Algumas pessoas que me conhecem pessoalmente sabem que,
geralmente, sou um cara bem humorado. Geralmente.
Não tenho atravessado um bom período. Claro que não reclamo,
pois tenho saúde e posso trabalhar, estudar e etc. Mas o fato é que de um tempo
pra cá a sorte não tem andado muito ao meu lado.
E eis que, um dia desses, fui ao supermercado após o serviço
com um objetivo simples e rápido: comprar pão de queijo e um pacote de biscoito
Club Social para deixar no serviço.
Pois bem. Coisa de 05 minutos né?
Eu sei que eu, com meu amigo de sempre, entrei na parte de
padaria do supermercado a procura da vasilha e do “pegador” de pão, mas não
achei, sendo a solução encontrada ir direto ao balcão para pegar essas
ferramentas que me auxiliariam na missão.
- Meu filho, tem um fila ali, você viu?
- Oi? (retirei o fone do ouvido)
- Finge de besta não. Tem uma fila aqui.
- Eu sei. Só quero pegar a bacia e o pegador.
- Isso tem lá nos pães.
- Eu sei que tem, mas é que não achei.
- Sei, isso é desculpa...
Eu poderia ter respondido grosseiramente, mas preferi ser o
mais educado possível...
- Olha, já peguei a vasilha aqui viu? Não queria furar fila
não...
- Hun.
E então, recoloquei o fone no ouvido e fui pegar os pães de
queijo. Eu só não esperava que eles tivessem acabado.
- Moça, por favor, vai sair mais pães de queijo?
- Ih meu filho, vai demorar viu. Aquela dona ali (sim, a
dona que me xingou) acabou de comprar 3 kg e acho que só vai ter daqui uns 20
minutos...
- Sério?
- Infelizmente sim...
Bom, eu poderia esperar aqueles vinte minutos e pegar uma
fornada de pão de queijo quentinha ou poderia ir embora e passar em outro
lugar. Mas como sou gordo e preguiçoso, achei melhor esperar pelos 20 minutos e
fui buscar o pacote de Club Social primeiro.
Com John Lennon cantando “Nothing’s gonna change my world”,
me dirigi para o setor de biscoitos, perplexo com a quantidade de biscoitos
recheados que estão a disposição no mercado hoje.
- Psiu.
- Oi? (E lá se vão os fones de ouvido novamente)
- Meu filho, você que é mais alto, será que poderia pegar um
pacote de biscoito para mim?
Era a dona que me xingou e comprou todos os pães de queijo
do lugar. Olhei para ela e fiquei imaginando como 3 kg de pão de queijo poderia
caber naquele corpo franzino de 1,55m, aproximadamente, e imaginei se tudo
aquilo era pra consumo próprio. Até me perguntei se a família dela sabia que
ela estava comprando aquela quantidade ou se ela estaria roubando dinheiro ou
vendendo a TV nova apenas para se satisfazer. Obviamente, veio a mente a imagem
dela, sentada no chã ao lado do fogão e de frente pra geladeira, com as luzes
apagadas, enquanto colocava cada pedacinho do pão na boca e olhava para os lados..
- Claro.
- Então, pega aquele ali.
- Esse?
- É.
- Pronto.
- Pega mais uns nove pra mim?
Pronto. A dona além de viciada em pão de queijo era viciada
em biscoito recheado também. Se ela comesse 100 gramas apenas e meio
pacote dos biscoitos que comprou, deveria ser capaz de subir o Himalaia e descer sem precisar
de se alimentar novamente, pois não caberia mais nada por semanas naquele corpo
franzino.
Pensei até que ela tinha um filho na cadeia que estava
parando de fumar e pediu para a mãe levar biscoitos para ele lá. Agora ele
teria moeda de troca para poder ir ampliar seu horário de sol ou pegar um bife
maior no almoço.
- Nove?
- Sim.
- Tá bom. Pronto. Aqui está.
- Obrigada meu filho.
- Que isso, disponha.
Voltei e busquei meus pães de queijo e fui ao caixa pensando
naquela dona que comprava tanta coisa.
E encontrei com ela novamente. Sim, no caixa. Só que desta
vez o caixa era só pra 15 volumes. E ela deveria ter uns 40, somando-se os
biscoitos, os pães de queijo, os pacotes de batata frita, as caixas de BIS e
mais algumas coisas que não quis olhar porque fiquei com medo de ter diabetes só
de olhar para aquelas toneladas de calorias que estavam assustando a mim, um
gordo assumido.
Até que a caixa cortou o clima.
- Minha senhora, não posso deixar a senhora passar aqui
porque tem mais de 15 volumes.
- Ah, não vi. É porque o caixa preferencial para idosos está
cheio.
Nessa hora corri os olhos pra fila preferencial e realmente
estava cheia. Haviam garotos de aproximadamente uns 15 anos lá e fiquei com
vergonha alheia deles e com pena da senhora.
- Bom, infelizmente não posso fazer nada. E esse rapaz que
está atrás da senhora tem menos de quinze volumes. Só se ele não se importasse.
- Claro que não. Pode passar as compras dela.
E lá se foram as compras passando. Foi tanta coisa que deu
tempo de ler quase os sete livros de Harry Potter enquanto ouvia a discografia
inteira dos Beatles e dos Stones.
Eu sei que uns oito anos depois a moça que fica no caixa acabou de passar as compras no leitor óptico e finalmente era a hora da senhora pagar. Pelo tanto que o Real deveria ter se desvalorizado naquele período, aqueles pacotes de biscoito deveriam estar custando uns R$ 20,00 cada.
- Mais alguma coisa?
- Deixa eu ver. Acho que não.
- São R$ 132.00.
- Ok. Peraí.
A dona então abriu a bolsa e retirou um pacote. Fiquei com
medo de ser cocaína e ela pagar com a droga. Ou de querer pagar com pães de
queijo mesmo, já que esse era o vício dela. Mas eram moedas. Muitas moedas.
Mais alguns anos ali e pronto, estaria liberado. Daria tempo
de assistir a Copa de 2064 que seria no
Brasil de novo.
Até que a caixa deve ter ficado com medo de passar anos ali e, provavelmente com medo de perder o casamento
daquela sobrinha dela de 3 anos, resolveu acelerar o processo.
- A senhora vai pagar tudo com moedas?
- Sim.
- Bom, vou chamar uma menina para contar tá? Aí a senhora
aguarda aqui do lado.
- Tá bom, filha.
Eu sei que eu paguei e fui embora. Ainda em 2013, graças a
Deus.
Porém, uns 15 minutos depois, enquanto descia a rua a pé, vi
uma Kombi parada no sinal.
Na porta da Kombi estava escrito “Fraternidade Espírita casa
de Deus” e parecia ter uma festa lá dentro. Várias crianças com pães de queijo
na mão cantando e pulando. Na frente estava o motorista com um sorriso no rosto
e uma senhora que acenava para mim.
Eu, morrendo de vergonha e arrependido pelos pensamentos
errados, apenas acenei de novo.
E desci a rua, concordando com os caras que cantavam “All
You Need is Love” no meu Ipod.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha


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