O momento era difícil. Aliás, difícil não. Esquisito era a
palavra certa.
Desde que seu relacionamento acabou havia um misto de sentimentos.
Por um período, ficou triste com tudo o que passou, em outros sentiu raiva. Até
a sensação de abandono ele experimentou, fora as situações de angústia e dor
que foram vivenciadas e que tomaram conta do seu corpo, apesar de fingir não
ser com ele.
Apenas a saudade que sentia dela era compartilhada com todos os
familiares e amigos, sem algum receio.
E nesse turbilhão de pensamentos, nada era mais doloroso do que
passar nos lugares que frequentava com ela. Aliás, havia algo mais doloroso
sim. Ver casais juntos nesses locais.
Por isso, ele os evitava tanto. E por isso resolveu frequentar
locais novos. Precisava respirar novos ares, passar por novas experiências e
sentir novas sensações.
Foi assim que andando pela cidade, com fones nos ouvidos e as mãos
no bolso, enquanto mirava o chão, não parava de pensar no sonho daquela noite
em que ela estava presente.
Levantou a cabeça apenas para atravessar a rua. Ali ele poderia
pegar um ônibus, mas preferiu andar.
Atravessou a rua e andou por uma praça, local em que resolveu se
sentar em um banco, ao lado de uma castanheira, para observar as pessoas
andarem, correrem. Viverem.
Naquela praça, os pensamentos ganharam mais liberdade, porém, se achava que iria refletir melhor sobre tudo o que estava passando, percebeu que se
enganou, pois suas idéias estavam mais desencontradas ainda.
Talvez a solução fosse aumentar o volume da música, visando
silenciar a mente, mas ao enfiar a mão na mochila, viu uma borboleta em um banco do outro lado da praça. Mentira. Uma não, era A borboleta.
O único problema era que estava estática.
Não entendia porque uma borboleta tão bela não se movia, pois, se
tinha asas tão belas, porque não voava e aproveita a imensidão de coisas a se
conhecer?
Foi para isso que passou tanto tempo em um casulo? Para ganhar
asas e não se mover?
Não, não era possível.
Acendeu um cigarro e aumentou o som nos fones.
Não sabia se naquele momento precisava se concentrar ou
desconcentrar mesmo e olhou novamente para os lados. Lá estavam as pessoas
felizes, correndo, conversando e amando. E lá estava a borboleta. Estática.
Desde então, não parou de olhar para aquela borboleta. Não sabia o motivo, mas o fato é que se apegou a ela, mesmo ela não aproveitando a
oportunidade que tinha de desbravar o mundo.
Então, terminou o cigarro e se levantou do banco para ir até a
ela.
Andando até ela, os pensamentos pareceram se organizar e só então percebeu que durante todo o tempo ele também estava
estático, como aquela borboleta, e que poderia explorar algo novo.
Algo quente preencheu seu corpo e a esperança foi renovada,
fazendo com que acreditasse que algo de bom não só poderia como iria acontecer.
Porém, ao aguardar um casal que se divertia com patins passar, e o vendedor de pipoca atender crianças, perdeu a borboleta de vista.
Não sabia se aquela borboleta havia voado ou se ela realmente existia.
Mas não desanimou, afinal, entendeu o que tudo aquilo que ocorreu queria
dizer.
Se fosse verdade o que diria aquele antigo provérbio chinês, aquele
simples bater de asas da borboleta poderia causar um tufão e ele torcia para que fosse dentro dele e que mudasse sua vida de vez.
E nos dias que vieram a seguir, voltou a viver a vida.
Ironicamente, uma outra borboleta o fez soltar as amarras do
casulo em que vivia e o fez ganhar asas e descobrir uma vida nova.
Continuou andando pela cidade, com fones no ouvido e as mãos nos bolsos, mas agora havia um sorriso no rosto e um brilho no olhar.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha
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