segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Aeroporto

Estava ali parado, sentado no banco, e observando tudo o que ocorria em sua volta.

Naquele aeroporto, viu uma menina saindo do portão de desembarque e procurar alguém. Viu os olhos assustados percorrerem os lados do saguão até encontrar um sujeito parado, com um papel na mão e com um nome de mulher escrito. Reparou no sorriso no rosto que aquela menina esboçou e em como os seus olhos adquiriram vida ao localizar o sujeito e em como o corpo ganhou movimento no momento em que ela correu ao encontro dele, só parando no momento em que os seus lábios concentravam toda a energia ao se misturar aos lábios daquele cara.

Naquele aeroporto, viu um casal parado, com olhos marejados e tristeza no olhar, passarem a mão nos ombros e cabelos de uma jovem mulher como se estivessem fotografando mentalmente cada instante que se passava. Reparou que a mulher mais nova sentia uma dor de partida, mas parecia carregar uma esperança naquela imensa bagagem que carregava nas costas. Já o casal, abraçava aquela menina como se tivessem medo de nunca mais a vê-la.

Naquele aeroporto, viu duas crianças correrem de felicidade, com os braços abertos e simulando um pequeno avião, enquanto a mãe falava ao celular e olhava apressada para o painel com os horários de vôo. Era incrível a alegria daquelas crianças...

Naquele aeroporto, viu um homem de meia idade, de terno e com a gravata afrouxada no pescoço, tomando um último gole do chopp e deixando um dinheiro na mesa, enquanto olhava para o seu celular, como se esperasse uma ligação e para o relógio pela milésima vez. Percebeu que a cada dez passos que dava, olhava pra trás, para o aparelho celular e para o relógio, até que chegou ao portão de Embarque quando pareceu olhar para trás desapontado, como se não pudesse mais esperar...

Naquele aeroporto, viu uma dona com roupas simples, surradas, contando moedinhas para comprar um café e um pão de queijo, mas com um sorriso no rosto, apesar de parecer ser julgada por cada pessoa que passava e olhava para ela. Não pode deixar de reparar que indo para o portão de embarque, estava acanhada, olhando para o chão, deixando até mesmo de olhar para o rosto da funcionária que conferia sua passagem.

Naquele aeroporto, viu um grupo de amigos, todos jovens rapazes, desfilarem no saguão ostentando óculos escuros estilosos, roupas com marcas famosas e telefones celulares, tables e notebooks de última geração fazendo check-in e cantando as atendentes da companhia aérea. Aliás, não só elas, mas as atendentes da lanchonete, da banca de revistas, da loja de souvenir e até do balcão de informação. O mais interessante é que pareciam reproduzir as ações um do outro, mas não era possível identificar a origem de cada atitude.

Naquele aeroporto, viu um grupo de pessoas, homens e mulheres, todos na terceira idade, com vigor e aparentando estarem no auge da felicidade, todos com roupas mais leves, e com experiência no olhar, parecendo viajarem em grupo para um merecido descanso para recompensar anos de vida dedicados as suas famílias.

Naquele aeroporto, viu jovens, homens e mulheres, com camisas de um time de futebol, com jornais e bandeiras na mão, desejando embarcar não apenas para acompanhar um jogo de futebol, mas para encontrar amigos e irmãos de farda, que dedicam o mesmo tempo para cultivar aquela paixão.

Naquele aeroporto, viu um homem, sentado num banco sozinho, com fones no ouvido, de bermuda e camiseta, um tablet na mão e mil idéias na cabeça. Não era possível saber seu destino, mas poderia ver nos olhos dele um pouco de onde veio.

E se viu naquele homem, pois sua vida era assim. Com chegadas e partidas, com momentos de alegria extrema e decepções. Com instantes que parecia não querer estar ali ou não merecer estar ali. As horas certas de curtir ou de apenas torcer por algo. Tudo era parecido com o que viu ali, feita de altos, como o avião que decola, e baixos, como o que aterriza, porém repletos de esperança, seja na partida de algo ou quando alguma coisa nova aparece.

E foi nesse momento que a ficha caiu.

Sua vida era como aquele aeroporto.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha 

2 comentários:

  1. - Muito bom o texto, cara. Cheguei aqui por acaso e as cores do seu blog e o titulo desse texto me fizeram ficar mais um pouco p lê .

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  2. Também escre , quando puder ... http://plcarvalho.blogspot.com.br/

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