sexta-feira, 21 de setembro de 2012

À procura do atendimento perfeito (Médicos - Parte I)


Ontem eu fui ao médico.

Antes que eu conte o que ocorreu, quero deixar claro que eu não sou uma pessoa estressada. Tenho acessos de raiva e stress, mas me defino como uma pessoa que tem sangue. Principalmente quando se envolve médicos, pois odeio a maioria deles.

Alguns anos atrás estive em Cuiabá para visitar um tio e passar o réveillon, junto com minha irmã e duas primas.  Logo no terceiro dia de visita e véspera da comemoração do ano novo, acordei com um estômago meio ruim. Não sou uma pessoa acostumada a ter problemas estomacais, por isso, fiquei meio mal humorado. Fomos visitar a Chapada dos Guimarães para que minha prima (geógrafa) tirasse algumas fotos e conhecesse. Porém, parecia que meus órgãos haviam decidido fazer uma churrasco de confraternização de ano novo. A churrasqueira já estava acesa e os órgãos começaram a chegar, pois se deslocavam de seus locais originais.

Como se não bastasse o tal churrasco interno, eu acho que o ser-que-não-deve-ser-nomeado (não o do Harry Potter, o coisa-ruim mesmo, o Capeta) havia transferido o Inferno para a capital matogrossense, mais precisamente para o CPA (Centro Político Administrativo), pois a temperatura já devia estar na casa do 45º dentro de um freezer na sombra.

Com a união da azia e do calor de Mercúrio, estava desfalecendo. Tinha a plena convicção que meus órgãos não voltariam a trabalhar e que morreriam no churrasco deles. Bebi água gelada, leite, chás, mas nada adiantava. Voltamos da Chapada e a mulher do meu tio quis ir ao cinema. Como homem não sente dor (eu precisava defender isso) me mantive forte, dizendo que estava bem e que no outro dia estaria melhor. Mas já sabia que era mentira.

Acordei no dia 31/12 com uma dor interna, forte, a 45º oeste da minha virilha. Meu tio resolveu me levar ao médico. Chegando lá, descobri que meu plano de saúde não me atendia lá e que se quisesse, deveria arcar com os custos particulares e depois pedir reembolso quando retornasse à Minas.  Porém meu tio assumiu os custos e fui ser atendido.

- O que você está sentindo?

- Dor aqui e dor no estômago.

- Mais alguma coisa?

- Sim, calor.

- Aqui, calor é normal. Sente algo além de dor aqui e no estômago?

- Sim. Sinto que preciso de um médico.

- Mas eu sou médico.

- Não, você não é médico. Você é um clínico-geral, uma espécie de uma secretária com ênfase em medicina. (falarei sobre isso mais tarde)

- Como assim?

- Esquece. Só sinto isso mesmo. Dor aqui e no estômago.

- Está com febre?

- Não sei, o termômetro deve ter derretido aqui no centro da Terra. Quando sair desse calor e voltar a superfície do planeta vou saber de responder.

- Você tá bem né? Fazendo piadinhas...

- Não tô bem. O que acha que é?

- Não sei. Tenho que fazer uns exames. Pode ser gases.

- Você acha que se fosse gazes eu estaria aqui? É isso mesmo? Estudou anos em uma faculdade para deduzir que é gases?

- Pode ser sim. Mas vou fazer um ultrassom.

- Ok.

E então eu fiz o ultrassom. Duas horas depois o médico me chamou com o resultado.

- Olha, pelo ultrassom não consegui identificar nada. Vou pedir um exame de sangue para poder...

- Quê? Vou esperar mais duas horas? E se for algo grave?

- Bom, preciso do exame para descobrir...

- Não tem nenhum outro palpite?

- Eu acho que é apendicite. Se eu apertar aqui dói?

- MUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUITO...

- Pois é. Tenho quase certeza que é apendicite.

- E como vai ter certeza? – perguntou meu tio.

- Bom, só abrindo para saber.

