Ela tinha casa, carro, família (completa: pais, marido e
filhos), amigos e um bom emprego.
Era feliz, realizada e boa chefe. Só tinha uma frustração na
vida: Não ter sido atriz.
Apesar de tímida, sempre participava das peças de teatro da escola.
Tudo bem que entrou na turma por causa de um menino que achava lindo, mas lá
descobriu que, como atriz, poderia viver a vida de outra pessoa, pelo menos por
um instante, e escapar dos seus problemas. Mas infelizmente, não conseguiu resultados
consideráveis.
Talvez, por isso, desenvolveu a habilidade de mentir e,
ironicamente, é advogada. Não que minta o tempo todo, mas gosta de contar
pequenas histórias, não tão verídicas, sobre si mesma.
Mas não pense que ela tira vantagem. Longe disso.
Ela diminui suas posses apenas para se sentir mais próxima
do povo. E uma das manias que adquiriu era tomar café na padaria para contar
suas histórias.
Até o dia em que ele começou a trabalhar lá.
Era dono de um sorriso lindo, um cabelo lindo (apesar de
preso dentro de uma touca) e olhos cor de mel. Ria fácil, com uma gargalhada
contagiante.
Todos os dias, ela pedia um misto-quente e um copo de café e
conversava com ele. Na hora de ir embora, pedia um pão de queijo pra viagem. E
então ia pro caixa pagar e ia trabalhar.
Contava que tinha um noivo, porém nunca contou que era
advogada e que morava bem, relatando a versão de que estava lanchando ali depois
de 1 hora de ônibus e ele achava que realmente ela havia parado somente pra
tomar café e que mais meia hora de ônibus já estaria no serviço.
Tinham várias coisas em comum. Torciam para
o mesmo time, tinham parentes chamados Cláudio, ambos gostavam de Beatles e já
tinham ido passar carnaval no Rio de Janeiro. A única divergência era sobre o
Roberto Carlos. Ele gostava, ela odiava. O fato é que sabiam um da vida do
outro e talvez por isso, a relação foi se consolidando.
Até aquele dia.
- Olha, deixa eu ir. Pega aquele pão de queijo, por favor.
- Não senhora. Aquele é o último.
- E daí?
- Se pegar o último, não vai casar.
- E o que que tem?
- Não se importa com isso?
- Não.
- Ótimo, não quero que você case mesmo.
E então essa frase não saiu da sua cabeça. Será que a
relação tinha avançado demais? Será que estavam confundindo as coisas? Afinal,
ele tinha namorada.
Chegou ao serviço e contou o caso da “amiga” dela que tinha
contado essa história e que essa mesma amiga estava na dúvida. As amigas
disseram que ele estava dando em cima mesmo. Os colegas de trabalho falaram que
ele só queria sexo e pediram o telefone dessa tal amiga.
Não era possível que estava tão confusa com algo tão banal.
Conversou com seu noivo, contando a versão de que aquilo era
de uma amiga de serviço.
- Mas e daí? O que importa?
- Uai amor, ela quer saber se o cara tá dando em cima dela.
- Faz diferença?
- Claro. Isso é complicado.
- Porque? Se sua amiga não gostava dele qual o problema dele gostar dela?
Pronto. A confusão havia piorado. Afinal, seu noivo tinha
razão. Se ela não gostava dele qual o problema? Porém, a dúvida era. Ela
gostava dele?
No outro dia, ao ir tomar café, tentou reparar nos atos do
rapaz.
Mas não conseguiu descobrir nada. Ele parecia ser apenas
gentil. Apesar de sempre sorrir só pra ela, dobrar o queijo só pra ela e pegar
o pão de queijo mais branquinho pra ela.
Fora isso, e o sorriso que ele esboçava pra ela, não havia
nada demais.
Mas aquilo foi piorando e a angústia só aumentando.
Até que tomou uma decisão.
Não poderia mais viver aquela mentira. Afinal, era noiva de
um cara que amava demais. E aquilo ali era pra ser apenas um mundo a parte, em
que era secretária de uma empresa, não podendo confrontar com o mundo real.
Era hora de conversar com ele.
Ensaiou o discurso, e, inconscientemente, se produziu para a
conversa, com um decote generoso.
Chegou à padaria 10 minutos mais cedo, pois achava que ia
demorar, até mesmo porque não podia deixar aquele sentimento crescer. Aquilo
tinha que terminar naquele dia.
Mas ele não estava lá.
Conversando com os outros funcionários da padaria, descobriu
que ele havia pedido demissão para tentar a vida em São Paulo.
E como ele pode ir embora sem se despedir? Como teve coragem
de não pedir conselhos sobre a vida em outra cidade? Como não dividiu com ela o
que sentia de verdade?
Mas o que mais lhe deixou arrasada foi o fato de que nunca
teria respostas para as dúvidas que tinha. Será que ela gostava dele? Será que
dariam certo?
Fato é que nunca mais comeu um misto com queijo duplo, um
café no ponto certo e aquele pão de queijo branquinho.
Nunca mais viveu num mundo de mentiras, apesar de sempre se
lembrar da beleza da vida falsa que levava.
Todas as dúvidas dela permaneceram, mesmo após seu
casamento.
Só restava uma certeza: realmente, ela odiava o Roberto
Carlos.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


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