sexta-feira, 1 de março de 2013

Renato e Ivana


Quando eu escutei a música Glass Onion dos Beatles pela primeira vez, um verso ficou na minha cabeça pra sempre. Essa música é feita de vários versos de outras músicas deles e é facilmente decorada por quem é da fã da banda, mas nada martela mais a mente do que a voz de John Lennon dizendo “Nothing is real”.

Digo isso porque tenho a impressão de que nada pode ser real mesmo, pois tem coisas que não tem explicação lógica.

E hoje, quando estava no banco, estava escutando justamente essa música quando meus pensamentos são interrompidos.

- Com licença, o senhor sabe onde está o Renato?

Olhei para o lado e pensei que fosse o doidinho que conversou comigo da última vez que fui ao caixa do banco.

Mas era uma pessoa sem sexo definido. Não dava pra descobrir se era homem ou mulher pelo cabelo. Não estava maquiado. Não tinha peito. Tinha uma barriga razoavelmente grande. Usava calça jeans, camisa pólo e um tênis. E o principal, eu não conhecia.

- Oi?

- O Renato, o senhor sabe onde ele fica?

- Depende. Se for o Russo, tá no céu gravando mais um disco pós-morte. Se for o Gaúcho, tá na praia no Rio. Mas se for o Aragão, pode olhar ali do lado do extintor.

- Hahaha! O senhor é muito engraçado hein. É o Renato que trabalha com a Ivana, na gerência de Pessoas Jurídicas.

- Bom, não sei mesmo.

- O senhor não trabalha aqui?

- Não.

- Achei que trabalhasse.

- É... confunde né? Eu aqui de calça jeans, camiseta e tênis em um banco. Posso passar por qualquer um. Acharam até que eu era o segurança.

- Não... não pela roupa. Sei lá, te vi de óculos e achei que podia trabalhar aqui.

- Pois é. Os óculos confundem né? Até me fantasiei de empregado de banco na última festa que fui.

- Como assim?

- Nada, esquece.

- Sei. Mas enfim, o senhor então sabe onde fica a Ivana?

- Aquela que trabalha com o Renato?

- É. Essa mesmo.

- Sei não... Como te disse antes, não sei onde fica.

- Então você não sabe mesmo onde fica o setor?

Pensei em responder dizendo que “não porra! Não sei onde fica essa merda desse setor” ou então “Na verdade sei, mas não quero te dizer porque em caso de uma guerra mundial eu posso usar essa informação a meu favor”. Mas desisti.

- Não. Infelizmente não.

- Sei. Obrigado de qualquer forma.

- Que isso, não tem de que.

- Ah! O senhor tem telefone?

- Tenho sim. E você?

- Tenho também, mas to sem crédito.

- Sei.

- O senhor pode me emprestar? Quero ligar pro Renato.

- Olha, eu até te emprestaria mas tem uma lei que proíbe pessoas de efetuarem ligações dentro do banco.

- Ah, é mesmo.

- Pois é.

- Como vou fazer pra ligar pro Renato então?

- Tenho uma ideia. Vai lá fora, compra créditos, coloca no celular e liga de fora. O que acha?

- To sem grana.

- É. Então vai ter que ligar pro Renato a cobrar de um orelhão mesmo...

- Ah, acho que posso mandar uma mensagem de celular a cobrar pra ela né?

- Pra ela quem?

- Pra Ivana.

- Boa ideia.

- Só que to achando engraçado o número de telefone dela. Acho que tem um número a mais.

- Deixa eu ver.

Peguei o papel que estava na mão dessa pessoa.

E estava escrito:


“IPVA NAH-0645

847490075 – RENAVAM

876,34”


- Ah... Já sei onde você vai encontrar a Ivana. Tá vendo aquela mocinha lá fora com a jaqueta “Posso Ajudar?”? Então. Pergunta pra ela que vai te ajudar.

- Já perguntei.

- E aí?

- Ela mandou vir aqui e ir ao caixa.

- É, infelizmente não vou poder te ajudar. Faz assim, pode passar na minha frente. 


E deixei a pessoa ir ser atendida antes de mim.

Não sei o que responderam pra ela. Quando a chamaram, logo em seguida foi a outro caixa. Só precisava pagar uma conta e fui embora em seguida.

Saí do banco e fui pro trabalho, e mais do que nunca me lembrei do John Lennon.

Não poderia ser real.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

Nenhum comentário:

Postar um comentário