sábado, 20 de abril de 2013

O texto que não foi escrito


Viajando um dia desses eu vi uma mulher loira de casaco branco e que chorava muito no avião. Não sei o que aconteceu com ela, mas pensei muito em escrever uma crônica que chegasse até ela e que, se não a fizesse sorrir, pelo menos a fizesse parar de chorar.

E desejei escrever essa crônica ali mesmo no avião. Provavelmente começaria o texto explicando a situação, algo como "viajando um dia desses eu vi uma mulher loira de casaco branco e que chorava muito" e discorreria sobre os motivos que me levaram a escrever esse texto.

Possivelmente iria contar de algum fato ocorrido no vôo como possível explicação para aquele choro, como o menino que devia ter umas 18 pilhas duracell no corpo e que não parava de gritar ou de pular na cadeira do avião, pois esse foi um motivo que quase me fez chorar. Ou então o fato do comissário de bordo chamar Wasclinelson o que quase me levou as lagrimas, mas dessa vez de tanto rir.

Depois desse introdução, eu acho que falaria sobre o fato dela ter me chamado a atenção não ser só de um choro, mas o fato dela estar abraçada com um outro casaco, como se fosse um travesseiro, e a aquilo que escorria do seus olhos aparentava estar carregado de uma dor insuportável.

E pensando em escrever pra ela, iria imaginar um possível dialogo, com certa dose de humor, com o objetivo de que conseguisse pelo menos verificar se ela tinha dentes, já que sua boca só se contorcia com a dor.

- Moça, com licença. Eu sei que voar pela GOL é terrível e agora eles não dão nem aquela barrinha de cereal seca com Pepsi quente, mas acho que chorar por causa disso não vai fazer voar pela American Airlines.

Mas aí vi que eu não saberia como ela iria responder. Ela poderia rir, poderia me mandar a merda, até mesmo me dar um tapa ou podia simplesmente ser educada e dizer que eu não tinha nada a ver com ela.

E desisti de querer imaginar esse dialogo, pois realmente eu não tinha nada a ver com isso. Ela teria todo o direito de me tratar do jeito que quisesse. E me foquei apenas em imaginar uma futura crônica sobre aquele momento.

Essa crônica não escrita que chegaria até ela, surpreendentemente a faria sorrir. Ela iria gostar e mostrar para sua vizinha de poltrona. As duas desceriam no seu destino e contariam para o motorista do taxi que fez a corrida do aeroporto até o hotel.

A menina que chorava esqueceria das lágrimas e sorriria mais. E contaria cada vez sobre aquela crônica que a fez feliz. Até que algum amigo dela divulgasse a crônica nas redes sociais e o texto ganhasse fama. Mais pessoas que estivessem chorando leriam e as lágrimas delas também secariam.

Essa crônica ficaria famosa, ao ponto de alguém comentar comigo se eu havia lido aquele texto que havia feito as pessoas pararem de chorar. Eu iria dizer que tinha ouvido falar e manteria o anonimato da autoria, preferindo falar que eu ouvi um cara dizer na rua que um amigo dele tinha ouvido falar do texto que faziam as pessoas pararem de chorar.

No fim, de tanto pensar naquela crônica e de pensar no possível sucesso que ela faria, eu comecei a chorar de emoção. E tudo por causa daquela mulher loira de casaco branco que chorava muito no avião.



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