Renato Damasceno, ou melhor, Bidu, sempre foi craque.
Desde pequeno, quando jogava nos campos da favela onde morava, se destacava entre os garotos da sua idade. Era rápido, baixinho e dava dribles fantásticos em pequenos espaços.
Com apenas 12 anos, Bidu jogava
com os garotos de 16 anos, já que não tinha
muita graça jogar com os meninos da sua idade.
Rapidamente foi descoberto por um olheiro de um clube da pequena cidade onde morava, conseguindo uma bolsa de estudos
para estudar em um colégio, onde com 13 anos era titular absoluto do time da escola, junto com outros meninos de 17 anos.
Com 16 anos, assinou o primeiro contrato e foi
treinar com os juvenis. Já no
primeiro jogo, fez 4 gols, deu passe pra outro gol e sofreu um pênalti, que não quis bater.
Porém, sua carreira no juvenil durou 1 jogo apenas e logo Bidu
subiu para o time júnior.
Em 01 ano, foi campeão de todos os torneios que disputou, sendo artilheiro
em todos eles e chamou a atenção do time da capital.
Bidu fez parte do Inesquecível Hortolandia de 2007. Está agachado ao lado do Bocão e do Jandirlei Pé-de-chumbo.
Com apenas 18 anos, Bidu foi contratado com salários de 200 mil reais por mês, carro importado.
- Bidu, vem cá meu filho.
- Pois não professor.
- Seguinte. Você vai ser relacionado pro jogo de domingo, só que vamos
ter que mudar esse nome aí. O presidente
não gosta de Bidu e vamos te inscrever como Renato Damasceno.
- Professor, mas eu não gosto desse
nome. Esse sobrenome é do meu pai e ele f...
- Renato, não tem escolha. A inscrição já foi feita. Bidu já era.
E o tal do Renato Damasceno entrou com 20 minutos do 2º Tempo.
Só que não foi bem. Errou todos os passes, perdeu um gol feito e ainda tomou
amarelo.
O que é natural para um estreante.
O problema é que Renato não jogou nada nos outros 20 jogos. Sempre que entrava era
vaiado e acabou preterido do time pelo técnico e voltou a
treinar com a base.
Mas nem nas categorias de base houve alguma melhora e Bidu treinou em
separado e não era sequer relacionado.
Até ser negociado como moeda de troca para um time de Goiás e no primeiro dia foi treinar com o grupo.
- Seu nome, filho.
- Bidu.
- Bidu é apelido.
- Mas gosto de Bidu.
- Mas preciso do seu nome.
- Renato Damasceno.
- Ah, você é aquele
moleque perneta que não vingou né? Mas tudo bem, tranquilo.
- Professor, posso jogar com o nome de Bidu?
- Claro. Nem ligo pra nome.
E Bidu renasceu. Todo jogo tinha gol. Às vezes, mais de um. Subiu para o profissional novamente e deslanchou. Foi campeão estadual e quase classificou seu time para as semi-finais da Copa
do Brasil.
Com a mídia ao seu lado de novo, Bidu foi chamando cada vez mais atenção. E cada vez jogava mais. O
que rendia mais espaço, e por tabela, melhorava mais ainda.
Um dia deu entrevista no Esporte Espetacular e a reportagem proporcionou
um encontro com o seu primeiro técnico, Paulinho Índio, que falou maravilhas sobre o jogador. Os repórteres ainda levaram o técnico para o estádio.
E Bilu jogou demais nesse dia. Fez duas assistências e um golaço, driblando meio time, deu um chapéu no goleiro e tocou pra rede.
Golaço! De placa! Torcida eufórica! Repórteres pedindo o
jogador na seleção! Técnico feliz! Empresário do atleta fazendo contas....
O problema foi que para homenagear o primeiro técnico, Bidu comemorou o gol imitando um índio, usando um arco e
flecha invisível, que disparava a flecha
para fora do estado.
Alguns comentaristas da TV criticaram fervorosamente o jogador. Falavam que era apologia a violência. Outros afirmaram que o craque fez
isso apenas para debochar da situação da
tribo dos Carijós que
estava em conflito armado no sul de Rondônia.
A Revista Veja chegou a criticar o jogador, durante a
semana, alegando que o governo da Dilma estava usando o artilheiro para atrair votos dos indígenas em plena campanha
eleitoral antecipada.
A Folha de São Paulo elaborou um grande infográfico demonstrando a crise indígena no Brasil, desde o descobrimento por Cabral até a situação atual da prostituição das índias da tribo dos Guaicurus.
A Globo usou o tira-teima e demonstrou que a “força invisível” utilizada no “arco invisível”, dispararia uma “flecha invisível” a 240km e,
pela parábola que a
flecha descreveria, atingiria o prédio do governador do estado que é suspeito de lavagem de
dinheiro e uso da máquina
pública, fazendo o
jogador dar inúmeras entrevistas sobre a verdadeira vontade. Só que a Rede Record fez uma reportagem denunciando
que a Globo estaria envolvida com o suposto esquema do governo e criticou o jogador, alegando que o
mesmo está possuído pelo demônio e é manipulado pelos repórteres globais, tendo em vista que na verdade o terreno do prédio do governador foi construído
em cima de um antigo cemitério indígena.
Então, os programas esportivos começaram a criticar Bidu, alegando que o mesmo teria preconceitos contra índios, desrespeitando a história do país, além de estimular a violência contra a
população silvícola.
O Guaraná Antártica,
patrocinador do clube, não gostou e rescindiu contrato com o
clube, alegando que a
imagem da empresa
estava desgastada, já
que as vendas caíram depois das reportagens.
Com isso, o jogador foi vendido pra um time da capital
de São Paulo, que insistiu em chamar o jogador de Renato “Bidusceno”. O jogador então,
nunca mais conseguiu
repetir o mesmo
futebol, o que o levou a depressão e abandonar o esporte.
Hoje ele trabalha de faxineiro, ironicamente, no
Guarani de Campinas, o famoso Bugre.
**Texto fictício.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


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