- Mãe.
- Oi.
- Cadê meu pai?
- Tá cuidando do jardim. O que foi?
- Meu irmão me bateu.
- Machucou?
- Tá doendo aqui, mas...
- Vou soprar que passa...
- Não, mãe. Não é isso. Você não vai fazer nada?
- To fazendo, to soprando...
- Não, mãe. Com ele que me bateu.
- Vou conversar com seu pai.
- Mas o pai tá cuidando do jardim.
- Quando ele voltar, eu converso.
- E vai deixar ele impune?
- Não disse isso.
- Sabia que tinha que ter conversado com meu pai...
- Filho, vou decidir com seu pai o que vou fazer com seu irmão.
- Mas vai demorar. E se ele me bater de novo?
- Aí vamos aumentar o castigo dele.
- Mas vai demorar mais ainda para punir.
- Esquenta não, filho.
- Ah, meu pai tá chegando. Vou falar com ele pra decidir com você logo.
PAI!
- Oi filho.
- Pai, meu irmão me bateu.
- Onde?
- Lá fora, perto do pé de maçã.
- Não, filho. Ele bateu na sua cabeça, no seu braço, na sua barriga,
onde?
- Ah, nas minhas costas.
- Por que ele te bateu?
- Sei lá. Eu tava brincando sozinho e ele pediu para participar, mas eu não
deixei e aí ele me bateu nas costas.
- E por que não o deixou brincar contigo?
- Porque não. Mas isso importa? Ele me bateu.
- Tá, vou conversar com sua mãe.
- Ah, ela disse a mesma coisa. Já vi que ele vai ficar impune de novo.
- Por que de novo?
- Ele me bateu semana passada, lembra? Ele atirou aquela pedra na minha
cabeça. Sem contar quando me espetou com a faca ou quando apagou o fogo na
minha perna. Teve aquela vez que ele peg..
- Já entendi. Vou decidir com sua mãe o que vamos fazer.
- Tá, eu espero.
- Filho, vou acabar o jardim primeiro, depois resolvo isso.
- Mas ele vai me bater de novo! Tenho certeza!
- Num vai não.
- Vai sim.
- Faz o seguinte, chama ele aqui.
- Tá.
...
- Oi pai.
- Você bateu no seu irmão?
- Não.
- Ele disse que bateu.
- Bati nada.
- As costas dele estão vermelhas.
- É o Sol, pai.
- Sei.
- Olha, eu prometi que não ia fazer nada, não prometi?
- Prometeu.
- Então.
- Se eu ficar sabendo que você fez algo de errado, já sabe né?
- Sei.
- Então tá. Vai lá e brinca com seu irmão. E fala com ele que eu mandei
ele deixar você participar.
- Tá.
- Juízo hein, Caim.
- Pode deixar.
Poucos dias depois, Caim armou uma emboscada e matou o irmão.
Não foi só o primeiro homicídio da história. Foi a primeira “queima de arquivo”.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


kkkkkk.... Excelente!!
ResponderExcluirparece crônicas da vida real - Guilherme, duro de ler mas deve ser a própria realidade descrita assim de forma calma e direta!! Pais, mães... sociedade - para mim as pessoas estão, em sua grande maioria, sem saber o que fazer da/na vida! Katia
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