Não gosto de festas juninas.
Tudo isso por causa de uma festa. E me lembro dela como se
fosse há 15 anos.
Eu tinha apenas 15 anos, mas apesar de novo, convivia com
pessoas mais velhas que eu.
Minha referência/amizade familiar era meu primo, 4 anos mais
velho do que eu, já que meus irmãos são mais novos.
Na escola não era diferente. Eu tinha grandes amigos, sendo
que dois eram dois anos mais velhos que eu, um era um ano mais velho e o outro
era 7 dias mais novo. Ou seja, o cargo de caçula do grupo era dividido entre eu
e este último.
Mas naquele dia, eu era o mais novo. O Júnior. O Bebê. O
Cheira-leite da turma.
Estávamos saindo do shopping, onde assistimos “Star Wars I –
A ameaça fantasma” no cinema, lanchamos no McDonalds (na época a promoção do
Big Mac era R$ 5,95) e gastamos incríveis R$ 10,00 em fichas de fliperama. Depois
de todo este gasto, estava na hora de irmos embora para o conforto de nossos
lares e rumamos para o ponto de ônibus.
Porém elas apareceram.
Eram 4 meninas, adolescentes como nós, que estavam esperando
ônibus no mesmo ponto.
Estávamos discutindo sobre Jar-Jar Binks, os Pods e tudo mais
do filme, quando somos interrompidos.
- Vocês não querem passar o telefone de vocês não?
Essa frase, dita por uma das meninas, nunca saiu da minha
cabeça.
Até porque foi assim, direta, sem frescuras, com a firmeza
de uma decisão sábia, direcionada a um grupo de quatro meninos que cochichavam
entre si e faziam campeonato de arroto.
- Claro. Anota aí.
E um dos meus amigos passou o telefone dele pra menina.
- Então, vai ter uma festa junina na minha casa semana que
vem, vocês poderiam ir. Todos vocês.
A menina ainda chamou a gente pra sair. Aquilo era melhor
que se o Natal fosse antecipado.
- Claro, estaremos lá.
Pronto. Challenge Accepted.
Passamos a semana tirando onda no colégio. Havíamos sido
chamados para a festa. Esse amigo meu que passou o telefone para as meninas e
que aceitou o convite da festa, era nosso Relações Públicas e todos os contatos
com as eram realizados por ele.
Com a festa confirmada, deu-se inicio as preparações.
Um deles furou a orelha e meteu um brinco. Outro raspou a
cabeça para ficar mais estiloso, conforme ele mesmo disse à época. Do nosso
grupo de quatro pessoas, dois compraram roupas novas.
Da minha parte, não fiz nada. Não que eu não precisasse e
fosse o garanhão, pois só tinha obtido êxito uma vez, já contada aqui.
Eu apenas rezei.
Rezei apenas para que a festa fosse boa, porque vocês não
imaginam o que passava na época.
Como já disse, eu era o mais novo dos quatro que estavam
indo naquela festa. Isso significava que todos tiravam onda de “quase terem 18
anos”. Eu tinha apenas 15.
Outro fator é que eu era o mais baixo. E o único que usava
óculos. Além de possuir mais espinhas que um cacto e ser mais magro que o TripaSeca do Chapolim. Meu hobby era jogar RPG e Xadrez com o outro menino (7 dias
mais novo que eu) e assistir “Star Wars”, “Indiana Jones” e “De volta para o Futuro".
Sem contar que era o mais pobre deles.
Ou seja, nessa época, eu exercia sobre as mulheres o mesmo
poder de atração que uma mosca varejeira.
E o problema não era só o meu biótipo, mas o deles era
altamente favorável. O mais velho de todos tinha olho azul, cabelo liso e era
estiloso, andava com as melhores roupas e era bem carismático.
O segundo mais velho era loiro e mais forte. E o terceiro
tinha mais dinheiro, era o mais alto e também era forte.
(Ok, eu sei que você está se perguntando como que eu era
amigo deles e eu juro que não sei)
Mas como disse lá em cima, rezei para que a festa fosse
animada, porque eu sabia que não teria nenhum sucesso mulherísticamente
falando.
E então, a festa chegou.
Estávamos em território inimigo, pois havia colegas do
colégio delas, que nos olharam como se fossemos forasteiros sem lei, invadindo
a cidade deles como nos filmes de faroeste.
Chegamos, cumprimentamos as meninas e começamos a aproveitar
a festa.
E com 40 minutos de festa eu já estava sozinho.
O mais velho (de olho azul) já estava dançando com uma
menina, o loiro já estava beijando outra e o mais forte foi dar em cima de
outra.
E numa festa estranha, com gente esquisita, não tava legal e queria era birita.
E numa festa estranha, com gente esquisita, não tava legal e queria era birita.
Não restou alternativa a não ser beber e fui para o
“Saloon”, óbvio.
- Me dá a bebida mais forte que você tem aí.
- Que foi moleque?
- Nada, tem coca?
Sentei em um banco, acompanhando de um copo de Coca, e
comecei a imaginar quando seria servido a canjica e o cachorro-quen..
- Posso sentar aqui?
E então, por um milagre divino, uma menina sentou ao meu
lado, interrompendo meu pensamento.
- Pode.
- Festa bacana né?
- Ô.
Eu era meio monossilábico mesmo.
- Você é amigo dos meninos?
- Sou.
- Legal.
- Você é amiga da Carol também?
(Sim, eu sabia elaborar frases também).
- Sou.
- Bacana.
- ...
- Camiseta legal essa sua. O que significa?
(Era o auge. A menina, além de bonitinha, havia reparado na
minha camiseta)
- Ah, tá em inglês. Significa “Quando você realmente vai
pensar sobre paz?)
- Bacana hein.
- Pois é. Ganhei.
- A camisa é bonita mesmo. E então, aquele dia no shopping
vocês foram ao cinema?
- Sim, fomos assistir “Star Wars, a Ameaça Fantasma” (eu
disse, olhando pro chão e desejando que um sabre de luz cortasse minha cabeça de
tanta vergonha)
- Ah, não gosto muito. Gosto mais de Indiana Jones.
- Sério? Eu também.
(Meus olhos quase lacrimejaram)
- Você tem um sorriso lindo sabia?
- ....
Pronto. Não sei explicar porque, mas foi isso que respondi.
- ....
A menina não disse mais nada. Olhei para o chão de novo, ela
para o lado, e exatos 60 segundos depois, uma das amigas a chamou.
No fim da noite, eu a vi, beijando meu amigo mais alto. O de
olho azul beijou uma menina também e o loiro estava apaixonado pela Carol, dona
da festa, inclusive começaram a namorar no mesmo dia.
Fui embora pra casa, sozinho, com a plena sensação de
fracasso, já que tinha a certeza de que havia falhado – e até hoje eu sei disso
– feio e sempre que encontrava com esses amigos, ouvia inúmeras gozações.
Hoje, percebo que isso foi importante para que eu tomasse
mais a iniciativa e com o passar dos anos passei a ter confiança e a atitude
para tomar decisões.
Enfim, muita coisa mudou nesses 15 anos.
Menos a minha raiva de festas juninas.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha
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Eu aqui viajando na net achei esse post e acabei lendo tudo. Ri mt, bastante cômico.
ResponderExcluirCaramba,muito boa a postagem!!!
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