terça-feira, 3 de setembro de 2013

A traficante de pão de queijo

Algumas pessoas que me conhecem pessoalmente sabem que, geralmente, sou um cara bem humorado. Geralmente.

Não tenho atravessado um bom período. Claro que não reclamo, pois tenho saúde e posso trabalhar, estudar e etc. Mas o fato é que de um tempo pra cá a sorte não tem andado muito ao meu lado.

E eis que, um dia desses, fui ao supermercado após o serviço com um objetivo simples e rápido: comprar pão de queijo e um pacote de biscoito Club Social para deixar no serviço.

Pois bem. Coisa de 05 minutos né?

Eu sei que eu, com meu amigo de sempre, entrei na parte de padaria do supermercado a procura da vasilha e do “pegador” de pão, mas não achei, sendo a solução encontrada ir direto ao balcão para pegar essas ferramentas que me auxiliariam na missão.

- Meu filho, tem um fila ali, você viu?

- Oi? (retirei o fone do ouvido)

- Finge de besta não. Tem uma fila aqui.

- Eu sei. Só quero pegar a bacia e o pegador.

- Isso tem lá nos pães.

- Eu sei que tem, mas é que não achei.

- Sei, isso é desculpa...

Eu poderia ter respondido grosseiramente, mas preferi ser o mais educado possível...

- Olha, já peguei a vasilha aqui viu? Não queria furar fila não...

- Hun.

E então, recoloquei o fone no ouvido e fui pegar os pães de queijo. Eu só não esperava que eles tivessem acabado.

- Moça, por favor, vai sair mais pães de queijo?

- Ih meu filho, vai demorar viu. Aquela dona ali (sim, a dona que me xingou) acabou de comprar 3 kg e acho que só vai ter daqui uns 20 minutos...

- Sério?

- Infelizmente sim...

Bom, eu poderia esperar aqueles vinte minutos e pegar uma fornada de pão de queijo quentinha ou poderia ir embora e passar em outro lugar. Mas como sou gordo e preguiçoso, achei melhor esperar pelos 20 minutos e fui buscar o pacote de Club Social primeiro.

Com John Lennon cantando “Nothing’s gonna change my world”, me dirigi para o setor de biscoitos, perplexo com a quantidade de biscoitos recheados que estão a disposição no mercado hoje.

- Psiu.


- Oi? (E lá se vão os fones de ouvido novamente)

- Meu filho, você que é mais alto, será que poderia pegar um pacote de biscoito para mim?

Era a dona que me xingou e comprou todos os pães de queijo do lugar. Olhei para ela e fiquei imaginando como 3 kg de pão de queijo poderia caber naquele corpo franzino de 1,55m, aproximadamente, e imaginei se tudo aquilo era pra consumo próprio. Até me perguntei se a família dela sabia que ela estava comprando aquela quantidade ou se ela estaria roubando dinheiro ou vendendo a TV nova apenas para se satisfazer. Obviamente, veio a mente a imagem dela, sentada no chã ao lado do fogão e de frente pra geladeira, com as luzes apagadas, enquanto colocava cada pedacinho do pão na boca e olhava para os lados..

- Claro.

- Então, pega aquele ali.

- Esse?

- É.

- Pronto.

- Pega mais uns nove pra mim?

Pronto. A dona além de viciada em pão de queijo era viciada em biscoito recheado também. Se ela comesse 100 gramas apenas e meio pacote dos biscoitos que comprou, deveria ser capaz de subir o Himalaia e descer sem precisar de se alimentar novamente, pois não caberia mais nada por semanas naquele corpo franzino.

Pensei até que ela tinha um filho na cadeia que estava parando de fumar e pediu para a mãe levar biscoitos para ele lá. Agora ele teria moeda de troca para poder ir ampliar seu horário de sol ou pegar um bife maior no almoço.

- Nove?

- Sim.

- Tá bom. Pronto. Aqui está.

- Obrigada meu filho.

- Que isso, disponha.

Voltei e busquei meus pães de queijo e fui ao caixa pensando naquela dona que comprava tanta coisa. 

E encontrei com ela novamente. Sim, no caixa. Só que desta vez o caixa era só pra 15 volumes. E ela deveria ter uns 40, somando-se os biscoitos, os pães de queijo, os pacotes de batata frita, as caixas de BIS e mais algumas coisas que não quis olhar porque fiquei com medo de ter diabetes só de olhar para aquelas toneladas de calorias que estavam assustando a mim, um gordo assumido.

Até que a caixa cortou o clima.

- Minha senhora, não posso deixar a senhora passar aqui porque tem mais de 15 volumes.

- Ah, não vi. É porque o caixa preferencial para idosos está cheio.

Nessa hora corri os olhos pra fila preferencial e realmente estava cheia. Haviam garotos de aproximadamente uns 15 anos lá e fiquei com vergonha alheia deles e com pena da senhora.

- Bom, infelizmente não posso fazer nada. E esse rapaz que está atrás da senhora tem menos de quinze volumes. Só se ele não se importasse.

- Claro que não. Pode passar as compras dela.

E lá se foram as compras passando. Foi tanta coisa que deu tempo de ler quase os sete livros de Harry Potter enquanto ouvia a discografia inteira dos Beatles e dos Stones.

Eu sei que uns oito anos depois a moça que fica no caixa acabou de passar as compras no leitor óptico e finalmente era a hora da senhora pagar. Pelo tanto que o Real deveria ter se desvalorizado naquele período, aqueles pacotes de biscoito deveriam estar custando uns R$ 20,00 cada.

- Mais alguma coisa?

- Deixa eu ver. Acho que não.

- São R$ 132.00.

- Ok. Peraí.

A dona então abriu a bolsa e retirou um pacote. Fiquei com medo de ser cocaína e ela pagar com a droga. Ou de querer pagar com pães de queijo mesmo, já que esse era o vício dela. Mas eram moedas. Muitas moedas.

Mais alguns anos ali e pronto, estaria liberado. Daria tempo de assistir a Copa de 2064 que seria no Brasil de novo.

Até que a caixa deve ter ficado com medo de passar anos ali e, provavelmente com medo de perder o casamento daquela sobrinha dela de 3 anos, resolveu acelerar o processo.

- A senhora vai pagar tudo com moedas?

- Sim.

- Bom, vou chamar uma menina para contar tá? Aí a senhora aguarda aqui do lado.

- Tá bom, filha.

Eu sei que eu paguei e fui embora. Ainda em 2013, graças a Deus.

Porém, uns 15 minutos depois, enquanto descia a rua a pé, vi uma Kombi parada no sinal.

Na porta da Kombi estava escrito “Fraternidade Espírita casa de Deus” e parecia ter uma festa lá dentro. Várias crianças com pães de queijo na mão cantando e pulando. Na frente estava o motorista com um sorriso no rosto e uma senhora que acenava para mim.

Eu, morrendo de vergonha e arrependido pelos pensamentos errados, apenas acenei de novo.

E desci a rua, concordando com os caras que cantavam “All You Need is Love” no meu Ipod.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha 

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