Quando eu escutei a música Glass Onion dos Beatles pela primeira
vez, um verso ficou na minha cabeça pra sempre. Essa música é feita de vários
versos de outras músicas deles e é facilmente decorada por quem é da fã da
banda, mas nada martela mais a mente do que a voz de John Lennon dizendo “Nothing is real”.
Digo isso porque tenho a impressão de que nada pode ser real mesmo, pois
tem coisas que não tem explicação lógica.
E hoje, quando estava no banco, estava escutando justamente essa música
quando meus pensamentos
são interrompidos.
- Com licença, o senhor sabe onde está o Renato?
Olhei para o lado e pensei que fosse o doidinho que conversou comigo da última vez que fui ao caixa do banco.
Mas era uma
pessoa sem sexo definido. Não dava pra
descobrir se era homem ou mulher pelo cabelo. Não estava maquiado. Não tinha peito. Tinha
uma barriga razoavelmente grande. Usava calça jeans, camisa pólo e um tênis. E o principal, eu não conhecia.
- Oi?
- O Renato, o senhor sabe onde ele fica?
- Depende. Se for o Russo, tá no céu gravando mais um disco pós-morte. Se for o Gaúcho, tá na praia no Rio. Mas se for o Aragão, pode olhar ali do lado do extintor.
- Hahaha! O senhor é muito engraçado hein. É o Renato que trabalha com
a Ivana, na gerência de Pessoas Jurídicas.
- Bom, não sei mesmo.
- O senhor não
trabalha aqui?
- Não.
- Achei que trabalhasse.
- É... confunde
né? Eu aqui de calça jeans, camiseta e tênis em um banco. Posso passar por qualquer um. Acharam até que eu era o segurança.
- Não... não
pela roupa. Sei lá,
te vi de óculos e
achei que podia trabalhar aqui.
- Pois é. Os óculos confundem né? Até me fantasiei de empregado de
banco na última festa
que fui.
- Como assim?
- Nada, esquece.
- Sei. Mas
enfim, o senhor então sabe onde fica a Ivana?
- Aquela que trabalha com o Renato?
- É. Essa mesmo.
- Sei não...
Como te disse antes, não
sei onde fica.
- Então você não sabe mesmo onde fica o setor?
Pensei em responder dizendo que “não porra! Não sei onde fica essa merda desse setor” ou então “Na verdade sei, mas não quero te dizer porque em
caso de uma guerra mundial eu posso usar essa informação a meu favor”. Mas desisti.
- Não.
Infelizmente não.
- Sei. Obrigado de qualquer forma.
- Que isso, não tem de que.
- Ah! O senhor tem telefone?
- Tenho sim. E você?
- Tenho também, mas to sem crédito.
- Sei.
- O senhor pode me emprestar? Quero ligar pro Renato.
- Olha, eu até te emprestaria mas tem
uma lei que proíbe pessoas de efetuarem ligações dentro do banco.
- Ah, é mesmo.
- Pois é.
- Como vou fazer pra ligar pro Renato então?
- Tenho uma ideia. Vai lá fora, compra créditos, coloca no celular e liga de fora. O que acha?
- To sem grana.
- É. Então vai ter que ligar pro
Renato a cobrar de um orelhão mesmo...
- Ah, acho que posso mandar
uma mensagem de celular a cobrar pra
ela né?
- Pra ela quem?
- Pra Ivana.
- Boa ideia.
- Só que to
achando engraçado o número
de telefone dela. Acho que tem um número a mais.
- Deixa eu ver.
Peguei o papel que estava na mão dessa pessoa.
E estava escrito:
“IPVA NAH-0645
847490075 – RENAVAM
- Ah... Já sei onde você vai encontrar a Ivana. Tá vendo aquela mocinha lá fora com a jaqueta “Posso Ajudar?”? Então. Pergunta pra ela que vai te ajudar.
- Já perguntei.
- E aí?
- Ela mandou vir aqui e ir ao caixa.
- É, infelizmente não vou poder te ajudar. Faz assim, pode passar na minha frente.
E deixei a pessoa ir ser atendida antes de mim.
Não sei o que responderam pra ela. Quando a chamaram, logo em seguida foi a outro caixa. Só precisava pagar uma conta e fui embora em seguida.
Saí do banco e
fui pro trabalho, e mais do que nunca me lembrei do John Lennon.
Não poderia ser real.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

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