segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ponto de Vista

E após esperar por meia hora, George entra no ônibus, já quase cheio, mas com alguns lugares vazios, inclusive um ao lado da janela.

Com seus fones no ouvido, começa a cochilar, ainda mais porque está parado perto da Rodoviária e ali sempre sobe muita gente. Enquanto o ônibus enchia, encostou a cabeça na janela e fechou os olhos tentando dormir.

Contudo, foi só o ônibus arrancar para ele despertar. E viu uma menina correndo e batendo a mão no ônibus, pedindo para o mesmo parar.

E era linda.

O ônibus estava cheio e ele percebeu que havia uma senhora já sentado ao seu lado, o que impossibilitada de ficar perto dela, porém, ele percebeu que ela estava em pé, espremida na entrada do ônibus, e dificilmente ele chegaria perto. Sem contar o fato de que sua miopia impedia de vê-la melhor.

Então, resolveu dormir.

Mas não conseguia.

Quando abria os olhos, via a dificuldade dela de se equilibrar, segurando no balaustre e com cadernos e livros ao mesmo tempo. Além disso, os óculos de armação fina que ela usava, teimavam em escorregar pelo nariz, o que dava um charme naquela falta de jeito danada.

Apenas cinco pontos de parada depois, ela conseguiu chegar até a roleta, momento em que colocou os livros e cadernos sobre a mesinha do cobrador, e pode descansar um pouco os braços, enquanto procurava moedas na bolsa.

George não conseguia parar de olhar pra ela. Era totalmente linda. Cabelos lindos amarrados e colocados atrás da orelha. Um belo corpo. E aqueles óculos...

E ela parecia corresponder. Sempre olhava pra ele. Por mais que desviasse o olhar, sempre acaba nele. E olhava nos olhos. Depois ajeitava os cabelos, parecendo querer transmitir alguma mensagem.

O ônibus foi esvaziando.

Ele não tirava os olhos dela.

Ela não tirava os olhos dele.

Até que ela ficou em pé, em frente a ele. E ele não poderia perder a oportunidade.

- Quer que carregue?

- Claro.

E ela sorriu. Entregou os livros e cadernos pra ele com um lindo sorriso. E recolocou aquela mecha de cabelos loiros que teimavam em ficar atrás das orelhas.

E ainda ajeitou os óculos.

George pensava que não iria agüentar.

Que sorriso. Que olhos lindos.

E ela começou a reparar nele.

Ele tinha olhos bonitos. Quando ele olhava pela janela, possuía um olhar determinado. Gostava disso. Era lindo de perfil. E os óculos que ele usava trazia um ar charmoso.

George olhou então para os livros dela que estavam no seu colo. Eram sobre Psicologia, mas tinham uma bela letra na etiqueta. Que letra linda. E descobriu o nome dela: Patrícia. Que nome lindo. Patty...

Patrícia olhava para aquele rapaz que estava bem vestido. Sua roupa social estava quase impecável, mesmo no fim do dia. Ficou impressionado sobre como ele soube combinar as cores. Se vestia bem e tinha um bom corte de cabelo.

Ele percebeu que ela não tinha aliança nos dedos.

Ela percebeu que ele não tinha aliança nos dedos.

"É amor a primeira vista", ambos concluíram.

E parece que Deus também, pois Ele resolveu ajudar.

A senhora que estava sentada ao lado de George se levantou. E Patrícia poderia sentar ao lado dele.

Patrícia se sentou e pediu os livros, porém aquela mecha se soltou de novo, obrigando a colocá-la atrás da orelha de novo. E sorriu sem graça.

George entregou os livros e quase pediu para fotografar aquele sorriso. Ela era demais.

Patrícia estava visivelmente sem graça. Mas sorrindo. Ela retirou o seu Ipod da bolsa e selecionou uma baladinha do Aerosmith.

E foi aí que aconteceu.

George viu que ela escolheu Aerosmith. "Não é possível. Ela tinha que ter defeito”, pensou.

E por coincidência sua playlist havia acabado. E ele teve que escolher uma nova playlist, desta vez, escolheu o disco novo do Fernando e Sorocaba.

O problema foi que Patrícia viu a escolha da playlist dele.

Não é possível. Tinha que ter algum defeito”, pensou.

Neste momento, ela virou o rosto e olhou pro outro lado. Ele fez o mesmo.

George não acreditava que Patty pudesse gostar dessas músicas. “Se ainda fosse um sambinha... mas ficar puxando saco de bandas de fora não dá.”, pensou.

E imaginou que não seria legal se envolver com alguém que estude psicologia. Ela iria ficar avaliando seu perfil e ele não poderia falar nada sem ser analisado.

E Patrícia também não acreditava que aquele cara pudesse gostar dessas músicas. “Se ainda fosse um sambinha... mas ficar ouvindo música de corno não dá”, pensou.

E começou a pensar que um homem daquela idade possuir roupas tão impecáveis era estranho e pensou “das três uma. Ou ele é apegado demais com a mãe e ela que passa as roupas dele; ou ele é casado e tira a aliança, sendo um safado; ou é desempregado e preguiçoso e só fica procurando emprego”.

E então George pediu licença e deu o sinal para descer, pois chegou ao seu destino.

Me livrei de uma roqueira que iria ficar me analisando o tempo inteiro”, pensou George enquanto descia do ônibus.

Me livrei de um filhinho da mamãe que frequenta sertanejo só para pegar meninas”, pensou Patrícia, agora na janela, enquanto via o rapaz descendo do ônibus.

E ambos seguiram viagem. Cada um com seu ponto de vista.

2 comentários:

  1. Olá. Desculpe a demora em ler; no meu trabalho os blogs estão bloqueados. Bacana o seu texto, e a ideia de contrapor as idiossincrasias dos personagens. Continue trabalhando em busca do seu estilo, e retire uma ou outra vírgula. Abraços!

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    1. Muito obrigado pela sua leitura.

      Gosto muito dos seus textos e fico honrado com sua presença aqui.

      Irei revisar com mais cuidado os próximos textos.

      Valeu!

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