sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Padaria

Sair de casa e passar na padaria antes do trabalho. Essa é sua rotina.

O problema é que a padaria sempre está lotada.

Mesmo sendo cliente fiel e frequentando aquele lugar há anos, ele passa raiva todos os dias. Entra, se aglomera para chegar ao balcão, dá cotovelada nos outros, toma soco na boca, consegue ser atendido, pede um misto quente, um pão de queijo e um suco de laranja, finalmente toma o café da manhã e vai trabalhar.

Todos os dias eram assim.

Eram porque ele estava acostumado com uma mesma atendente. Por mais que tivesse problemas na demora em ser atendido, ela resolvia o pedido dele. Era rápida, atenciosa, caprichosa. E sorridente.

Porém, a atendente saiu da padaria. Assim, sem qualquer aviso. Simplesmente não trabalhava lá mais.

Com a falta de funcionários, o serviço ficou péssimo. Era mais demorado, os pedidos eram feitos errados ou o suco estava ralo. Não sabia direito o que fazer, afinal, estava acostumado com aquela padaria e resolveu deixar de aparecer por lá.

Passado alguns dias, apareceu na padaria de novo e viu que havia uma nova funcionária.

Após as cotoveladas costumeiras para se chegar ao balcão, ergueu o dedo para ser atendido.

E a funcionária nova percebeu. Mas não o atendeu, pois estava na chapa, espremendo o misto e depois foi espremer laranjas para o suco.

Ele sabia que ela estava ocupada, mas insistiu e ergueu o dedo novamente, acompanhando-a com os olhos.


Viu que ela correu, pegou o pano de prato, abriu o forno e retirou os pães de queijo. Bateu o tabuleiro na pia para não deixar nada preso ao fundo e deixou-os ali, esfriando. Logo depois, limpou as mãos no avental e enfiou a espumadeira no óleo quente para verificar se os pastéis estavam prontos. Com os pastéis ainda no óleo, voltou para a chapa, recolhendo dois mistos e os colocando em um prato, entregando para um cliente. Anotou mentalmente o pedido de outro cliente e foi espremer laranjas.

E ele ali, só querendo ser atendido. Novamente, levantou o dedo, esticou o braço com a comanda da padaria, mas nada dela olhar pra ele.

Ela já tinha colocado os pastéis para escorrer o óleo, os pães de queijo já estavam na estufa, as laranjas espremidas, outro cliente já tinha sido atendido e ela parecia ignorá-lo.

-Moça, por favor.

- Só um minutinho.

E nem assim, foi atendido.

Por um instante, viu que ela repousou os braços na cintura e conversou com uma cliente. Ambas riram, cochicharam e pareciam estar com tempo para a prosa que parecia agradável. Então a atendente ajeitou a touca no cabelo, falou mais alguma coisa que fez a cliente rir, pegou um pastel assado na estufa e entregou para a cliente. E foi atender outra pessoa.

A sensação era a pior possível. Nada era pior do que ser ignorado. Parecia que era invisível e chegou até a pensar que ele estava morto e não tinha consciência, pois ninguém naquela padaria havia conversado com ele ainda.

Após conferir que estava vivo, fez mais uma tentativa.

- Por favor.

Mas desta vez, nem o olhar dela foi conseguido.

Então, resolveu tirar os olhos dela e olhou para baixo, mirando o balcão. Passou a mão nos olhos, em clara demonstração de impaciência, e ergueu novamente a cabeça para a derradeira tentativa.

E viu outra atendente. Ele não sabia se ela era nova, se era antiga na casa. Nem quanto tempo que ela estava ali, olhando pra ele.

- O senhor já foi atendido?

- Não.

- Pois não.

- Por favor. Um misto-quente, um pão de queijo e um suco de laranja.

- Ok. Só um instante.

E foi pra chapa. Enquanto isso, a outra atendente que recusou todas as tentativas de atenção, continuou o ignorando. Atendeu outros clientes, riu para alguns, foi atenciosa com outros. Mas para ele, nada. 

Em 05 minutos, recebeu seu pedido. O misto estava bom, com queijo na medida certa. O Pão de queijo era perfeito, nem branco e murcho, nem torrado e duro. E o suco estava doce, como ele gostava.

Agradeceu a atendente, pegou sua comanda com ela e se dirigiu ao caixa para pagar.

E saiu da padaria e foi trabalhar. 

Com a certeza de que seus relacionamentos eram como aquela padaria.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha 

Um comentário:

  1. Uau!!
    Sacada genial!
    Perdemos muito tempo pedindo atenção de certas pessoas, quando outras nos dao tudo que precisamos!
    Clap, clap, clap

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