Então ficamos diante de uma situação meio incômoda. Meu tio teria que arcar com tudo. Cirurgia, exames, tudo. E eu ficaria lá. O pós-operatório inteiro. Ou então eu voltaria para BH. E operaria aqui. E essa foi a decisão tomada.
Era uma corrida contra o tempo. Saímos correndo do médico, voltamos em casa e pegamos minha mala (já havia ligado pra minha irmã que arrumou enquanto estava no caminho). E peguei o primeiro avião para BH, exatamente como a Jade fazia quando queria ir ao Marrocos.

Depois de 04 horas de vôo, meus pais já estavam me esperando no aeroporto. Graças a Deus, nessa época, o aeroporto utilizado em BH ainda era o Pampulha e não o de Confins (do Universo). E de lá, direto para o hospital. Quando meu pai estacionou o carro, imaginei que seria como seriados americanos. Uma maca me buscaria às pressas, passaria correndo pela emergência e entraria no bloco cirúrgico com vários médicos em volta. E depois de alguns minutos estaria no quarto conversando com uma enfermeira gostosa. Mas a realidade é bem diferente.

Passei por uma burocracia danada na secretaria e estava sendo aguardado por um clínico-geral.

Como vocês já sabem que eu não morri, pois senão não existia este texto, ou se houvesse vocês estariam em centro-espírita – o que não é o caso –, vou contar minha opinião sobre clínicos gerais.

Quantas vezes vocês foram ao médico, foram atendidos por um clínico geral e ele colocou uma luzinha no seu ouvido, um palito de picolé na sua língua, o estetoscópio no seu peito e disse que precisava de mais exames? Estudos apontam que todas as vezes são assim.

Pior que depois que você volta com os exames, ele fala o seguinte:

- Bem, seus exames estão normais. Como você está com dor __preencha aqui sua dor (ex: Dor de cabeça)_______ , vou te encaminhar para um  ____preencha aqui o médico ligado a sua dor (ex: dor de cabeça – neurologista) _______ amigo meu que ele vai olhar direitinho. Melhoras viu?

É sempre assim. Esses sujeitos nunca sabem o que você tem. Só sabem te encaminhar para um médico especialista. Ou seja, é uma secretária com ênfase em medicina. É capaz de alguém chegar com uma fratura exposta e a recepcionista do hospital vai te fazer passar pelo clínico geral e, consequentemente, o narrado acima, para você ser encaminhado a um ortopedista.

Acho até que os clínicos deviam pagar 20% do salário para as recepcionistas pois, se não fossem elas, seríamos encaminhados para o especialista direto e eles estariam pedindo esmola ou escrevendo blogs por aí.

Após o desabafo, voltamos ao meu atendimento com o clínico.

Bem, entrei na sala do clínico mais encurvado que o saudoso Papa João Paulo II nos últimos anos de vida  e com os exames feitos em Cuiabá na mão.

- Em que posso ajudá-lo?
- Estou com apendicite. Me encaminhe para um cirurgião o mais rápido possível.

- Calma aí amiguinho. Temos que fazer alguns exames para confirmar.

- Amiguinho é o cacete, parceiro. Olha só, às 9 horas da manhã eu estava em Cuiabá, sendo atendido por um clínico como você! Ele fez exames e descobriu que eu estava com apendicite. Olha os exames e o laudo aqui. Já são 7 horas da noite. Meu apêndice deve estar quase supurando e você querendo fazer exames? Me ajuda aí né?

- Bem, estou vendo aqui que meu companheiro médico diagnosticou apendicite. Vamos ver, senta ali por favor.

- Pra que?

- Pra eu examinar.

- Ai meu saco viu...

- Ta doendo também?

- Não p*&¨%! Só quero ser operado...

E adivinhem? O sujeito colocou a luzinha no meu ouvido, o palitinho de picolé na língua, o estetoscópio no peito e mediu minha pressão.

- É amiguinho. Sua pressão ta meio baixa...

- É claro que ta baixa, por$#! Não comi nada o dia todo e to quase morrendo. Me manda pro cirurgião logo!

- Peraí, só mais uma exame para confirmar. Vou apertar aqui e você me fala se dói. Dói?

- PUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUTTAAAAAAAAA QUEEEEE &$%$%¨$%¨$$$%$*&*)(*&%¨$#@!!! DÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÍIIII DEMAAAAAAIS!

