(Para acessar a primeira parte, acesse aqui)
Formei.
Achei que tinha pago todos os meus pecados, mas comecei
a trabalhar em um escritório de advocacia defendo a TIM.
Sim, eu ainda precisava pagar mais pecados.
Em uma sexta-feira à tarde, recebo a pauta da semana seguinte de
audiências e vi que
estava escalado na quarta-feira seguinte, às
10hrs da manhã, para uma audiência no Juizado Especial Cível daqui de Belo
Horizonte. O tal professor panamenho era a parte autora do processo.
Na hora que eu vi o nome dele na pauta, liguei na mesma
hora para o estagiário
que estava na rua e pedi para que tirasse uma cópia do processo, pois queria todos os dados possíveis do camarada.
Cheguei para um amigo no serviço, responsável por elaborar a defesa da TIM daquele caso, e pedi para fazer a defesa. Obviamente, este amigo sorriu de uma
orelha a outra.
E no final de semana eu trabalhei naquele processo.
Estudei muito, consultei decisões do TJMG/STJ/STF.
Analisei minuciosamente cada detalhe das alegações dele e do contrato que
ele assinou e comecei a escrever a defesa da empresa, que deveria ser perfeita.
O problema é que aparentemente ele estava certo. Havíamos descumprido um
pequeno detalhe do contrato, mas ele estava devendo a TIM. Então, podíamos
virar o jogo.
A empresa até mandou uma proposta de acordo boa para acertamos, mas afastei
essa possibilidade, inclusive sem contar para minha chefe. Era questão honra
vencê-lo naquele processo.
Na segunda-feira, trabalhei até às 17hrs fazendo o
serviço do dia. Nesse horário, em que costumava enrolar, fui até a biblioteca e peguei um livro de
Direito Econômico e fiquei lendo sobre os contratos de adesão. Saí do
escritório às 20:30.
Na terça, modifiquei um pouco a defesa, acrescentando
objetos do livro e de
outras leis
especificas, como resoluções da Anatel. Neste dia, fiquei no escritório até às 21:00, o que foi excelente porque descobri algo
que poderia me ajudar, desde que achasse algo em casa para isso.
O estagiário que faria a audiência comigo pediu para
levar a pasta do processo para ele saber do que se tratava, como acontecia sempre.
- Não esquenta com este processo. Amanhã você não vai
falar nada.
- Mas e se o juiz perguntar algo?
- Deixa que eu respondo tudo.
E a quarta, enfim, chegou.
Coloquei meu terno de festa para ir à audiência. Fiquei
tão preocupado com o
processo que esqueci que o transito era infernal naquele horário. Tanto que
faltando 15 minutos para começar a audiência o estagiário me ligou e eu estava
longe ainda.
- Cara, pede o prazo de tolerância que chego aí.
Às 10 horas, quando chamaram a audiência, eu estava estacionando o carro.
Mas não sai correndo, pois sabia que tinha mais 15 minutos para entrar na sala.
Entrei às 10:15.
- Bom dia . Desculpe Excelência, mas o transito estava
um pouco complicado.
- Sem problemas.
- Bom dia Sr. (Cumprimentei o professor)
- Bom dia. Um poco atrassado né? (É muito FDP)
- Desculpe.
- Então Senhores, existe alguma possibilidade de
acordo?
O estagiário ia falar o nosso discurso padrão
tendenciando para um acordo.
- De maneira alguma Excelência. (Já cortei).
E o juiz começou a falar sobre os benefícios de um
acordo, obviamente, se
posicionando de forma contrária a operadora de telefonia. Insistiu muito, mas
não conseguiu o acordo.
- Excelência, não tem acordo. Esse senhor deve a
empresa.
- Não tem como cancelar, afinal o valor é baixo. – Questionou o juiz.
- Não Excelência.
- E um parcelamento? – Insistiu o juiz.
