terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Peso do Samba


- Amor...

- Oi querido...

- Eu sei que estou gordo, mas está aceitável?

- Para com essa besteira, já te disse q eu te amo de qualquer jeito!

Este diálogo era constante entre Jorge e Vanessa. Oito anos de namoro, 30 kg foram creditados num corpo de 1,68 m de altura, uma batalha que, aparentemente, não tem fim.

Num belo dia, Jorge resolveu entrar numa academia e animou sua querida namorada a acompanhá-lo, afinal de contas mulher é muito mais cismada com peso do que homem.

- Spinning todos os dias, musculação 3 vezes por semana. É isso mesmo?

O responsável pela avaliação física estava impressionado com aquele guerreiro que estava parado diante dele, era muito exercício para um corpo de 1,68 m de altura e 105 kg,

Mas nem sempre foi assim, Jorge teve sua fase de corpo atlético, não sabe o que o fez para sair da linha e virar um troglodita, seu humor vai aos extremos só por causa desta guerra com a balança. 

Um mês com uma dedicação maravilhosa, sua ansiedade era enorme para ver seu novo peso.

- O quê??? Não é possível... 2 kg em um mês.. *&¨%@$, vai pra *%#$... não vou fazer mais porra nenhuma!

A revolta tomou conta do rapaz, seu temperamento chegou a ser um desafio para todos que o rodeiam... Seus problemas familiares eram os mesmos, mas parecia que tinham piorado para ele, tudo estava ruim... Como pode uma pessoa ficar tão preocupado com isso? Sim, meus caros, e não é só aparência que estava em pauta. A saúde estava também.

Passaram-se duas semanas e chegou o réveillon. E estava às vésperas do casamento do melhor amigo do Jorge, o Jonas.

- Fala Jorginho! Quanto tempo, cara... Deu uma emagrecida?

Aquela pergunta foi como se fosse uma promoção no serviço para o Jorginho, ele não acreditara no que ouvia...

- Fala Joninhas, pô cara... Você achou mesmo? Não fiz nada, to comendo do mesmo jeito...

Era mentira, por mais q ele extrapolava na comida de vez em quando, sempre foi um vigilante que não merecia aquele corpão todo.

- É sério... isso aí...

E assim foi a semana toda, super bem, ajudando nos preparativos do casamento e curtindo um reveilon em sua terra natal com uma parte querida de sua família, Jorginho estava num mundo paralelo, sem se preocupar com os seus problemas de maneira geral. Mas aí que tá, lei de Murph existe, sempre tem um filho da puta que sente prazer em chegar em você e dizer “tá gordo hein!” ou “precisa emagrecer, bicho” ou sempre tem aquela senhorinha “nossa, que fofinho né?” , desperta uma raiva monstruosa.

Chegou o dia do casório, hora de... Colocar terno de manhã? Pela primeira vez Jorginho sentiu vontade de matar seu amigo, “filho da mãe, pra quê inventar moda de marcar casamento às 11 horas da manhã, num calor desgramado? E pra piorar, só os padrinhos são obrigados a usar este traje de pinguim..” Gordo, naturalmente, sente mais calor, adiposidade é um tipo de isolante térmico para quem não se lembra das aulas de biologia.

O casamento transcorreu perfeitamente bem, tudo certo, chegou o momento mais esperado:  a festa em um sitio alugado. Almoço que prometia; Cerveja gelada, aquele almoço esperto, todo mundo trocando os trajes para um mais confortável, um sambinha rolando, melhor do que isso era impossível. Todo mundo estava feliz, ficaríamos de sábado para domingo no sitio, e a festa iria continuar.

Domingo de manhã, Jorginho foi tomar banho.  Ele se deparou com outro inimigo que não era a balança. Havia um espelho enorme no banheiro do sitio. É legal que todo mundo saiba que muitos gordos não gostam de espelho, pois não precisa ser lembrado da gordura que o envolve. É a mesma coisa no motel com aquela merda de espelho em cima da cama, Jorginho achava que aquilo era a coisa mais desnecessária do mundo, ele fica imaginando a Vanessa sendo obrigada a ver aquela bundona branca, enorme e peluda . 

Despiu-se, ficou analisando aquela barrigona de chopp e começou a ter sua crise temperamental. Colocou a roupa, participou da primeira resenha, que é a do café da manhã.

- Vamos aproveitar o sol, vamos para a piscina... – Disse Vanessa para a turma reunida na mesa.

Jorginho foi, pois, só tinha amigos íntimos ali e as pessoas desconhecidas chegariam na hora do almoço, quando começaria o samba. Ah, o samba... Jorginho já participou de um grupo de samba e pagode como colaborador, mas não tocava nenhum instrumento, isso o incomodava porque a galera sabia que ele era um sambista nato, mas não tocava nada.

- Aê Jorginho, precisaremos de você na roda hoje! Estamos desfalcados e você toca o tan-tan aí é tranquilo... – Marmita, o cantor amigo de Jonas que iria puxar o samba intimou o gordinho em apuros.

Mais essa agora, Jorginho começou a pensar em sua reputação, não poderia recusar, só acenou positivamente a cabeça.

Chegou a turma e o banjo e o cavaco a postos, pandeiro e repique de mão também. De repente empurraram um tan-tan para Jorginho... “Agora foi-se”. Se em estado normal ele não tocava bem, imagina com cachaça na cabeça.. Sentou-se ao lado do cavaco, chegou um tal de Jê para tocar um chic chic ao seu lado, a principio Jorginho não tinha nada contra o Jê, até então...

Começou aquele sambinha, Jorginho jogou toda sua reputação no lixo, viram q ele não sabia tocar nada, passou para o tal de Jê o tan tan e ficou com o chic chic. E o samba rolando e ele se virando, chamaram para ele puxar algumas musicas, mas não era cantor também. Então, para seu alivio, um cara do grupo chegou, estava pedindo o tan tan :

- Ei amigo, pede o tan tan aí para o rapaz ... – apontou para o Jê

Jorginho pensou “serei útil pela primeira vez”:

 - Ei Jê, entrega o tan tan para o camarada aqui...

- ah... vai se fuder, o gordão!

Foram as palavras que feriram o Jorginho mais que uma facada. O ódio por aquele cara surgiu instantaneamente, “isso não vai ficar assim” pensou ele..

(continua...)


Bruno Farnese. Relações Públicas, filho de Roberto e Kátia. Adorador de carne e cerveja, odeia azeitona, perder no xadrez do avô ou na peteca da avó. Gosta de tentar escrever nas horas vagas. Reclamações e sugestões? Você pode segui-lo no Twitter @bfarnese ou no Facebook.

Um comentário:

  1. Bruno; perder no xadrez,do avô... compreende-se.
    perder na peteca da avó????

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