segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Em Trânsito

Era só entrar no carro e enfrentar os engarrafamentos diários da cidade onde morava que as idéias e pensamentos brotavam.

Não se importava em gastar 50 minutos para percorrer os 8 km de distância entre sua casa e o trabalho, afinal, era o momento em que a desordem das idéias colocava os pensamentos em ordem.

E foi nessa organização de idéias e pensamentos que naquele dia ele saiu de casa.

Algo precisava ser feito em sua vida. Há tempos se sentia mal com tudo que havia acontecido e alguma providência deveria ser tomada.

Não era normal sentir essa angústia. Precisava de coragem para tomar decisões que iriam direcionar a vida e escolher um caminho. Não podia mais ficar naquela pasmaceira e não é ficando com medo das decisões que ele iria, finalmente, começar a sor...

Seus pensamentos foram interrompidos pela luz vermelha no semáforo, no cruzamento ao lado da igreja.

Com o carro estacionado, atentou-se para o som e mudou a rádio. Selecionou uma com uma música mais calma (e com o semáforo ainda proibindo que prosseguisse), passou a mão pelo cabelo, bocejou e olhou para o carro ao lado.

Que beleza!

Não o carro em si, mas a motorista que lá estava.

Por um longo instante, fixou o olhar naquela linda mulher. Estava levemente inclinada para frente, com um lápis na mão e parecendo desenhar o belo rosto com a mão direita, enquanto a esquerda baixava o quebra-sol do carro e permitia com que ela visse o próprio reflexo no espelho que ali se encontrava.

Com belos lábios e olhar marcante, ela ainda, após concluir o desenho divino que a mantinha ocupada, passou a mão nos cabelos e aperfeiçoava o que parecia impossível de melhorar. Por fim, com um batom em punho, coloriu e realçou o contorno daqueles lábios que pareciam possuir um campo eletromagnético com seus olhos, tamanha a atração que aquela boca causava.

Porém, seus pensamentos foram interrompidos novamente. Não por outras pessoas ou por algo externo.

Foi porque ela olhou pra ele.

E ele, como sempre, não sabia o que fazer. Aquele rosto visto de frente era mais perfeito ainda. Aqueles olhos, que pareciam estar esquentando cada entranha sua, eram mais cativantes que o sorriso. E aquele sorriso... Ah, que sorriso...

Mas então ele se deu conta de que, como sempre, não sabia o que fazer.

Ela estava ali, olhando para ele e a sensação era de que aquela linda mulher havia descoberto o admirador, até então, secreto.

A sorte foi que uma buzina do carro de trás alertou para a mudança de cor no semáforo. Agora, ele poderia prosseguir.

No primeiro momento, ele agradeceu a Deus por sair daquela situação constrangedora. Ele podia ir embora e nunca mais veria aquela ladra de olhares.

Assim, atravessou o cruzamento e enquanto andava por mais dois quarteirões entendeu uma irônica e sábia metáfora da vida: Transpor obstáculos.

Era isso que ele devia ter feito.
 Então, viu como foi fraco em não pedir o telefone dela. Era um obstáculo fácil de ser vencido, simples como um cruzamento. Ela poderia entregar o telefone ou não. Tinha 50% de chances. Sem contar que a opção do não era a determinante até aquele momen...

E então, um novo semáforo em outro cruzamento novamente interrompeu seus pensamentos .

Com o carro parado, olhou para o céu... Sem obter muitas respostas, olhou para o lado.

E lá estava ela.

A vida lhe deu uma segunda chance. Ou foi Deus. Enfim, não importa. O fato é que ela estava ali, novamente, com sua atração irresistível.

Encheu o peito de esperança, abriu o vidro do carro, deu uma pigarreada na garganta e...

Viu ela acenando.

Aquele suor frio, provavelmente oriundo da barriga que parecia ser responsável pela aquela sensação de que uma massa de ar polar tomava conta do seu corpo inteiro, foi o indicativo de que, mais uma vez, ele não sabia o que fazer.

Ele poderia fechar a recém-aberta janela do carro ou fingir que não era com ele. O problema é que ele não tirava os olhos dela.

Foi ai que a “massa de ar polar” mexeu e foi parar na sua medula, gerando uma sensação conhecida como “desespero”.

Ele olhou para o outro lado e viu que uma mulher que conduzia o carro que estava do outro lado correspondeu o aceno. E então se deu conta da cena ridícula.

Ele, parado entre dois carros, achando que o aceno era pra ele, mas era para o carro que estava do outro lado.

Apenas riu. Ou melhor, sorriu.

Não tinha outra coisa pra fazer. Era uma pegadinha divina ou outra ironia da vida, vai saber. 

Atravessou três quarteirões e tomou a pista da esquerda, ultrapassando a mulher que foi cumprimentada pela sua amada e se afastando, em pelo menos mais uma faixa, da tentação e da atração que ela causava. Naquele cruzamento, iria virar à esquerda e nunca mais a veria.

Naquelas luzes vermelhas e com a seta para a esquerda, olhou para a direita na esperança de um último olhar, uma despedida daquele improvável e intenso amor.

Mas ela parecia não enxergá-lo e sua atenção era toda para o rádio do carro.

Se tivesse coragem, buzinaria. Mas não tinha. E aceitava isso.

Então, restou a ele olhar para o celular e verificar se tinha recebido alguma mensagem, menção no Twitter, marcação no Facebook ou algum whatsapp que mostrasse que ele não estava sozinho no mun...

E uma buzina cortou o silêncio. A luz vermelha ainda estava vermelha. O cara que estava atrás parecia estar mexendo no celular também. Seu carro não estava sobre a faixa de pedestres. Só restou uma alternativa.

Olhou para a direita e a viu.

Sim, ela chamava sua atenção. Ela buzinou. Ela fazia sinal para baixar o vidro. Ela sorria. Ela era linda.

- Moço.

- ...

- Moço.

- Oi.

- Sua porta tá aberta.

- Oi?

- Sua porta tá aberta. (E sorriu. O sorriso mais lindo do mundo)

- Ah tá. Obrigado.

E ela manteve o sorriso, acenando novamente.

Outra buzina.

Desta vez, era o sinal que estava verde.

Ele virou à esquerda. Ela seguiu em frente.

E mais uma vez, ele entendeu uma irônica e sábia metáfora da vida.


Ele deveria ter seguido em frente. 



Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha 

4 comentários:

  1. Confesso que fiquei ansiosa pelo final feliz... rs!

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    1. Nem sempre as coisas terminam com final feliz né? rsrsrs Agradeço sua visita aqui :)

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  2. Deveria mesmo ter seguido em frente...rsrs

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    1. Pois é... rsrsrs Mas às vezes, a oportunidade está na próxima esquina né? Obrigado pela visita! =]

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