sexta-feira, 22 de março de 2013

Na fila


Já estava na fila há 04 horas, mas resistia bem.

O problema não era a dor nas pernas, o cansaço físico, a vontade de ir no banheiro ou a fome que apertava. Isso era contornável.

O que atrapalhava mesmo era a gritaria.

Já não agüentava mais ficar ali, com os ouvidos na linha de frente de tantas vozes que deviam atingir uns 1000 decibéis com os gritos e o histerismo.

Porém, agradecia por eles serem conhecidos somente ali, naquela cidade do interior, pois se saíssem, não voltariam mais.

E como isso machucaria não só a ela, mas a todas que estavam ali, gritando, com dinheiro contado, passando pelas mesmas dores, vontades e angústias.

Tudo para comprar um disco.


Mas não era qualquer disco. Era O disco. O primeiro disco deles.

Enquanto estava ali, na fila, se lembrava da primeira vez que ouviu a música deles na rádio. O quanto foi instantâneo aquele sentimento. Aquela batida nunca ouvida. O trio de vozes mágico.

Quando saiu o primeiro single, comprou o disco sem problemas e pode ouvir as duas músicas até quase “furá-lo”. Depois, já no segundo single, já enfrentou filas pra comprar, afinal, com o primeiro, alcançaram o primeiro lugar no país.

E agora, era um álbum, com as 4 músicas anteriores e 10 músicas inéditas! 10!

Mal sabia que há pouco mais de 1 ano, ia ao bar pra vê-los tocar e pode ver como enchia cada dia mais. E agora, virou aquele pandemônio.

Porém, graças à Deus, não saíram daquela pequena cidade. Mas algo dizia que não teria muito tempo junto com aqueles quatro rapazes.

A loja ainda não tinha aberto, mas já se ouviam alguns boatos. Alguns diziam que um outro baterista gravou duas músicas, no lugar do nosso baterista. Falavam que quase um deles desmaiou de tanta dor de garganta, mas que gravou até o fim, inclusive tendo que esguelar na última música do disco.

E falavam que eles gravaram essas 10 novas músicas em 12 horas! Como será que conseguiram?

Porém, a gritaria aumentou quando a loja abriu.

Ela correu, junto com outras centenas de garotas atacando as prateleiras.

Pegou o disco, correu para o caixa e depois foi correndo pra casa para ouvir, sem sabe que escutaria aquele disco centenas de vezes.

Mas aquele 22/03/1963 nunca mais seria o mesmo.

Nem para as fãs da banda, nem para a história da música.



PS: Post em homenagem aos 50 anos da gravação do disco “Please, please Me”, completados hoje, dia 22/03/2013.

PS2: O portal do jornal O Globo elaborou uma reportagem especial sobre a data, inclusive com clipe e história de todas as músicas do disco. A reportagem está aqui.Imperdível.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


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