Depois de dias, finalmente, ela estava lá.
Aliás, depois de dias não. Depois de três anos e dois meses,
para ser mais exata, e ela estava na praia.
Tinha passado pela fase da monografia, término de namoro,
mudança de emprego e aprovação em concurso público, mas agora, depois daquele
tempo todo, era hora de tiras férias. Remuneradas ainda.
Foi com sua amiga para Búzios, litoral fluminense, para
espairecer e descansar. E olha que sofreu para entrar em forma.
Foram sete meses de dieta, muita malhação, yoga, pilates e
natação, e quase entrou no peso que queria, faltando dois quilos apenas, mas a
melhora era visível, restando apenas ter um bronze na pele e perder algumas
celulites que ainda incomodava.
- Ah, para né Jú! Você tá ótima...
- Olha pra mim, Rê.
- Jú, tá linda.
- Mas e essas celulites?
- Homem não repara nisso.
- Sei, reparam sim. Foi por isso que o Paulinho largou a
Pri, esqueceu?
- Não. Ele largou a Pri porque conheceu aquela vagabunda da
Jennifer Kelly, da academia da Carol.
- Mas ela não tinha nenhuma celulite, Rê.
- Ai Jú, cala a boca. Amanhã você vai fazer sucesso na
praia, escuta o que to te falando.
- Tomara né?
No outro dia, vestiu um lindo biquíni e uma canga que ganhou
no natal. Conferiu se tinha colocado o protetor solar, o bronzeador, o creme
labial, o creme pra hidratar o cabelo, os óculos escuros, o Ipod, o livro que
estava lendo e o celular na bolsa. Depois da terceira conferência, enfim
conseguiu tirar a amiga do apartamento que alugaram.
E chegou desfilando na orla, sem olhar para os lados.
Comprou uma água de coco, esticou a canga sobre a areia e nem quis olhar para
os lados para receber os julgamentos sobre as suas celulites.
Sua amiga, por outro lado, esticou a canga na areia também,
mas logo deitou e parecia dormir.
Não tendo outra alternativa, colocou os fones do Ipod no
ouvido, retirou o livro da bolsa e começou a terapia de se esquecer dos
problemas do mundo.
Mal chegou até a terceira página e tomou uma bolada no
rosto, fazendo o livro e o chapéu caírem na areia, além de entortar os óculos
escuros.
“Homens”, foi o que pensou.
Depois de fingir não ouvir o pedido de desculpas daquele grupinho
de idiotas, voltou a sua leitura, mas com os olhos sobre o livro olhando para
aquela turma que corria pela praia atrás de uma bola.
Tentou voltar a atenção para o livro, mas aquele cara, de
sunga preta e vermelha chamava sua atenção. E o pior é que parecia que ela
chamava a atenção dele também.
Voltou a olhar o livro, mas cada parágrafo que lia e não
absorvia, olhava por sobre o livro e olhava para ele, para a tatuagem no braço
dele, para os cabelos dele e quando via que o olhar era correspondido, voltava
a olhar o livro.
Não era possível que aquilo estava acontecendo. Ela o achava
até bonito, atraente, mas não queria aquilo. Estava ali só para descansar, ler
um bom livro e relaxar.
Mas o que tinha de mal? Poderia ser tipo “um amor de
carnaval”, durando só aquela semana, ou só aquele dia talvez.
Só reparou que o disco que ouvia havia acabado, quando ouviu
o ronco da amiga que adormecia ao lado. Virou-se a esquerda para vê-la, esboçou
uma discordância e voltou a atenção para o Ipod.
- Com licença!
- Ai meu Deus! Que susto.
Sim. Era ele.
- Tudo bem moça.
- Tu-tu-tudo. Quer dizer, tudo bem, eu acho. Só assustei.
- Desculpe.
- Sem problema.
- Qual seu nome?
- Juliana.
- Prazer Juliana. Me chamo João, mas todos aqui me chamam de
Johnny.
- Prazer Johnny.
- Bom, desculpe te incomodar, mas eu estav..
Ele começou a falar e ela já sabia o que viria. Ele diria
que estava olhando, que gostou dela, achou bonita e etc e queria sair à noite.
Como dizer não? Porque dizer não? Talvez fosse melhor mesmo, pois precisava
ficar um tempo sozinha depois do término do namoro. Mas ele tinha os lábios tão
bonitos e um sorriso que par...
- ... livro.
- Oi?
- Ah, falei rápido né? Foi mal. É porque eu vi você lendo
esse livro e o Binho, aquele ali de sunga azul, vai fazer aniversário mês que
vem e eu queria dar esse livro de presente pra ele. Você gostou dele?
- Do Binho?
- Não, menina, do livro.
- Bom, é um livro bacana. To gostando sim.
- Ah, é porque eu e o Binho namoramos há dois anos e quero
dar um presente diferente agora.
- Ah tá. Entendi.
- Então o livro é bom né?
- É ótimo. Acho que ele vai gostar.
E então, os dois conversaram mais três horas e marcaram um
jantar a noite.
Ela, a Rê, e o casal Johnny e Binho.
No fim, o jantar foi ótimo e ela adorou, principalmente
quando o Binho disse que ela não tinha celulites.
Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha
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