Ele sempre soube que havia algo relacionado a pedras preciosas em sua vida.
Talvez tenha começado com Tereza, dona daqueles olhos verde-esmeralda.
Quando ele a conheceu, não parava de olhar para aqueles olhos. Eram lindos. Cativantes. Perfeitos. Daqueles inesquecíveis, que apenas complementavam a beleza exuberante daquela mulher que o fizera quase perder o emprego de tanta vontade de encontrá-la.
Todas as vezes que estava com ela, não se importava com o mundo e apenas queria amá-la e oferecer o que tinha de melhor. Não só para contemplar aqueles olhos verdes, mas por causa dos lábios vermelho-rubi que ela tinha e por toda a maravilha que conquistou.
E pelas fotos.
A cada vez que estava com ela na cama, retirava a câmera fotográfica da mochila e fotografava as curvas do corpo de Tereza, guardando as melhores partes para sua memória, mas registrando cada movimento sinuoso daquele corpo que devia vir com um aviso divino de que era perigoso se aventurar por ali.
Porém, o que mais intrigava era fotografar os olhos daquela mulher. O realce que as fotos alvinegras traziam naquele pequeno pedaço de lembrança impressa, fazia sentir um arrepio na alma que nunca sentiu antes. Um não. O arrepio. Aquele arrepio.
Aliás, só foi sentir esse arrepio novamente no dia que Tereza o abandonou.
Aquele arrepio do descarte que sofreu foi mais do que uma dor física ou sentimental. Atingiu sua alma. Era um sofrimento tão espiritual que fez com que não se preocupasse mais com a dignidade que ainda restava e cegou suas fotografias.
O que antes eram lembranças se tornou apenas pedaços de papel com traços coloridos. Não havia essência ali.
Se antes caminhava pela cidade com o sorriso no rosto e brilho no olhar, agora lhe sobrava perambular pelos cantos, com uma nuvem cinza e carregada sobre si, tentando encontrar cores na sua vida.
O tédio cromático na sua vida era tanto que não resistiu e foi buscar nas bebidas e nos prostíbulos da cidade o que não encontrava em ninguém ou em lugar algum.
Para cada mulher que usufruía dos serviços, uns cliques em sua câmera eram dados na tentativa de encontrar a simetria divina nas curvas, mas se a geometria aparentava ser perfeita, faltava a alma e as cores que buscava nas fotografias monocromáticas que tirava.
A cada ida naquele puteiro, mais mulheres o queriam para ser fotografadas.
A cada mulher que ele fotografava, mais sentia a falta de Tereza.
A cada vez que sentia falta dela, mais ele ia naquele puteiro.
E a cada vez mais se afundava no desânimo que vivia.
Quando mudou de apartamento e, ironicamente, foi morar na Rua Ametista, ficou impressionado com Cristal, aquela morena de olhos azuis-safira que morava ao lado.
Era linda. Cabelos negros e ondulados, desses que quando estão presos liberta o pensamento para áreas sem limites e quando soltos aprisiona o olhar para aquele rosto. Era alta. Elegante. Discreta. Instigante. Casada.
O que só aumentava a curiosidade por uma foto em preto e branco daquele rosto, em busca do arrepio da alma que procurava.
Demorou um tempo para que conseguisse a foto que queria, pois além de seduzir Cristal, era preciso convencê-la de trair seu marido e de ser fotografada.
Mas o que demorou mesmo foi conseguir deixá-la por não sentir o que queria, tanto na foto, quanto na alma.
Por isso, voltou para as ruas. Sabia que era fraco e que mesmo que nada lhe despertasse a alegria, pelo menos para aquelas mulheres que queriam ser fotografadas, ele significaria algo.
Se não despertava, ou era despertado, o melhor era ter utilidade para alguma coisa.
(In)Felizmente não resistiu por muito tempo.
E tudo porque a viu do outro lado da rua.
Retirou o capuz negro que o protegia da chuva e não se importou em atravessar a rua no meio dos táxis que congestionavam a avenida.
Aqueles cabelos cor de ouro, em contraste com olhos que pareciam pérolas-negras, coloriram o ambiente que vivia e o surpreendeu.
A surpresa foi perceber que não precisava de um olho verde-esmeralda, azul-safira ou cor-de-mel.
Eram daqueles olhos negros, porém brilhantes, que precisava e por isso atravessou a rua e foi até ela.
Só de se aproximar e ouvir seu nome, não precisava da fotografia para sentir o arrepio na alma que buscava. Aqueles olhos negros e o cabelo de ouro já eram capazes disso.
Era resistente, lisa, com valores firmes e brilho próprio, como todas as pedras preciosas do mundo, e a mais difícil de conquistar.
E a alegria de conquistá-la só não foi maior que a alegria de mantê-la.
Não havia tesouro maior do que aquele.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha
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