- É, é apendicite mesmo. Vou te encaminhar para um cirurgião.

E assim fui pro cirurgião. Entrei no bloco cirúrgico às 20:30 horas, em uma cadeira de rodas e vendo os médicos cantando e falando sobre futebol, Fórmula 1, música e outros assuntos variados, enquanto operavam corpos humanos abertos.

Cheguei a ter certeza de que morreria e me arrependi em não ter feito um testamento com minhas revistas em quadrinhos, meu celular e meu cofre de moedinhas (meus bens à época).

Só sei que acordei um tempo depois, tremendo de frio. Estava em uma maca e passando pelos corredores do hospital. Meio grogue, só percebi que estava entrando em um elevador. E então lembrei que estava vivo! Mas tudo girava. Me concentrei e ouvi a voz de uma enfermeira..

- Meu Deus. Meia noite, será que vamos passar o ano inteiro buscando paciente no bloco cirúrgico?

- Pior sou eu que vou passar o ano inteiro no bloco cirúrgico – eu disse.

- Olha, o menino acordou.

E eu entrei no quarto. Minha mãe estava lá me esperando. E deu pra ver os fogos pela TV. Mas não lembro do resto da noite. Acordei bem no outro dia e fui pra casa.

Dias depois voltei ao hospital porque estava sentindo dores e descobri, através de um angiologista (mas não sem passar por todo o martírio de um atendimento de um clínico-geral), que o cirurgião não havia feito a punção do sangue “morto” em volta do apêndice, e por isso sentia dores. Então o tal médico fez o procedimento e voltei pra casa.

Uns 2 meses depois, na PUC, fui buscar um comprimido de dor de cabeça na enfermaria da universidade quando vi o meu médico cirurgião entrando lá. Ele me reconheceu e me cumprimentou. E então entrou na sala, onde estava escrito na placa:

Dr. Fulano de Tal
Médico cirurgião e Clínico Geral.

A única coisa que pensei era: Só podia ser....

PS: Como o texto ficou grande, conto o que aconteceu na consulta ao médico ontem na parte II. 

3 comentários:

  1. Vc obviamente n entende de nada do que está falando! Exames complementares são importantes como ferramentas diagnósticas (concordo que em alguns casos a clínica será soberana). Que estudos são esses que apontam que " todas as vezes são assim"? O palito de picolé, luzinha e esteto são procedimentos padrão num atendimento, aposto que qndo um médico te diagnostica sem fazer esses passos vc sai reclamando que ele n fez nada! E é óbvio que o médico em BH iria te examinar de novo, em nenhum lugar do mundo vc chega em um hospital pedindo por uma cirurgia e é prontamente atendido... Qnto à parte final vc tem razão, o cirurgiao "barbeirou" msm.
    No mais, "gases" é com "S". (esperaria mais do português de um blogueiro)

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    1. Realmente não entendo, pois não sou médico. Mas não reclamo com eles, apenas acho engraçado todo esse procedimento padrão para qualquer coisa, desde dor de cabeça até unha encravada.
      Já quanto a parte de não ser operado prontamente, achava que pelo fato de estar com exames, poderia ser levado a um cirurgião que confirmaria algo que já estava diagnosticado. Se fosse caso cirúrgico, ótimo. Se não, ele que me encaminhasse. Seria mais ágil.
      Obrigado por acessar o blog.
      PS: Obrigado também pela dica do "gases". Já consertei.

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  2. Acho que deveríamos pensar é na questão de agilidade dos exames, dos hospitais abarrotados de pacientes, muitas vezes, não dão conta do recado e outra... quantas vezes clínicos também já diagnosticaram pacientes de forma errada? Meu pai mesmo foi mandado para a casa como se estivesse com síndrome do pânico quando era um infarto! Sinceramente, procedimentos padrões são bem vindos, com toda certeza, mas é preciso mais que isso, é preciso que eles pensem em toda gama de possibilidades e exames para ver o que está acontecendo e não pensar que possa se tratar de apenas manha de um senhor, senhora, criança, ou seja quem for, em seu consultório!!!!!

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