contariam suas histórias. 

- Caralho cara! Ele tá chegando.

Foi o tempo exato de pegar um bloco desses formulários.

Enquanto Barata fechou a porta devagar, ele trancou o armário e jogou a chave em cima. Mal sentou na cadeira e o diretor entrou quase arrancando a porta.

- Pelo amor de Deus! Que mal que eu fiz para agüentar vocês? Por que meu Deus? Anda, levanta.

Se os dois já estavam suados de tanta adrenalina, agora iriam derreter. Tinham sido pegos.

- Olha, eu vou falar que vocês já acabaram e vocês voltam pra sala. Tenho que levar uma aluna no hospital porque a retardada escorregou no banheiro e bateu a cabeça no chão. Vê se agora vocês tomam juízo viu?

- Tá bom. - O “Indiana Jones” respondeu.

- Mas antes de irem, porque estão suados assim?

- É o calor, diretor.

- Pior que esqueci a janela fechada, né. Bom, mas podem ir.

E os dois saíram.

- Opa, peraí, volte aqui.

Fudeu de vez. E os dois voltaram.

- Sua mochila Guilherme, você esqueceu. Tá pesada hein.

- Obrigado diretor. São os livros.

E enfim saíram da sala e entraram para a história dos aventureiros do Colégio, com essa aventura sendo contada por anos e anos.

E eternizada agora no blog.

Pelo próprio “Indiana Jones”.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


Nenhum comentário:

Postar um comentário