terça-feira, 11 de junho de 2013

Impunidade

- Mãe.

- Oi.

- Cadê meu pai?

- Tá cuidando do jardim. O que foi?


- Meu irmão me bateu.

- Machucou?

- Tá doendo aqui, mas...

- Vou soprar que passa...

- Não, mãe. Não é isso. Você não vai fazer nada?

- To fazendo, to soprando...

- Não, mãe. Com ele que me bateu.

- Vou conversar com seu pai.

- Mas o pai tá cuidando do jardim.

- Quando ele voltar, eu converso.

- E vai deixar ele impune?

- Não disse isso.

- Sabia que tinha que ter conversado com meu pai...

- Filho, vou decidir com seu pai o que vou fazer com seu irmão.

- Mas vai demorar. E se ele me bater de novo?

- Aí vamos aumentar o castigo dele.

- Mas vai demorar mais ainda para punir.

- Esquenta não, filho.

- Ah, meu pai tá chegando. Vou falar com ele pra decidir com você logo. PAI!

- Oi filho.

- Pai, meu irmão me bateu.

- Onde?

- Lá fora, perto do pé de maçã.

- Não, filho. Ele bateu na sua cabeça, no seu braço, na sua barriga, onde?

- Ah, nas minhas costas.

- Por que ele te bateu?

- Sei lá. Eu tava brincando sozinho e ele pediu para participar, mas eu não deixei e aí ele me bateu nas costas.

- E por que não o deixou brincar contigo?

- Porque não. Mas isso importa? Ele me bateu.

- Tá, vou conversar com sua mãe.

- Ah, ela disse a mesma coisa. Já vi que ele vai ficar impune de novo.

- Por que de novo?

- Ele me bateu semana passada, lembra? Ele atirou aquela pedra na minha cabeça. Sem contar quando me espetou com a faca ou quando apagou o fogo na minha perna. Teve aquela vez que ele peg..

- Já entendi. Vou decidir com sua mãe o que vamos fazer.

- Tá, eu espero.

- Filho, vou acabar o jardim primeiro, depois resolvo isso.

- Mas ele vai me bater de novo! Tenho certeza!

- Num vai não.

- Vai sim.

- Faz o seguinte, chama ele aqui.

- Tá.

...

- Oi pai.

- Você bateu no seu irmão?

- Não.

- Ele disse que bateu.

- Bati nada.

- As costas dele estão vermelhas.

- É o Sol, pai.

- Sei.

- Olha, eu prometi que não ia fazer nada, não prometi?

- Prometeu.

- Então.

- Se eu ficar sabendo que você fez algo de errado, já sabe né?

- Sei.

- Então tá. Vai lá e brinca com seu irmão. E fala com ele que eu mandei ele deixar você participar.

- Tá.

- Juízo hein, Caim.

- Pode deixar.


Poucos dias depois, Caim armou uma emboscada e matou o irmão.


Não foi só o primeiro homicídio da história. Foi a primeira “queima de arquivo”.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

2 comentários:

  1. kkkkkk.... Excelente!!

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  2. parece crônicas da vida real - Guilherme, duro de ler mas deve ser a própria realidade descrita assim de forma calma e direta!! Pais, mães... sociedade - para mim as pessoas estão, em sua grande maioria, sem saber o que fazer da/na vida! Katia

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