sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Miragem

Era mais um dia de vida do garoto Bernardo. Sai do colégio, vai para casa, almoça, aproveita alguns instantes para dar aquele cochilo até umas 14h, toma banho para acordar, vai para academia... ah academia... Um lugar que você ou ama ou odeia. Ficava lá umas 3 horas por dia, era musculação, spinning e alguma aula complementar, como essas que tem nesses pacotes promocionais de hoje em dia. Depois era o de sempre, voltava para casa, tomava banho, estudava (sim, estudava... Cara responsável) e descansava...

Enfim, a rotina era de um adolescente sadio, que levava a vida “de boa”, “sem stress”...

Porém, apareceu uma garota fazendo aula de “localizada” lá naquele espaço, onde sua mente fluía, descansava, e não dava para ficar perdendo o foco.

Branquinha, conversava sempre com aquele sorrisinho, Tinha um ar meio... meio... sei lá, tipo arrogante... “Essa menina parece ser chata...”, pensava o garoto sempre quando a via.

E o tempo foi passando, e todas as tardes ele a avistava na sala de ginástica, enquanto pegava pesado na musculação.

Sexta feira era dia de educação física no colégio e o melhor de tudo: no ultimo horário. Aquela empolgação, afinal de contas era um futebol competitivo entre salas. E Bernardo era bom. Seu time empatando 1 x 1, faltando 5 minutos para acabar. Ele recebeu uma bola em sua área, mas algo tirou sua atenção. Era ela, “não é possível, estuda na minha escola?” e a ficou encarando. Ela estava passando num corredor ao lado das quadras com duas amigas quando o avistou e... Virou a cara...

- Gooooollll!!!

Um grito ecoou.

- Porra, Bernardo! Ta viajando aí? Perdemos por sua causa...

- É mesmo, sua bicha...

Aquilo ali ficou marcado. Perdera o jogo. Por quê? Por que aquela menina mexia tanto com ele?

- Bernardo...

- Sim, professor...

- O que foi, amigo?

- Não é nada, eu vacilei...

- Acontece, vá para o vestiário.

Depois daquilo, sua sexta feira era puro pensamento, até quando chegou a hora tão esperada.

- Bernardo, supino reto. Pode colocar 35 kg em cada lado... 3 séries de 10 intercalado com flexão, 3 séries de 15 ....

- Ok...

- 1, 2, 3, 4, 5...

Certo... Mudança de ficha, ótimo. Seu espírito estava renovado.  Então ele a viu, a tal “miragem” que o deixou numa enrascada na educação física. Para qual aula ela estava indo? Resolveu segui-la.

Ops, ela virou a direita. Sala de quê? Nunca viu qual aula era...

Ficou olhando pela janela da porta. Cheio de meninas. Começaram a fazer alongamento. O professor começou a falar algumas coisas só que não dava para escutar. De repente, começou a tocar... Axé? Como assim?

- Olá...

- Ah... oi.. tô só vendo...

- É, eu sei... posso passar? Você está na frente e...

- Claro... Nossa, perdão...

- Que isso, hehehe... Se quiser pode entrar, não precisa ficar com vergonha...

- Nãoooo, de maneira nenhuma... que isso...

- Unh... você que sabe...

E a garota entrou. A cara do garoto ficou toda vermelha de vergonha, e, para piorar, a menina que estava sendo espionada vira aquela cena toda, não só ela a turma de, mais ou menos, 15 mulheres...

- Oh rapaz! Ei... Pode entrar! Fique à vontade... Vamos dançar...

- Ahhh... não... não posso... tenho que... fazer minha ficha....

- Daqui a pouco você volta em!!! – Uma menina gritou e todas riram.

O professor era bem legal, mas, como o mundo é muito preconceituoso, Bernardo ficou com medo de ser julgado pelos colegas que frequentava a academia... “imagina se me vissem dançando, tchacabum?? Deus me livre...”

- Mas uma coisa que ficou gravada em sua memória naquela confusão, naquele descontrole de tanta vergonha era o rosto risonho da menina...

Foi o primeiro final de semana que o Bernardo ficou desejando a segunda feira. Mas a causa daquilo ele não queria confessar. Estava apaixonado.

Segunda, enfim, chegou. O garoto foi para aula desejando encontrar a garota, ficou observando o recreio, não conseguiu encontrá-la. Será que não era sua imaginação?

Foi para academia... Mesma coisa de sempre, fez sua musculação e... Ah... Era ela... Com cabelo solto, estava linda, indo em direção à sala da catástrofe anterior.

Então, automaticamente, ele a seguiu novamente. “Espera, o que você está fazendo?”, sua mente estava lutando contra seu sentimento. Então, no impulso, abriu a porta da sala.

- Olha! Quem apareceu!!! Garotas deem as boas vindas ao... Qual é o seu nome, amigo?

- Ah... Bernardo...

- Bernardo!

- Seja bem vindo! – ecoou o grito na sala...

- Bem eu... agradeço...

Algumas meninas olhavam com curiosidade, outras risonhas e outras com apenas um sorrisinho... Bernardo começou a gostar da ideia de ficar ali, afinal de contas poderia se dar bem.  Ficou ali no fundo da sala, tímido e nada de conversar com a menina. Foi então descobrindo que gostava de dançar, e descobriu também que a dança era um imã para se dar bem com as mulheres.

O seu sentimento pela menina foi sendo ofuscado pela sua timidez de chegar nela e dizer pelo menos um “oi”, mas não era tímido para conversar com as demais.

O tempo passou, meninas saiam, meninas entravam, e ele sendo o cara do axé. Sua fama se alastrou até para o seu colégio e logo vieram as piadinhas, os preconceitos, mas foi tirando de letra. Os amigos zoavam, mas passaram a perceber que quem estava certo era o Bernardo.


E a menina? Bem... Ano que vem eles se casam.  



Bruno Farnese. Relações Públicas, filho de Roberto e Kátia. Apreciador de carne e cerveja, odeia azeitona, perder no xadrez do avô ou na peteca da avó. Gosta de tentar escrever nas horas vagas. Reclamações e sugestões? Você pode segui-lo no Twitter @bfarnese ou no Facebook.

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