- Também não Excelência. Esse senhor tem uma imagem
desgastada perante a empresa. Ele está devendo. Ele que pague a dívida.
- Señor Juiz. Eu desconheço la dívida. – tentou o professor.
- Excelência, trouxe o contrato assinado por este señor. Veja.
- Essa assinatura é sua? Questionou o juiz.
- Nón. Mira minha identidad. – E mostrou a assinatura
da identidade pro juiz.
- Excelência, vejo que o autor está tentando enganar o senhor. Ele alega que a
assinatura não é dele, mas ele foi meu professor. Inclusive, cheguei a fazer
uma reclamação contra ele na Universidade, mas ele não me atendeu. Porém,
respondeu ao processo administrativo que movi contra ele e na resposta dele, ele rubricou a
folha. E veja que a rubrica dele no processo da PUC é igual a do contrato.
O cara ficou sem reação, pois aquele documento tinha
mais de cinco anos.
- O que parece Excelência é que ele está enganando a justiça. Trouxe ainda o
levantamento da empresa que mostra que algumas contas chegaram a ser pagas.
Como que alguém que alega que não contratou com a TIM pode pagar contas?
- Nón fui eu que paguei.
- Não sei quem pagou, Excelência. Mas se a conta foi enviada para ele e está
paga, presume-se que seja ele quem pagou. O titular. A pessoa que assinou este
contrato. E que está submetido a ele.
Os dois ficaram sem reação. Primeiro porque o juiz
conhecia a atuação da empresa. Sabia que nunca apresentamos tantos documentos. O outro
por eu ter me baseado em um documento pessoal.
- A TIM trouxe defesa?
- Sim.
- Aqui está senhor. O senhor vai impugnar? – perguntou
o juiz.
- Claro.
Eu sabia. E era isso que eu queria. Minha defesa tinha
10 folhas apenas, o que
é considerado pouco. No Juizado Especial, a
defesa que eu apresentasse em audiência seria entregue para o autor do processo
ler. Se ele quisesse, poderia impugnar a defesa, ditando para o conciliador os
seus motivos. Ou poderia ficar em
silêncio. Mas eu sabia que ele iria se manifestar porque ele era totalmente contra
contratos de adesão de empresas de telefonia, pois foi um dos temas de trabalho
na faculdade.
- Excelência, antes dele se manifestar, quero argüir
algo que não está na defesa. Vou argüir má-fé do autor e quero elaborar pedido contraposto.
Argüir má-fé significa que você está pedindo para o
juiz multar a outra parte porque ela tentou fraudar o Poder Judiciário. E o
pedido contraposto, significa que o réu está processando o autor. E eu fiz isso, pela primeira vez pra
empresa, exigindo que ele pagasse a dívida.
Gastei 20 minutos ditando tudo pro conciliador. E
olhava pro professor que estava muito puto. Depois cruzei os braços e o
encarei. Ele teria que se manifestar de qualquer jeito. Se ele não contestasse o pedido
contraposto que tinha feito, o juiz iria considerar como verdade e teria que
acatar o meu pedido.
O detalhe é que minhas alegações foram baseadas no
livro de Direito Econômico, ou seja, na área de atuação dele. Ele não tinha
saída, não tinha
alegações.
- Pode começar Senhor. – Disse o juiz.
O cara começou a ditar, mas gaguejou
demais. E não tinha
fundamentos.
Enquanto estava de braços cruzados e o encarando, vi
que ele só olhava pra baixo. Era o que eu queria.
Eu o havia vencido. Com as armas dele.
O juiz não deu a decisão na hora. Dias depois saiu a
sentença o condenando a pagar os valores da dívida. Ele não recorreu e pagou
tudo.
Já o encontrei de novo depois disso. Mas ele nunca mais
me cumprimentou. E em todas elas eu o encarei nos olhos.
Nunca fui um excelente advogado, porém sei que o único
processo que não poderia perder na vida foi vencido.
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