Ele nasceu em um perigoso bairro controlado por traficantes na periferia da capital e ficou órfão de pai ainda em tenra idade. A mãe, batalhadora, conseguiu criá-lo e educá-lo afastado das más companhias.
Estudou na escola pública do bairro. Queria vencer na
vida. Com financiamento estudantil cursou uma faculdade particular. Já
empregado em uma grande empresa, fez mestrado e continuou subindo na carreira.
Viajou ao exterior, aprendeu a falar
inglês.
Nunca perdeu contato com os amigos de infância. Casado e morando em um bairro de classe
média, sempre deixou as portas de sua casa abertas para os amigos e familiares,
onde os recebiam para animados churrascos.
Foi nomeado diretor da empresa. Sua vida ia de vento
em popa. Trocava de carro todo ano.
Uma tarde foi chamado à sala do presidente. Pensou
que lhe seria apresentado mais um projeto para coordenar, pois era o executivo
mais dinâmico da empresa.
— Você está matriculado em um curso de vinho, disse o
presidente. Agora você é diretor da companhia, terá que refinar seu gosto e
selecionar suas amizades. Daqui para a frente você não poderá receber qualquer
um em sua casa.
Já fizera diversos cursos, no Brasil e no exterior,
mas curso de vinho? Que coisa mais pernóstica! Ouvira falar de um curso de
vinho de uma revista de fofoca, feito sob medida para seus estúpidos e
preconceituosos leitores.
Não contestou o presidente, todavia; temia contrariar
o chefe e perder o posto. Não podia abrir mão de seu nível de vida, das viagens
a Miami, onde fazia compras.
Lembrou-se daquela noite, na quermesse da igreja,
quando pela primeira vez bebeu vinho. Era um adolescente tímido, não tinha
coragem de chegar na menina pela qual era apaixonado e que anos mais tarde
viria a ser sua esposa. Incentivado pelos amigos, virou o garrafão de Sangue de
Boi na boca e criou coragem.
Nas aulas que frequentou na pós-graduação teve a
oportunidade de conhecer diversos colegas de cultura elevada e raciocínio
abstrato; agora iria aprender, ao lado de dondocas e novos ricos, qual a temperatura
certa do vinho e o jeito de segurar a taça. Ele que aprendeu a beber na boca do
garrafão...
Os mestres das boas maneiras lhe ensinarão também que
existe o vinho que se bebe de dia, o qual não pode ser servido à noite e
vice-versa. Quem não sabe disso é cafona.
Seus amigos não poderão mais frequentar sua casa; os
churrascos estão cancelados; em sua geladeira não há mais cerveja. Mas sua
ascensão social continua. Qualquer dia desses ele vai convidar uma madame que
conheceu no curso de vinho para jantar em sua casa, quando testará os
conhecimentos adquiridos.
A empresa que dirige? É provável que se afaste dos
clientes da mesma forma que ele se afastará dos amigos.
Lincoln Pinheiro Costa é juiz federal em Belo
Horizonte e ex-procurador da Fazenda Nacional em Salvador. É graduado
pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) e MBA em Direito da
Economia e da Empresa pela FGV. É membro do Instituto San Tiago Dantas de
Direito e Economia e colunista da CBN/Salvador
Twitter: https://twitter.com/lincolnpinheiro
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