quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Naquela Abbey Road

“- Poxa, querido, mesmo com isso tudo, você não vai me dizer nada?”

“Solos de guitarra não vão me conquistar”

Escutava essa música e entendia perfeitamente o pedido implícito, um clamor por atitude em palavras ditas docemente. Porém, ele pensava alem do que dizia nas entrelinhas do rock babalu. Uma frase fez com que ele excluísse qualquer atitude sem fins. Absorveu aquilo para a vida, sendo sempre objetivo no que queria e no que dizia. Desde criança, época que ouvia essa canção, desenvolveu o hábito da objetividade. Era direto em tudo, e sentia a capacidade de aproximar e enredar ficando cada dia mais perdida.

Já não buscava novidades, pensava que qualquer adaptação não lhe seria favorável. Acreditava em Deus, mas principalmente na matemática. Aquela ali provava tudo que ele precisava saber. Fez planos de concluir o ensino médio, fazer um curso de exatas qualquer e se tornar alguém organizado. Não entendia como era tão bagunceiro, mesmo sendo tão direto.

Em seus períodos de euforias ou depressões, via que estava sempre cercado de amigos, mesmo vendo em si um sujeito solitário. Pensava que seria um dos eremitas urbanos, mas sempre encontrava um sorriso e um abraço. Não percebia quantos estavam ao seu redor.

Sempre havia uma menina, depois garota, mulher. E sempre houve as que o queriam, mas ele achava que não. E o amor nunca lhe faltara. Era incrível.

Mais incrível foi quando se deu conta disso. “mas como?” “eu não sou quem eu pensava ser?” “sou como todo mundo?”

Era como todo mundo. Sentia como todos, tinha uma camisa preferida, uma cor, um time, uma música... uma música?

Pensou em música. Era seu elo com a humanidade, com a vida, com o mundo. Lembrou-se de pegar o violão e arranhar por dias e dias até sair os primeiros acordes. Lembrou das aulas que ganhou quando seus pais viram o potencial, lembrou de andar a vida inteira com fones no ouvido. Os amigos fazia ali, na música, as meninas ele conquistou ali, com sua voz e seu violão.

 Naquele dia, seus 28 anos de idade se perderam do chão. Passou a se conhecer em um novo nível, vê naquele momento a sua transição para a vida adulta, embora já era noivo, engenheiro, com carreira emergente e uma boa bagagem. De tudo que entendia, o que mais o surpreendeu não era sobre si, era sobre o mundo; a musica sem letra falava mais que todas as palavras de todos os vocabulários de todos os idiomas. Não há gramática ou fonética que controle a harmonia da vibração das cordas de aço. O solo do George Harrison em Something dizia mais que a canção inteira. Se viu escutando e lembrou que franzia todo seu rosto ao escutar, como se estivesse tocando. E tocou em seu violão. E chorou. E cantou os mais belos cantos do clube da esquina. E chorou de novo. Era uma nova pessoa, além da dimensão de si mesmo. Sorriu.

Voltou a ouvir Something. Escutava aquele solo como se fosse um grito de gol, ou um trecho de conquistas na vida, como a entrada na colação de grau. A guitarra fazia nele o efeito de dizer o que ele queria, mas as palavras eram limitadas demais para dizer.


“...e foi quando olhou nos olhos da amiga e não disse nada. Fechou os olhos e solou.”

Texto: Mário Romualdo
Twitter: @marioromualdo

4 comentários:

  1. que isso mario cabuloso, quase um escritor ja, parabens ai, voce sabe fazer algo alem do civil neh?!...bricadeira...parabens ai so isso que tenho a dizer mesmo, abraço.

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  2. E chorei de novo. Um choro bom. Um choro de saudades.

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  3. Que crônica linda, Mario! Também senti saudades de muita coisa agora. Amei, excelente!

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  4. Read and something happened in my heart!

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