segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Na Praia

Depois de dias, finalmente, ela estava lá.

Aliás, depois de dias não. Depois de três anos e dois meses, para ser mais exata, e ela estava na praia.

Tinha passado pela fase da monografia, término de namoro, mudança de emprego e aprovação em concurso público, mas agora, depois daquele tempo todo, era hora de tiras férias. Remuneradas ainda.

Foi com sua amiga para Búzios, litoral fluminense, para espairecer e descansar. E olha que sofreu para entrar em forma.

Foram sete meses de dieta, muita malhação, yoga, pilates e natação, e quase entrou no peso que queria, faltando dois quilos apenas, mas a melhora era visível, restando apenas ter um bronze na pele e perder algumas celulites que ainda incomodava.

- Ah, para né Jú! Você tá ótima...

- Olha pra mim, Rê.

- Jú, tá linda.

- Mas e essas celulites?

- Homem não repara nisso.

- Sei, reparam sim. Foi por isso que o Paulinho largou a Pri, esqueceu?

- Não. Ele largou a Pri porque conheceu aquela vagabunda da Jennifer Kelly, da academia da Carol.

- Mas ela não tinha nenhuma celulite, Rê.

- Ai Jú, cala a boca. Amanhã você vai fazer sucesso na praia, escuta o que to te falando.

- Tomara né?

No outro dia, vestiu um lindo biquíni e uma canga que ganhou no natal. Conferiu se tinha colocado o protetor solar, o bronzeador, o creme labial, o creme pra hidratar o cabelo, os óculos escuros, o Ipod, o livro que estava lendo e o celular na bolsa. Depois da terceira conferência, enfim conseguiu tirar a amiga do apartamento que alugaram.

E chegou desfilando na orla, sem olhar para os lados. Comprou uma água de coco, esticou a canga sobre a areia e nem quis olhar para os lados para receber os julgamentos sobre as suas celulites.

Sua amiga, por outro lado, esticou a canga na areia também, mas logo deitou e parecia dormir.

Não tendo outra alternativa, colocou os fones do Ipod no ouvido, retirou o livro da bolsa e começou a terapia de se esquecer dos problemas do mundo.

Mal chegou até a terceira página e tomou uma bolada no rosto, fazendo o livro e o chapéu caírem na areia, além de entortar os óculos escuros.

“Homens”, foi o que pensou.

Depois de fingir não ouvir o pedido de desculpas daquele grupinho de idiotas, voltou a sua leitura, mas com os olhos sobre o livro olhando para aquela turma que corria pela praia atrás de uma bola.

Tentou voltar a atenção para o livro, mas aquele cara, de sunga preta e vermelha chamava sua atenção. E o pior é que parecia que ela chamava a atenção dele também.

Voltou a olhar o livro, mas cada parágrafo que lia e não absorvia, olhava por sobre o livro e olhava para ele, para a tatuagem no braço dele, para os cabelos dele e quando via que o olhar era correspondido, voltava a olhar o livro.

Não era possível que aquilo estava acontecendo. Ela o achava até bonito, atraente, mas não queria aquilo. Estava ali só para descansar, ler um bom livro e relaxar.

Mas o que tinha de mal? Poderia ser tipo “um amor de carnaval”, durando só aquela semana, ou só aquele dia talvez.

Só reparou que o disco que ouvia havia acabado, quando ouviu o ronco da amiga que adormecia ao lado. Virou-se a esquerda para vê-la, esboçou uma discordância e voltou a atenção para o Ipod.

- Com licença!

- Ai meu Deus! Que susto.

Sim. Era ele.

- Tudo bem moça.

- Tu-tu-tudo. Quer dizer, tudo bem, eu acho. Só assustei.

- Desculpe.

- Sem problema.

- Qual seu nome?

- Juliana.

- Prazer Juliana. Me chamo João, mas todos aqui me chamam de Johnny.

- Prazer Johnny.

- Bom, desculpe te incomodar, mas eu estav..

Ele começou a falar e ela já sabia o que viria. Ele diria que estava olhando, que gostou dela, achou bonita e etc e queria sair à noite. Como dizer não? Porque dizer não? Talvez fosse melhor mesmo, pois precisava ficar um tempo sozinha depois do término do namoro. Mas ele tinha os lábios tão bonitos e um sorriso que par...

- ... livro.

- Oi?

- Ah, falei rápido né? Foi mal. É porque eu vi você lendo esse livro e o Binho, aquele ali de sunga azul, vai fazer aniversário mês que vem e eu queria dar esse livro de presente pra ele. Você gostou dele?

- Do Binho?

- Não, menina, do livro.

- Bom, é um livro bacana. To gostando sim.

- Ah, é porque eu e o Binho namoramos há dois anos e quero dar um presente diferente agora.

- Ah tá. Entendi.

- Então o livro é bom né?

- É ótimo. Acho que ele vai gostar.


E então, os dois conversaram mais três horas e marcaram um jantar a noite.

Ela, a Rê, e o casal Johnny e Binho.

No fim, o jantar foi ótimo e ela adorou, principalmente quando o Binho disse que ela não tinha celulites.



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha  

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