quarta-feira, 10 de abril de 2013

O espírito do Pão de Queijo


Dia desses fui a padaria ao lado do serviço buscando aquele pão de queijo nosso de cada dia.

Entrei na padaria e pedi doispãdequejpálevá (dois pães de queijos para levar, para quem não fala mineirês) e aguardei a simpática atendente embrulhar o pedido.  

Porém, como já dito aqui e aqui, eu atraio atendentes que fariam inveja ao Barrichello. Imagino até a sorte da família dessa moça, recebendo ovos de páscoa durante as festas juninas, ou as pobres crianças recebendo a visita do Papai Noel em plena segunda de carnaval ou a própria moça vestida de diabinha, com confetes e serpentinas na mão, enquanto as pessoas malham o Judas no Sábado de Aleluia.

E nesse ritmo baiano, estava aguardando os pães de queijo e olhando o preço do Toddynho e me indagando o porque que a Dilma ainda não decretou que vendê-los sem canudo é crime  hediondo quando visualizo, pelo vidro do freezer, uma pessoa de cabelos grisalhos, compridos, com nariz grande e com um capa preta se arrastar e aproximar de mim.

Obviamente, senti um frio na espinha.

- Com licença.

- Pois não.

- Posso falar com você? (era bem parecido com a foto acima)

- Não, na verdade não quero nenhuma maçã não. Aliás, nem suco de maçã viu?

- Oi?

- É. É porque não gosto de veneno sabe? Acho que é alergia...

- Moço, não tem nada disso. Queria te convidar para fazer uma oração.

- Eu não gosto de maçã. É uma Oração Subordinada Adversativa Negativa.

- Err.. Não to entendendo moço. Você tá bem?

- Tô, quer dizer, acho que to. Na verdade eu to com fome. Tenho até que buscar meu pão de queijo ali.

- Você não tá bem. To vendo nos seus olhos que não está bem.

- Isso é sono mesmo. Tá vermelho assim porque dormi pouco. Não é nada que você tá pensando viu?

- Eu sei. É na sua áurea. Ela tá pesada.

- É, to meio gordo mesmo. Mas já emagreci 1 kg em 1 mês...

- Não é isso menino. Você está com áurea negativa. Posso fazer uma oração? Vou invocar alguns antigos espíritos pra te ajudar...

- Munrá?

- Oi?

- Você é o Munrá? Vai invocar os antigos espíritos do mal pra transformar essa forma decante em Munrá? Eu sei que to meio encurvado, cansado, olhos fundos mas não é necessário.

- Menino, isso é droga?

- Já disse que dormi pouco e por isso o olho tá vermelho...


Eu já estava quase pegando um pão qualquer e gritando “Thunder, thunder, ThunderCats” ou pedindo visão alem do alcance com uma bisnaga entre os olhos, mas o dono da padaria chegou.

- Batoré! Sai fora, deixa o rapaz.

- Mas mestre, ele tá possuído. Tá com demônios mestre!

- Eu sei, eu tomo conta dele. Pode ir...


E do mesmo jeito que entrou, o tal Batoré saiu. Arrastando uma perna e com a capa preta até os pés. Ainda virou o rosto novamente para mim, mas olhei para o vidro do freezer com medo de ser petrificado.

- Desculpe Guilherme. Esse é um doido que vem aqui buscar pão. Cisma que é bruxo e que vai invocar espíritos. Repara não.

- Que isso Valdemar, tá tranqüilo.

Quando olhei para a atendente (que havia acabado de embrulhar os pães de queijo) ela me observava com olhos arregalados e assustados.

- Esse povo é doido né? – perguntei a ela.

- É.

Peguei o pacote, agradeci e saí da padaria com a certeza de que a atendente não sabia quem era o doido da história: eu ou o Batoré.

E depois, pensando friamente, nem eu sabia.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

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